Contadora nega irregularidades, diz que era contratada e ameaça ‘ir para cima’ do jornal

Processo foi aberto pela Justiça Eleitoral e há recomendação para instauração de inquérito policial

Fátima Chaves trabalha para a Executiva Nacional do Podemos; presidente nacional do partido não respondeu

 

André Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Fátima de Jesus Chaves atendeu ao telefonema do jornal na quinta-feira perguntando quem é que estava ligando. Contadora, ela se diz nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, mas hoje mora em São Paulo e trabalha para o Diretório Nacional do Podemos. A reportagem não conseguiu confirmar a primeira informação. Há pouca ou nenhuma informação sobre Fátima na internet.

Ríspida, ela disse que não poderia falar com o DEBATE porque estaria em horário de expediente. A reportagem insistiu, e Fátima afirmou que a prestação de contas estava sendo regularizada.

“Entraram pessoas novas e elas entregaram as contas sem movimentação. Então, está sendo alterado no próprio tribunal”, alegou. Informada sobre a determinação do juiz Rafael Martins Donzelli em converter o julgamento em investigação, Fátima exclamou um longo “não”.

Quando questionada sobre por que as transferências do fundo partidário não foram devidamente declaradas à Justiça Eleitoral, a contadora reiterou: “Estou dizendo para você que a prestação de contas está sendo retificada. Que ponto vocês não estão entendendo?”.

A reportagem disse que era estranho o fato de que nenhum dos integrantes da comissão provisória do partido eram moradores de Santa Cruz do Rio Pardo. “Mas eu sou de Santa Cruz”, replicou a contadora. Fátima, no entanto, não fez parte da comissão do Podemos no ano passado. Ela apenas recebeu dinheiro do partido.

A contadora diz que morava no município e que teria parentes na cidade. Sobre a sede do partido ser num local onde há nove anos funciona uma clínica de estética, Fátima alegou que o endereço foi alterado.

“Eu não posso falar agora. Amanhã posso te ligar”, disse Fátima. O DEBATE avisou que a edição seria fechada na sexta-feira. “Vai ter de esperar”, insistiu a contadora do Podemos. “Nossa, tem tanta coisa para o jornal colocar aí de Santa Cruz”, emendou.

Questionada sobre as transferências de valores da movimentação bancária do Podemos para sua conta particular, Fátima encerrou a ligação. “Ó, ó, ó. Só vou falar uma coisa. Eu falei que depois a gente conversa. Estou em horário de trabalho”.

Sede informada como sendo da direção do Podemos é, na verdade, uma clínica de pés que funciona no local há quase nove anos

Horas mais tarde, foi a própria Fátima de Jesus Chaves que telefonou ao jornal. “Você puxou o CNPJ? Qual o endereço que consta?”, perguntou. A reportagem explicou que atualmente o partido está localizado na rua Euclides da Cunha. “Então, é o lugar dele”, disse.

Não adiantou o argumento da reportagem de que o endereço atual é a casa do presidente do partido, Murilo Sala. Antes, porém, era na rua Conselheiro Antônio Prado, 632. “Foi um engano”, disse. O endereço, sugere Fátima, permaneceu errado durante sete meses.

“Eu sou de Santa Cruz, caramba. Toda vez que vou para aí fico comprando o jornal de vocês, pô”, disse. Ela pediu para que a pauta fosse adiada para a próxima semana. O jornal, no entanto, rejeitou esta possibilidade.

Informada sobre a possibilidade de o Ministério Público Eleitoral abrir um inquérito para apurar eventual crime de apropriação indébita, Fátima amenizou o caso. “Isso é normal. Isso é tranquilo”.

“Houve um problema com a prestação de contas. Passaram para o Murilo sem mostrar a documentação das contas. Aí eles entregaram as contas como sendo zeradas. Só que ela não é”, disse Fátima. Ela reafirmou que estão sendo retificadas.

Constituição da comissão do Podemos em Santa Cruz: nenhum membro é de Santa Cruz do Rio Pardo e até a conta bancária foi aberta numa agência bancária de São Paulo

O DEBATE questionou a contadora sobre o fato de as transferências do fundo partidário não terem sido declaradas à Justiça Eleitoral. “Não foram, mas isso está sendo feito agora”, disse. “Eles não tinham movimento. Para eles, estava zerado”, diz Fátima. “Foi uma falta de comunicação”.

Sobre a existência de grandes repasses na conta da comissão municipal do partido e as transferências para sua conta particular, Fátima afirmou que “presta serviços” ao partido.

Em 8 de agosto de 2019, a conta bancária do Podemos de Santa Cruz do Rio Pardo enviou R$ 50 mil a ela. Oito dias depois, outros R$ 50 mil. Em 10, 16 e 19 de setembro do mesmo ano, mais R$ 10 mil foram a cada dia repassados a Fátima. No dia 20 de setembro foram R$ 3 mil. Em 8 de outubro, a provisória do partido transferiu mais R$ 90 mil. Já em 21 de novembro, Fátima recebeu outros R$ 6.900,00.

“Eu sou prestadora de serviços. Não adianta vocês quererem colocar isso. Por quê? O que acontece? Isso acaba virando um processo para cima do jornal”, disse.

Fátima minimizou o fato de a conta bancária do Podemos ter passado a receber dinheiro do fundo partidário um dia depois de sua abertura. “Você pode repassar. O Podemos está em todos os municípios”, alegou.

Ele também minimizou o fato do Podemos ser um partido “nanico” em Santa Cruz, nunca tendo disputado eleições. “Ué, gente. É um partido novo que está entrando. Pelo amor de Deus”, respondeu.

Ela disse que os vultosos repasses financeiros do partido não foram entregues aos atuais dirigentes do Podemos porque “ninguém pediu”.

Ao ser questionada sobre a identidade do ex-presidente da comissão, Juraci Barbosa, e se ele morava em Santa Cruz, Fátima fez uma longa pausa. Em seguida, disse que voltaria a conversar com o jornal depois. Não retornou mais as ligações.

O DEBATE também entrou em contato com a deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do Podemos. Mas ela não respondeu a reportagem.

 

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  • Publicado na edição impressa de 13 de setembro de 2020
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