ECONOMIA

União: a história de uma fazenda centenária

Velhos casarões da fazenda União são destruídos para dar lugar a mais um loteamento

União: a história de uma fazenda centenária

Proximidade da fazenda com o centro de Santa Cruz do Rio Pardo (Foto: André Fleury)

Publicado em: 01 de maio de 2021 às 01:52
Atualizado em: 01 de maio de 2021 às 02:19

Sérgio Fleury Moraes

Por todos os cantos, há sinais da época áurea do café em Santa Cruz do Rio Pardo, a cultura que fazia fortunas e empregava milhares de famílias na zona rural. São antigos barracões, restos de terreiros para secagem, tulhas e até de moradias de colonos. Tudo está sendo destruído na fazenda União, uma das mais antigas propriedades rurais de Santa Cruz e que foi sendo “recortada” ao longo de décadas devido à sua proximidade com a área urbana da cidade.

Parece incrível, mas a atual sede da fazenda está a poucos metros de um movimentado supermercado, farmácias e até escolas. A “União” é rodeada pelos bairros Fabiano, Madre Carmem, São José e parte do centro. Já foi bem maior, é claro, mas perdeu espaço para a construção de novos empreendimentos imobiliários.

A família Rosso é a proprietária da fazenda há décadas e seu patriarca, Aquino Rosso, está com 104 anos — até janeiro ele ainda assinava cheques da movimentação financeira. Rosso é um dos grandes empreendedores de Santa Cruz do Rio Pardo e, além da agropecuária, foi um dos fundadores da antiga fábrica de óleo, que vendeu nos anos 1960 e se tornou a indústria “Erisoja”.

Antigo casarão da fazenda armazenava café

Aquino Rosso comprou a fazenda União em 1971 e se transformou num grande plantador de café. Surpreendentemente, ganhou dinheiro quando veio a grande geada de 1975, que dizimou os cafezais de São Paulo e do Paraná. “Na verdade, meu pai reduziu o plantio e aumentou o gado. Na época da grande geada, meu pai tinha muito café em estoque, pois o produto estava muito barato e ele financiou uma grande quantidade pelo Banco do Brasil. Então, teve sorte e ganhou muito dinheiro”, conta o filho José Aquino Rosso, que hoje administra várias fazendas da família. No total, a família é proprietária de sete fazendas, sendo três no Estado do Pará e quatro em São Paulo.

Sorte ou providência divina, já que Aquino deveria se chamar Tomás de Aquino, em homenagem ao santo católico do qual a família é devota. “Meu avô foi ao cartório e se esqueceu do Tomás na hora de registrar meu pai. Ficou só Aquino”, lembra “Aquininho”, rindo.

José Aquino Rosso, que administra a União

A história da fazenda União remonta ao século 19, com várias porções de terras pertencente a Faustino Machado de Oliveira, fazendo divisas com propriedades de Manoel Francisco Soares — o fundador de Santa Cruz do Rio Pardo, juntamente com o padre João Domingos Figueira. O historiador Celso Prado cita escrituras paroquiais com datas a partir de 1856.

Sabe-se que a propriedade teve vários nomes, inclusive Fazenda Monjolinho, e parte das terras passou pelas mãos do coronel Batista Botelho e, depois, de sua viúva Guilhermina Brandina da Conceição, na gleba em que hoje situa-se a vila Fabiano. Uma outra parte da gleba ficou com Joaquim Pio da Silva, que finalmente a batizou de “fazenda União”. Registros agrícolas informam que, naquela época, o capitão Joaquim Pio cultivava 70.000 pés de café, além de pastos e mata virgem.

Nos anos 1950, o croata Mathias Ban loteou sua parte para vender lotes a prestação, criando a vila que leva seu nome.

Incrustada numa área urbana em expansão, a fazenda começou a ficar cada vez mais cercada por bairros residenciais. Surgiu a vila Madre Carmem nos anos 1960 e, depois, a Maristela.

Adilson trabalha na fazenda União há mais de 40 anos, quando ela ainda pertencia a Plácido Lorenzetti: “O Rosso comprou de porteira fechada e eu
fui junto”

No início dos anos 1980, a família Rosso concordou em vender uma área para o loteamento “Bosque dos Eucaliptos”. No final da década, Aquino Rosso doou quatro alqueires para o município, proporcionando a criação do recinto “José Rosso”, onde surgiu a Expopardo. Anos depois, uma outra área deu origem ao bairro “Jardim União”.

Com a cidade sempre em expansão, agora será a vez do “Jardim Imperial”, empreendimento imobiliário que deverá ser lançado ainda neste ano pela “Santa Cruz Loteadora”. A empresa comprou a área e está demolindo construções ao redor da sede e antigos barracões de café.

O grande lago deverá ser preservado, assim como o escritório da fazenda que vai ganhar uma reforma e será modernizado. O projeto inclui uma pista de caminhada e a construção de uma grande avenida que vai ligar o novo bairro ao Jardim Santana e vila Fabiano.

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Leia mais: Café impulsionou economia e
gerou empregos na Santa Cruz do século 20

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José Aquino Rosso conta que, hoje, a União é produtora de cana de açúcar e que a área cedida ao loteamento não vai interferir na cultura. Aliás, “Aquininho” estudava em São Paulo quando o pai comprou a fazenda. Posteriormente, continuou os estudos em Piracicaba. “Então, eu peguei o fim daquele movimento do café, mas já com poucos colonos”, contou. A fazenda abrigava, por exemplo, dezenas de famílias em colônias formadas por residências “geminadas”.

A história da União nos últimos 50 anos é contada por Adilson Benedito Pereira, 69, que nasceu numa das propriedades do antigo dono e hoje é o responsável pelo escritório administrativo. “Meu pai trabalhava com o Plácido Lorenzetti, que era dono da fazenda antes do Aquino Rosso. A propriedade era tão grande que começava na rua Catarina Etsuco Umezu, onde estão aquelas oficinas de tratores perto do supermercado Avenida”, disse.

O pai de Adilson criou os oito filhos na fazenda União. Adilson seguiu seus passos e continuou na propriedade quando ela foi adquirida por Aquino Rosso. “Foi uma compra, como se diz, de porteira fechada. Eu fui junto”, brinca. O café, segundo ele, ainda se manteve por alguns anos, mas foi sendo trocado pelo gado e, depois, pela cana.

O trabalho não impediu Adilson de estudar e se formar em contabilidade na antiga “Escola Técnica XX de Janeiro”. Ele diz ter saudades da juventude, quando o movimento na fazenda era grande. “Aqui era como uma cidade, com duas colônias de famílias, a casa do proprietário e muitas crianças brincando”, lembra.

 

Plácido Lorenzetti, um dos homens mais ricos de Santa Cruz do Rio Pardo nos anos 1940 e 1950, doou as terras da União aos filhos e para a irmã Henriqueta, casada com Donato Carlomagno — que se tornou um dos proprietários. Depois, toda a área foi adquirida pela família de Aquino Rosso.

Adilson trabalha na “União” há mais de 40 anos. Ele viu o surgimento do “Bosque dos Eucaliptos”, do “Jardim União” e a criação do recinto da Expopardo, tudo em terras que pertenciam à fazenda. Ele conta, inclusive, que a fábrica de doces Irlofil também foi construída numa área de 20.000 metros comprada da fazenda.

“Quando eu era criança, o café era a riqueza da fazenda. E ele era beneficiado aqui mesmo, numa máquina instalada num dos barracões”, lembra. Adilson explicou que muitos colonos trabalhavam como “meeiros”, cuidando de uma área de café e fazendo o acerto no final do ano. Durante o cultivo, os donos adiantavam recursos às famílias, que eram descontados no acerto final. “Todo mundo ganhava”, afirmou.

Era tanto movimento que a fazenda tinha até um time de futebol respeitado em qualquer bairro, criado pelo antigo administrador Salvador Biancão. O “Fazenda União” fazia a festa dos esportistas aos domingos, num campo de futebol localizado perto do casarão do proprietário.

Hoje, não existe mais o burburinho dos trabalhadores da fazenda e, em pouco tempo, também deixarão de existir os velhos barracões que marcaram a época áurea do café em Santa Cruz do Rio Pardo. “É um estranho silêncio”, avalia Adilson Pereira. 

 

* Colaborou: Toko Degaspari

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