Carroças e bicicletas já tiveram até placas

‘Pernalonga” mostra bicicleta antiga com placa, que foi obrigatória durante décadas

Documentação e placas foram
obrigatórias até a década de 1960

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Houve um tempo em que circular de carroça ou bicicleta pelas ruas de Santa Cruz do Rio Pardo exigia documento, placas e até habilitação. A norma vigorava em todo o País, mas eram os próprios municípios os responsáveis pela expedição dos documentos e emplacamentos dos veículos. Hoje, alguns municípios estão retomando a obrigatoriedade de placas para carroças ao mesmo tempo em que há campanhas para o fim deste meio de tração.
Existem referências a este passado não muito distante da história, pois o emplacamento foi abolido nos anos 1960. O historiador Celso Prado, por exemplo, possui cópias de vários documentos antigos relacionados ao emplacamento de carroças. Muitos dos anos 1930 são endereçados ao prefeito Leônidas Camarinha e informam transferência de carroças ou comunicam que o veículo encontra-se “encostado” e, portanto, o imposto não deve ser cobrado.

"Pernalonga" e suas bicicletas antigas, algumas com placas
“Pernalonga” e suas bicicletas antigas, algumas com placas

Mas existem em Santa Cruz algumas bicicletas com placas. Claro que pertencem a um colecionador, Paulo Sérgio Pereira de Castro, 58, o “Pernalonga”. Conhecido por colecionar carros antigos — possui, entre outros, um cobiçado Ford 1946 —, ele garante que é a bicicleta que mais o atrai. Pernalonga possui várias em sua coleção particular, algumas verdadeiras raridades.
É o caso de uma bicicleta Philips ano 1951, ainda original. Possui dínamo, bomba para o pneu, buzina e, claro, a placa da época. “Ela é de uma época em que a bicicleta era um requinte. Alguns modelos tinham até um banco extra para a namorada”, conta.
Outra raridade é uma Pilot ano 1951, “emplacada” e de fabricação sueca, que pertenceu ao “bicicleteiro” José Brandini. Quando era criança, Pernalonga via o mecânico passar na rua com a imponente Pilot e sonhava em possuir uma igual. Hoje, é dono da própria bicicleta. “Um dia eu fui até a casa dele para mostrar que ela ainda existe”, contou.
Um outro modelo de Pernalonga é uma bicicleta ano 1960 que pertenceu ao advogado Hélio Assad. O veículo não possui o tradicional cano central e era considerada um modelo feminino. “Na verdade, padres também usavam por causa da batina”, conta Pernalonga.
Paulo Sérgio não chegou a viver a época das bicicletas com placas. “Meu irmão mais velho tinha bicicletas emplacadas e me contou”, disse. Foi aí que Pernalonga, ávido por objetos antigos, começou a procurar as pequenas placas. “Hoje, eu posso até vender a bicicleta, mas não desfaço da placa”, garante. Segundo ele, as pessoas costumavam jogar fora a plaqueta amarela ou laranja, dependendo da década, que hoje têm grande valor.

Carteira de habilitação de carroceiro de 1938
Carteira de habilitação de carroceiro de 1938
O professor Romeu Santos Ferreira
O professor Romeu Santos Ferreira

Emplacamento

O professor aposentado Romeu Santos Ferreira, 77, trabalhou 33 anos seguidos na prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo, antes mesmo de começar a frequentar as salas de aula para ensinar História, Geografia, Educação Moral e Cívica e Contabilidade. “Entrei ainda menino, aos 13 anos, como faxineiro”, conta. O garoto era requisitado por vários departamentos, inclusive o de emplacamento de carroças e bicicletas.
Com boa memória, ele ainda se lembra de antigos funcionários da prefeitura, como Elias do Carmo, Pedro Alencar Silveira, José Cezário Pimentel e João Villas Bôas. “Muitas vezes me requisitaram para emplacar veículos, pois eu era uma espécie de ‘faz-tudo’. Eu me lembro que a placa da carroça era colocada na lateral. A bicicleta era mais fácil”, conta o aposentado.

Em 1938, requerimento pede ao prefeito a transferência da carroça de Avelino Mendonça, que havia sido vendida
Em 1938, requerimento pede ao prefeito a transferência da carroça de Avelino Mendonça, que havia sido vendida

Segundo Romeu, o emplacamento era obrigatório até os anos 1950, assim como o recolhimento de taxas. Na época, a cidade tinha “carroceiros” famosos e o trânsito de cavalos era intenso na cidade. “Alguns moradores recolhiam até o esterco nas ruas, pois também era comum a existência de hortas nas casas”, disse. “Hoje, é difícil encontrar até um pé de cebolinha”, emendou.
Com bom humor, Romeu se lembra de algumas charretes que passeavam pela cidade com mulheres dos tradicionais bordeis de Santa Cruz. “A charrete era conhecido como ‘Balaio’. Na verdade, era um desfile público, como uma espécie de propaganda”, lembra o aposentado.
A lei mudou, as placas estão restritas apenas aos veículos motorizados, as carroças são cada vez mais raras e as bicicletas estão migrando para modelos impulsionados por pequenos motores.


* Colaborou Toko Degaspari

Sobre Sergio Fleury 1456 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate