CULTURA

Aos 95, Ary ‘Cabana’ fabrica cadeiras

Idoso de Santa Cruz acorda às 4h, ama fazer cadeiras com as cordas e diz que não planeja se aposentar do trabalho

Aos 95, Ary ‘Cabana’ fabrica cadeiras

Ary “Cabana”: aos 95 anos, ele ainda continua fabricando cadeiras com cordas no lugar do tradicional plástico, com durabilidade maior

Publicado em: 28 de dezembro de 2023 às 20:19

Sérgio Fleury Moraes

 

Sua rotina diária começa muito antes dos filhos que ainda moram com ele acordarem. Afinal, é Ary Archanjo Alves Correa quem prepara o café da manhã logo que se levanta, às 4h, e já começa a trabalhar. Aos 95 anos, completados no último dia 2, Ary ainda fabrica cadeiras trançadas com tiras de plástico ou cordas.

Antes, ele também era especialista em redes – de futebol, pescarias, proteção a piscinas ou janelas de apartamentos etc. Das mãos de Ary, saiu uma das maiores redes para proteção de futebol suíço em toda a região, que até hoje está instalada num campo em Piraju. O objeto foi feito à mão e pesou quase 100 quilos.

Ary abandonou a confecção de redes quando começou a ter problemas de visão. Mas ele se orgulha de afirmar que as redes de futebol do estádio “Leônidas Camarinha” ou do campo do Cruzeiro têm sua assinatura.

 

Acima, Ary mostra cadeira de cliente sendo preparada para reforma

 

O artesão ficou tão especialista na confecção de redes que fazia de olhos fechados. Certa vez, conta, ele estava trabalhando em casa, durante à noite, na companhia do amigo Wilson Gonçalves – professor e escritor de Santa Cruz do Rio Pardo que morreu em 1993 -, quando a energia caiu. A conversa continuou na escuridão, embora Wilson estranhasse o ruído do nylon. Quando a luz voltou, Ary havia confeccionado um bom pedaço da rede. No breu, mesmo.

O artesão é conhecido como “Ary Cabana” porque o pai, Luiz Cabana, foi amigo e cozinheiro do coronel Antônio Evangelista da Silva, o “Tonico Lista”, que foi chefe político de Santa Cruz do Rio Pardo até ser assassinado em 1922. “Meu pai me contava muitas histórias do Tonico Lista. Era o mandante absoluto da cidade”, lembra.

Na verdade, o pai sabia fazer redes, mas não ensinava ao filho. “Aprendi tudo só de olhar. Meu pai não gostava de ensinar. O curioso é que, muitos anos depois, ensinei muita gente de Santa Cruz”, diz.

Ary se aposentou como servidor público da antiga Delegacia de Ensino de Santa Cruz do Rio Pardo. Na época, trabalhava meio período e, portanto, sobrava algum tempo para trabalhar com artesanato. Além das redes, era também confeiteiro, dom que herdou do pai, e vendia seus doces e salgados pela cidade. “Eu também construí botes sem nunca ter aprendido a nadar. Ajudei muitos garimpeiros que se aventuravam no rio Pardo”, conta.

Ele também pescava – e muito. Não por lazer, mas para vender os peixes. “Eu fazia de tudo, pois tinha muitos filhos para sustentar”, lembra. Ary é pai de 10 filhos, um deles já falecido. Todos comeram muito peixe, inclusive o pai. Talvez esteja neste hábito alimentar o motivo para tanta saúde do ancião.

De fato, ele trabalhou muito na vida. Antes da Delegacia de Ensino, Ary trabalhou na empresa de Ibraim Zacura, de compra e venda de cebola, batata e alho. Ele, por sinal, dirigia o caminhão para entrega sem ter habilitação. “Mas eu dirigia bem e o patrão conversou com os policiais. O duro é que o caminhão, um antigo Hell, não aguentava subir carregado. Era um desespero”, lembra.

Ary disse que lavava o caminhão depois do serviço e, às vezes, usava o veículo para namorar. “Eu saía pelas ruas para passear”, disse.

 

Festa de aniversário que contou com a participação até do prefeito Diego

 

Por conta da amizade com a família do patrão, Ary disse que cultivou uma forte amizade com a artista plástica Mariza Zacura, que hoje mora em Arraial D’Ajuda, na Bahia, onde tem seu ateliê e esculpe suas esculturas conhecidas em todo o País. “Eu vi a Mariza nascer, no começo de uma madrugada. Até hoje ela sempre me telefona, inclusive me parabenizou no meu aniversário. É comum ela me chamar de pai”, conta Ary, emocionado.

Hoje, Ary se limita à produção de cadeiras. Mas não é apenas trançar os fios, pois ele também trabalha no design da peça, na solda dos ferros e até na pintura final. “Trançar é o mais fácil, pois já tenho experiência. Demoro em média uma hora e meia para terminar. Se bobear, quando meu filho acorda já tem uma cadeira pronta”, brinca.

A produção, porém, já é bem menor. “Comecei a ter dores nas costas”, diz Ary, garantindo que não vai deixar de fabricar as cadeiras. “Só reduzi o ritmo”, garante. E não é para menos. Ao trançar as cadeiras ou “travá-las” com a solda, o artesão faz verdadeiros malabarismos. Em certos momentos, ele precisa ficar debaixo dela. “A idade pesa um pouco”, diz, aos 95 anos.

Ary “Cabana” ainda tem clientes cativos, que levam cadeiras para reforma ou mesmo para adaptação das cordas. “Tem muita cadeira minha por aí. Aliás, pelo Brasil todo”, garante. 

 

* Colaborou Toko Degaspari

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