Artigo: ‘Verdades – Ad hoc’

Verdades – Ad hoc

Carlos Eduardo Gonçalves *

Dentre inúmeras discussões informais de educação que participei, em todas elas sempre ouvi que a educação deveria ser mais valorizada, de que o professor deveria ser bem remunerado, que no Japão a única profissão a quem o chefe de estado se curva é a de professor, e blá, blá, blá… Mas de forma unânime, sempre vem a pérola: “O professor é psicólogo, o professor é assistente social, o professor é médico, o professor é terapeuta familiar, o professor é isso, o professor é aquilo etc. O professor tem que fazer papel de pai e mãe, e acaba não tendo tempo para ensinar”.
Aposto que vocês, leitores, também já ouviram isso, ou até concordam com esse pensamento. Falta ensino! Não é? Perdoem-me psicólogos, assistentes sociais, médicos, terapeutas familiares, pais e mães. Além de ensinar, eu também já fui um pouco de vocês participando da educação de seus filhos. E continuarei sendo. Não se trata de exercício ilegal de profissão, mas de omissão culposa da sociedade e omissão dolosa do poder político.
Disse e repito, falar de educação é ardiloso, ainda mais quando o filho é dos outros. Educação escolar não é, somente, ensino das “verdades” artísticas, linguísticas ou científicas, mas a interpretação de como a sociedade opera. Não sou nenhuma professora Helena da novela Carrosel, mas confesso, devemos ser firmes, sim, sem jamais perder a ternura.
Isso me lembra um estudo de especialização lato sensu feito na Unesp – Campus Botucatu, cuja questão de pesquisa era a seguinte: “O que é necessário para que vocês, crianças do ensino fundamental I (1º ao 5º ano), tenham um bom aproveitamento escolar?”, A resposta dos alunos foi feita em forma de desenho, e pasmem, 80% das crianças desenharam algo parecido com uma ceia familiar. Um jantar, com a família reunida. A escola onde a pesquisa ocorreu, era de periferia. O prato de comida à mesa e a família estavam retratadas na maioria das gravuras feitas pelas crianças.
Embora não trabalhe com crianças desta idade, me identifico fortemente com essa realidade, pois a clientela da escola pública onde leciono é caracterizada como uma região dormitória. Entendo como dormitória no sentido de que os pais ou responsáveis legais das crianças e jovens acordam cedo, (as vezes mais cedo que os próprios filhos), vão trabalhar, almoçam fora de casa e voltam a noite, exaustos. A casa é alegoricamente, um espaço na paisagem urbana, feita para dormir e recuperar as energias para o próximo dia de trabalho.
Mas essa não é somente uma realidade da classe proletária. Concordo. Essa é uma realidade da classe média. Só há uma pequena diferença. Enquanto a criança ou o jovem pobre se lambuza de ócio laborativo, o jovem da classe média se lambuza de ócio criativo. Enquanto um limpa a casa, o outro faz inglês, enquanto um lava a louça, o outro está no contraturno da escola, enquanto um cuida dos irmãos menores, o outro vai ao “clube mais bonito do interior”.
Nunca, quando criança, tive a oportunidade de participar de excursões escolares para museus, zoológicos, jardins botânicos, enfim, viagens culturais, por restrições financeiras de meus pais. Mas sempre fui um menino danado, enquanto meus amigos vivenciavam a história através destas viagens, eu pesquisava a fundo tudo a respeito nas enciclopédias para não ficar de fora dos assuntos. Para mim, uma forma de enfrentar a realidade, até então dada pela incompreensão das restrições orçamentárias da família.
Meu finado pai nunca me deu um centavo para essas viagens, mas nunca me faltou crédito para comprar qualquer material escolar na Gráfica Somar, do Baiano, descendo o Banco Itaú. Sou grato a isso, pois me fez entender que nada cai do céu. Isso me colocou de pé para enfrentar a realidade e me fez o que sou hoje.
A pesquisa que retratei logo acima, está corretíssima. A família é fundamental. Não importa se é composta tradicionalmente por papai, mamãe e bebê, ou se o conceito de família foge da tradição religiosa patriarcal. O que importa, é que se tenha cuidado e ternura, essa é a lição que a pesquisa com crianças carentes de Botucatu nos mostrou, essa é a lição que a vida me tem mostrado.

* Carlos Eduardo Gonçalves é professor de Santa Cruz do Rio Pardo, biólogo e doutorando em Educação para a Ciência.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate