Nos porões da ditadura militar

Parte do acervo dos órgãos de repressão da ditadura está arquivado no antigo prédio do Deops de S. Paulo

Arquivo do Estado tem vários santa-cruzenses
cujos passos eram investigados pela ditadura

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O golpe militar que suspendeu o Estado de Direito no Brasil e afastou a democracia do cidadão durante mais de duas décadas possuía aparatos que investigavam pessoas em qualquer lugar do País. Hoje, alguns destes documentos estão sendo digitalizados e disponibilizados à população, como parte de uma história de terror que não merece ser repetida. Um desses arquivos está sendo formado pelo governo de São Paulo, que digitalizou milhares de documentos que mostram a vigilância sobre pessoas e organizações. Curiosamente, o acervo está no “Memorial da Resistência” de São Paulo, que fica exatamente no prédio do antigo Deops, um dos órgãos de controle social e repressão da ditadura.
O Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), subordinado ao Dops (Departamento de Ordem Polícia Social), era tido como o principal órgão de inteligência e repressão em São Paulo durante a ditadura militar. Antigo, ele também foi importante no Estado Novo, quando Getúlio Vargas impôs sua ditadura.

Acima, ficha mostra que ditadura vigiava os passos do ex-deputado Lúcio Casanova Neto, cassado pelo AI-5 apesar de ser simpatizante do regime militar instalado em 1964
Acima, ficha mostra que ditadura vigiava os passos do ex-deputado Lúcio Casanova Neto, cassado pelo AI-5 apesar de ser simpatizante do regime militar instalado em 1964

No entanto, como mostram documentos encontrados após a redemocratização do País, na ânsia de investigar toda e qualquer atividade o Deops fichava personalidades que nunca ameaçaram nenhuma instituição política. É o caso do ex-jogador Pelé, do cantor Roberto Carlos, do escritor Monteiro Lobato e dos apresentadores Silvio Santos e Hebe Camargo. Todos eram monitorados.
O prédio onde funcionou o Deops/SP, no centro de São Paulo, era usado para torturas de presos políticos e se transformou num dos símbolos da ditadura. Hoje, é um centro de cultura, expondo artes e as memórias de um período doloroso. O imponente prédio, construído em 1914, foi projetado pelo arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, o mesmo que assinou os projetos da antiga Câmara Municipal e da estação ferroviária de Santa Cruz do Rio Pardo.
Quem iniciou a abertura dos arquivos do Deops foi o ex-governador Franco Montoro (1983-1986), que determinou a guarda rigorosa de todos os documentos. Anos depois, eles foram digitalizados e, ainda incompletos, estão sendo disponibilizados na internet. Há fichas de milhares de pessoas, muitas com números de prontuários que só podem ser consultados pessoalmente.

A ficha do economista santa-cruzense Edjalma Dias, disponível no arquivo digital do governo de São Paulo, diz que ele pertencia à “organização subversiva terrorista” PC do B (Partido Comunista do Brasil) e traz, inclusive, uma fotografia apagada do então líder estudantil. Edjalma foi preso em Santa cruz em fevereiro de 1972
A ficha do economista santa-cruzense Edjalma Dias, disponível no arquivo digital do governo de São Paulo, diz que ele pertencia à “organização subversiva terrorista” PC do B (Partido Comunista do Brasil) e traz, inclusive, uma fotografia apagada do então líder estudantil. Edjalma foi preso em Santa cruz em fevereiro de 1972

Santa Cruz

Estes arquivos da ditadura militar trazem os nomes de vários santa-cruzenses. O próprio diretor do DEBATE tem várias fichas, inclusive com informações posteriores à própria extinção do órgão de repressão. O jornal foi um dos críticos da ditadura militar e chegou a integrar o “Comitê Estadual pela Liberdade de Imprensa” nos anos do regime autoritário.

Ficha do jornalista Sérgio Fleury traz informações até de 1996, quando o Deops já havia sido extinto com a volta da democracia ao País
Ficha do jornalista Sérgio Fleury traz informações até de 1996, quando o Deops já havia sido extinto com a volta da democracia ao País

Uma das fichas mais emblemáticas é a do economista santa-cruzense Edjalma Dias que, segundo consta, integrava um movimento que lutava contra a ditadura. Alertado pelo então cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, de que seria preso pelas forças do regime militar, Edjalma deixou a capital e refugiou-se na casa dos pais em Santa Cruz.
Foi preso na cidade em 1972 e levado para os órgãos de repressão. Na verdade, o economista só não foi morto porque, segundo ele próprio contou ao jornal, a família procurou o auxílio do ex-governador Roberto Abreu Sodré, cujo pai foi prefeito de Santa Cruz.
Na consulta ao Arquivo do Estado, Edjalma está fichado no prontuário número 55.857, caixa 69. Um dos documentos traz, inclusive, uma fotografia do economista. Segundo a ficha, o santa-cruzense seria simpatizante do Partido Comunista do Brasil e possuía o codinome “Ari”.
Outra ficha ainda mais antiga é o prontuário do santa-cruzense Dário Nelli, tio do consagrado músico Mário Nelli. No campo referente à atividade, o Deops registrou “comunista”. Mais abaixo, o documento faz referência a uma lista de “elementos simpatizantes do Partido Comunista no interior de São Paulo”.

Sobre Sergio Fleury 1851 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate