Cruzeiro da misteriosa São Domingos de Tupá foi restaurado

Celso Prado e Junko visitaram o cruzeiro do cemitério de Tupá em abril

Peça do século XIX retirada das ruínas do cemitério
da antiga comarca eclesiástica está em Agudos

Cruzeiro foi restaurado e agora está num espaço cultural no município de Agudos, para visitação pública
Cruzeiro foi restaurado e agora está num espaço cultural no município de Agudos, para visitação pública (Foto: Aurélio Alonso)

Mais de dois meses depois de ser retirado das ruínas do antigo cemitério de São Domingos do Tupá, cidade que desapareceu nas imediações de Domélia, um velho cruzeiro foi instalado na segunda-feira, 24, no “Espaço Histórico Plínio Cardia”, um museu particular em Agudos. A relíquia histórica foi retirada da mata em maio, depois que os historiadores santa-cruzenses Celso Prado e Junko Sato Prado visitaram o local e perceberam que o cruzeiro estava apodrecendo e prestes a cair.
A “expedição” do casal Prado aconteceu em 30 de abril, um domingo. Celso tem inúmeras pesquisas sobre Tupá, mas queria ver de perto o que sobrou, os restos do antigo cemitério e a cruz de madeira que parece guardar o lugar. O local já havia sido visitado pela reportagem do DEBATE em 2004, mas Celso Prado não gostou do que viu.
O mato encobriu praticamente todo o lugar e os historiadores precisaram recorrer a um lavrador para penetrar na mata. O cruzeiro do cemitério ainda estava no local, mas em péssimas condições e já ruindo. Celso Prado observou que as ruínas de pelo menos 200 túmulos ainda estão espalhadas pela área.
Os historiadores também planejavam descobrir restos de um antigo “pelourinho” de São Domingos do Tupá e sinais de um “rego d’água” que existia na área urbana da antiga civilização. O matagal, porém, não permitiu.
Duas semanas depois, uma equipe do “Espaço Histórico Plínio Machado Cardia” voltou ao local e, sob supervisão do historiador Celso Prado e do prefeito de Agudos, Altair Francisco Silva, retirou o cruzeiro que há aproximadamente 200 anos estava inerte na entrada do cemitério. Quatro homens resgataram a relíquia e precisaram cortar a madeira da base, que estava podre.
O objeto foi restaurado e está no Espaço Histórico de Agudos por determinação da prefeitura. Os responsáveis assinaram um termo de guarda do cruzeiro, que poderá ser visitado pelo público.

Apogeu e queda

São Domingos do Tupá começou a ser povoado, segundo pesquisas de Celso Prado, em 1834. Foi uma espécie de “sentinela e fortaleza” do sertão paulista. A partir de 1850, São Domingos já tinha o título de “comarca eclesiástica” e era o local onde se registravam casamentos e nascimentos de toda a região, inclusive de um lugarejo incipiente que mais tarde se chamaria Santa Cruz do Rio Pardo. Em toda a região, somente Tupá tinha um padre no século XIX.
Com a proclamação da República, o local começou a perder prestígio ao mesmo tempo em que Santa Cruz do Rio Pardo progredia cada vez mais. No início do século XX, São Domingos do Tupá entrou em decadência e foi desaparecendo ao longo dos anos. Tudo foi demolido, inclusive a igreja. Restaram apenas as ruínas do antigo cemitério — e seu cruzeiro, que agora está exposto em Agudos.


O cruzeiro da antiga cidade que desapareceu pode ter mais de 200 anos
O cruzeiro da antiga cidade que desapareceu pode ter mais de 200 anos (Foto: Aurélio Alonso)

Inscrições na peça ainda
intrigam os historiadores

Depois de participar do projeto de retirada e preservação do cruzeiro da antiga São Domingos do Tupá, o historiador Celso Prado tem outro trabalho: decifrar as inscrições que ainda são legíveis na peça. No objeto, aparecem esculpidas na madeira as letras “Z.B.Z. — I. – B.F.Z.G.F.F.”, cujo significado ainda é um mistério.
Ainda numa pesquisa preliminar, o historiador acredita que as primeiras três letras se referem a “Zeta Betha Zeta”, cujo significado pode ser sepulcrário ou “lugar de sepulturas”. As demais letras são enigmas complicadas.
Em pesquisas preliminares, o historiador acredita que as inscrições fazem referência a dois extremos, no interior da qual são classificadas conforme seu tamanho, valor ou duração. Enfim, pode ser uma frase sobre o caminho da vida, entre o viver e morrer.
Outra pequena inscrição no final (“F.S. et S.”) é comum em muitos monumentos da antiguidade que eram de uso particular. Talvez seja uma referência aos túmulos, mas só o tempo e as pesquisas vão descobrir o real significado das inscrições no cruzeiro.

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