A história no cemitério

MEMÓRIAS ANTIGAS — Alguns túmulos do cemitério de Santa Cruz foram construídos no início do século XX

Feriado de quinta-feira deverá levar quase 15 mil pessoas
ao cemitério que guarda parte da história de Santa Cruz

O feriado de Finados, na próxima quinta-feira, 2 de novembro, deve levar quase 15 mil pessoas ao cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo. Neste ano, houve mudanças na legislação do município e até a próxima terça-feira, 31, os serviços de lavagem e pintura de túmulos não serão taxados. A partir deste dia, as famílias devem recolher uma taxa para a autorização.
Desde 2013 a administração implantou um sistema informatizado de cadastramento dos túmulos e notificação de jazigos abandonados. O programa já resultou na reforma de inúmeros túmulos. Além disso, a prefeitura disponibilizou uma página na internet com informações diárias sobre falecimentos. Em breve, também haverá um aplicativo para encontrar o endereço de túmulos no cemitério de Santa Cruz.
Também foi proibida a venda antecipada de terrenos para a construção de túmulos. No ano passado, por exemplo, o jornal publicou reportagem sobre pessoas ainda vivas que estão com os túmulos prontos, alguns inclusive com fotografias. Há pelo menos quatro deles no distrito de Caporanga.
Para a próxima quinta-feira, a direção do cemitério anunciou a realização de cinco missas para os católicos, na capela existente no próprio local. As celebrações serão realizadas às 7h (padre Gerson), 9h (padre Davi), 10h30 (Frei Cardoso), 15h (padre Robson) e 17h (padre Xavier). Haverá, também, cultos evangélicos em horários ainda não divulgados. A partir de quarta-feira, 1º, também começam a montagem das barracas do comércio que costuma funcionar no feriado nas imediações do cemitério.

Em 1952, ainda existiam restos do antigo cemitério que ficava no centro de S. Cruz, no terreno onde existe o 1º Distrito Policial, ao lado do Fórum
Em 1952, ainda existiam restos do antigo cemitério que ficava no centro de S. Cruz, no terreno onde existe o 1º Distrito Policial, ao lado do Fórum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

História

Por ser uma cidade centenária, o cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo é uma espécie de repositório da história municipal. Há túmulos construídos, por exemplo, no início do século XX, há mais de 100 anos. Um deles enterrou uma história fascinante, a do coronel Batista Botelho. No último governo de Onofre Rosa de Oliveira, a prefeitura reformou o túmulo do coronel, que está localizado numa “área nobre” do cemitério, nas proximidades da capela.
Batista Botelho morreu em julho de 1902. Ele é considerado o primeiro “prefeito” de Santa Cruz, cargo que não existia na época. Na verdade, o coronel era o chefe político da cidade.
Em julho de 1902, em circunstâncias que jamais foram esclarecidas, Batista Botelho deu um tiro no próprio ouvido. Morreu uma semana depois.
Os políticos que imediatamente sucederam Batista Botelho não estão no cemitério de Santa Cruz do Rio Pardo. O médico Francisco de Paula Abreu Sodré, por exemplo, mudou-se da cidade em 1907, o mesmo ano em que foi eleito deputado estadual, e provavelmente está sepultado em São Paulo. Entretanto, tido como o segundo “prefeito” da história, ele era o presidente da Câmara em 1906 quando começou a construção do ramal ferroviário entre Santa Cruz e Bernardino de Campos. Como os trilhos passaram na propriedade de Sodré, um local de desembarque virou uma povoação e hoje é o distrito de Sodrélia, nome em homenagem ao antigo chefe político.
O coronel Antônio Evangelista da Silva, que se transformou no chefe político após Sodré, também não está enterrado no cemitério de Santa Cruz. Há informações de que “Tonico Lista”, assassinado a tiros em 1922, foi sepultado no cemitério do Araçá, em São Paulo. Entretanto, décadas mais tarde a família, em dificuldades financeiras, teria vendido até o jazigo do outrora poderoso coronel.
Políticos à parte, o cemitério de Santa Cruz também possui outros túmulos que costumam receber muitos visitantes. É o caso da “santa” (na crendice popular da cidade) Rita Emboava, que hoje é até nome de bairro popular. Figura mística, Rita viveu em Santa Cruz entre o final do século XIX e 1931, quando morreu. Ela tinha lepra, mas sobreviveu ao marido e aos próprios filhos. Sua bondade e condição miserável comovia a população. Rita chegava a distribuir aos mais pobres o alimento que recebia como doação. Seu enterro parou a cidade, com direito a manchete de primeira página dos jornais da época e discursos à beira do túmulo. Ao longo dos anos, Rita Emboava ganhou uma capela no centro de Santa Cruz e outra no cemitério, onde está sepultada. Nos feriados de Finados, é o túmulo que mais recebe velas.
Outro local muito visitado é o monumento aos dez torcedores da Associação Esportiva Santacruzense que morreram num acidente na rodovia Raposo Tavares em 1963, quando viajavam para assistir ao penúltimo jogo da temporada em que o time seria o campeão do campeonato paulista da Segunda Divisão. Ao lado do monumento, estão enfileirados os túmulos dos torcedores.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate