Torre de matriz tem antigo sino da capela de São Benedito

Sino foi fundido na época em que a igreja, hoje matriz, era ainda a Capela de São Benedito de Santa Cruz do Rio Pardo

Sino foi fundido em empresa que
surgiu em 1898 e que ainda existe

José Tempesta acionou sino para a reportagem: "Já é hora da missa"
José Tempesta acionou sino para a reportagem: “Já é hora da missa”

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Um enorme sino, fabricado por uma fundição paulistana que surgiu em 1898 e pertencia a um imigrante italiano, enche os olhos de quem tem a disposição de subir quase 30 metros até a torre da Igreja Matriz de São Benedito, em Santa Cruz do Rio Pardo. É lá no alto, mais próximo do céu, que está guardada uma das relíquias da Paróquia de São Benedito. O sino, por sinal, ainda é da época em que a igreja era capela, pertencente à Paróquia de São Sebastião. No entanto, ele não é mais usado, uma vez que um aparelho digital simula as badaladas que ecoam no bairro.
Apesar das inúmeras gravuras sacras impecáveis no bronze cinzento, não há informações sobre o ano de fabricação do sino. Sabe-se, porém, de acordo com as inscrições, que o sino foi fabricado pela Fundição Artística Paulistana, empresa fundada em 1898 pelo pioneiro italiano Angelo Angeli e que existe até hoje, atravessando várias gerações da família.
A Matriz de São Benedito, hoje o maior — e talvez o mais belo — templo católico de Santa Cruz do Rio Pardo, ainda não terminou sua ampla reforma. Na última quarta-feira, o próprio padre David Antonio, por exemplo, estava com as mãos sujas de tinta. Afinal, pintar uma igreja maior do que a catedral de Ourinhos é uma missão que envolve muita gente.

Lateral da Igreja de São Benedito, o maior templo católico de Santa Cruz
Lateral da Igreja de São Benedito, o maior templo católico de Santa Cruz

Mas nem sempre a igreja foi a suntuosidade que hoje se apresenta. Segundo o historiador Celso Prado, a construção da Capela de São Benedito teria começado a ser planejada em 1903, pelo padre Francisco Botti. Foi quando se chegou a um acordo sobre as terras de Santa Cruz, que pertenciam, em sua totalidade, à Igreja Católica. A instituição religiosa abriu mãos dos terrenos, mas reservou pelo menos cinco praças como sua propriedade. Uma delas era o Largo do Rosário, que teve o nome mudado para “Praça Treze de Maio” e finalmente, a partir de abril de 1976, Octaviano Botelho de Souza. Mas a capela propriamente dita só foi concluída em 1928.
Celso Prado antecipou ao jornal que acredita ser o sino relativamente novo no contexto histórico. “Ele deve ter sido fabricado a partir de 1937 porque neste ano foi criada a Paróquia de São Sebastião”, contou o historiador. Antes, era Paróquia de Santa Cruz.
Ele fez esta avaliação com base nas fotos do sino mostradas pela reportagem, onde aparecem as inscrições “Capela de São Benedito – Paróquia de São Sebastião”. Já São Benedito deixou de ser capela e se transformou em paróquia entre 1963 e 1966.
Pois Celso Prado está certo. A reportagem observou que, na inscrição da fundição responsável pelo sino, há o nome do proprietário: Viscardo Armínio José Angeli. Ele é filho do fundador da empresa, o italiano Angelo Angeli, e só assumiu o comando da fundição em 1938. Portanto, o sino foi fundido depois desta data. Mesmo assim, é muito antigo.

O sino e suas inscrições, uma delas, em latim que significa: ‘Fala, não te cales’
O sino e suas inscrições, uma delas, em latim que significa: ‘Fala, não te cales’
Tempesta aciona o sino
Tempesta aciona o sino

Saudosismo

Independente da data da fabricação, o sino sempre atraiu o zelador da igreja, José Roberto Tempesta. Aos 64 anos, ele trabalhou na zona rural mais de quatro décadas antes de se instalar na cidade. Talvez por isso, ainda tem disposição para subir a torre da igreja várias vezes por semana. Foi ele, a pedido do padre David, que mostrou o sino à reportagem.
Chegar ao topo da matriz não é tarefa simples. É preciso vencer vários lances de uma escadaria de madeira. Mas a visão da cidade no alto da torre vale qualquer esforço. Tempesta que o diga, já que percorre os degraus íngremes várias vezes por semana. “Eu gosto muito de coisas antigas. E este sino é histórico”, disse o zelador.
Segundo ele, havia outro sino, bem menor, que era emprestado de uma fazenda da família Botelho, mas acabou sendo devolvido.

Sino fica no alto da torre da igreja
Sino fica no alto da torre da igreja

O velho e enorme sino está no chão, pendurado num contrapeso de ferro. O trabalho de pintura da igreja derramou gotas de tinta no bronze, nada que uma boa lavada não resolva. Mas o que vale a pena é ouvir o som da forte badalada, que José Roberto fez questão de mostrar à reportagem. “Fique tranquilo porque está quase na hora da missa mesmo”, avisou.
E balançou o sino, entoando o mesmo som ouvido no passado pelos fiéis da antiga Capela de São Benedito.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate