Tragédia que matou torcedores da Esportiva completa 55 anos

CAMPEÃO DE LUTO — O time foi campeão em 1963, título relativo ao cmapeonato da Segunda Divisão de 1962

No dia 15 de agosto de 1963, dez torcedores morreram
quando viajavam para penúltimo jogo da temporada

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Este domingo, Dia dos Pais, será de saudade para várias famílias de Santa Cruz do Rio Pardo. Na próxima quarta-feira, 15, serão completados 55 anos do acidente que matou dez torcedores da Esportiva Santacruzense perto do município de Angatuba. Uma kombi que transportava os torcedores para o penúltimo jogo do campeonato da Segunda Divisão, em São Caetano, bateu de frente com um caminhão na contramão, matando todos os seus ocupantes. A Santacruzense foi campeã da Segunda Divisão, mas o título histórico ficou definitivamente marcado pela tragédia.
O campeonato em disputa ainda era o da temporada de 1962. Como muitos times disputavam o torneio e houve problemas no calendário da Federação Paulista de Futebol, os jogos se arrastaram pelo ano de 1963, até o final de agosto.
A Esportiva Santacruzense tinha, segundo aqueles que acompanhavam o time naquela temporada, um esquadrão muito forte. Com Dido no gol e craques como Bravo, Padaia, Mendoncinha, Milão, Suíngue (que depois jogou no Corinthians) e outros, o time foi avançando a chegou à penúltima rodada da competição só dependendo de suas forças para conquistar o título.
O penúltimo jogo, contra o Cerâmica, em São Caetano, mobilizou torcedores de Santa Cruz. Alguns tiveram a ideia de seguir numa caravana para prestigiar o time. Dez torcedores fretaram uma perua Kombi e, na manhã de 15 de agosto de 1963, uma quinta-feira, saíram de Santa Cruz do Rio Pardo rumo à cidade do ABC paulista. Muitos preferiram viajar com o próprio carro.

A Kombi foi destroçada pelo FNM na rodovia Raposo Tavares: dez mortos

O desastre

Com os dez torcedores “apertados” na Kombi, a viagem seguiu aparentemente tranquila até Angatuba, apesar da rodovia Raposo Tavares ter um movimento intenso naquela época, quando a Castello Branco — batizada primeiramente de “Rodovia do Oeste” — ainda estava em construção.
Do lado contrário, viajava um caminhão FNM de 10 toneladas. Tudo indica que o motorista atravessou a noite dirigindo, já que ele já havia sido parado numa base da Polícia Rodoviária por estar com um farol queimado. Na manhã, testemunhas contaram que o FNM abusava da velocidade e de manobras imprudentes. Enquanto isso, os dez torcedores da Santacruzense fizeram uma pequena parada num posto da rodovia. Tomaram café e seguiram a viagem, sem saber que jamais chegariam ao destino.
No quilômetro 191 da Raposo Tavares, o caminhão FNM invadiu a pista contrária para ultrapassar outros veículos. O local era uma lombada e, de repente, a Kombi apareceu. O choque foi frontal e pedaços dos corpos dos torcedores ficaram espalhados pela pista. O motorista do caminhão fugiu.

Semanas depois do acidente, Esportiva estreou em outra divisão, em São José do Rio Preto

Um dos primeiros a passar pelo local do acidente foi o ex-vereador José Carlos Camarinha (que naquele ano iria se eleger vice-prefeito de Carlos Queiroz). Camarinha — que morreu em 2009 — disse que não parou o carro porque a visão era aterrorizante. Foi ele quem avisou os dirigentes da Esportiva sobre a tragédia, já em São Caetano.
Morreram no acidente José Biondo, João Simão Ávila, Adelson Morandim, Sergio Sartorato, José Cardoso, Otorimo Sartorato, Luiz Andrade, Adalberto Manzo, Antonio Benedito de Andrade e José Carlos de Andrade.
Os jogadores da Santacruzense entraram em campo sem saber do acidente. Foi uma decisão dos dirigentes, para que eles não ficassem abalados. Ao menos para o futebol, deu certo. O time venceu o Cerâmica de São Caetano por 1×0 e passou a depender apenas um empate na semana seguinte para conquistar o histórico título de campeão da Segunda Divisão. De fato, o empate contra o Ituverava fez a Esportiva campeã paulista. No último jogo, o time entrou em campo com uma faixa preta no uniforme, em sinal de luto pelos torcedores mortos no acidente.
Em Santa Cruz, o luto de várias famílias abalou a cidade. O então prefeito Onofre Rosa de Oliveira decretou luto oficial e a população presenciou um dos maiores enterros de todos os tempos, com milhares de pessoas acompanhando os dez caixões e a missa na capela do Cemitério da Saudade.
Os dez foram enterrados em jazigos próximos. Meses depois, a prefeitura providenciou a construção de um pequeno monumento em homenagem aos torcedores. Até hoje, segundo a direção do cemitério de Santa Cruz, é um dos locais mais visitados durante os feriados de Finados.


Acidente é cercado de lendas
e até histórias sobre “sorte”

Cemitério de Santa Cruz possui um monumento para os torcedores

A morte dos dez torcedores da Esportiva Santacruzense, no dia 15 de agosto de 1963, até hoje provoca lendas, como aquelas que envolve a Kombi destroçada. Durante anos, algumas pessoas diziam que barulho de vozes vinham do veículo que ficou guardado num terreno baldio.
Folclore à parte, a verdade é que um grupo de santa-cruzenses acabou escapando da morte ao desistirem da viagem na Kombi, alguns na última hora.
Um deles foi o comerciante Alziro Cândido de Oliveira, que durante anos foi dono da antiga “Panificadora Três Oliveiras”. Padeiro, ele amanheceu trabalhando na empresa, quando teve um pressentimento e resolveu cancelar sua participação na caravana. Segundo contou ao DEBATE há anos, Alziro passou a não confiar no motorista João Simão Ávila, que, entretanto, não teve culpa na tragédia.
Ainda na madrugada, o amigo Adelmo Morandim bateu à porta da padaria para tentar convencer Alziro. Ele até brincou, dizendo que o padeiro não devia ter medo dos caminhões na estrada. Aliás, Adelmo se inscreveu na caravana para fazer companhia a Alziro.
Depois do acidente, o nome de Alziro Cândido de Oliveira figurou na primeira lista de mortos, inclusive num “santinho” impresso no mesmo dia, que ele guardou como sinal de renascimento. Quando soube da tragédia, Alziro teve uma crise nervosa e precisou ser medicado.
Outro que escapou da morte foi o aposentado José Lorenzetti. Na manhã do dia 15 de agosto de 1963, ele já estava no ponto aguardando a perua Kombi, quando apareceu o amigo Luiz Andrade pedindo que ele lhe cedesse o lugar. A justificativa era que ele queria viajar com o irmão e o pai.
Lorenzetti acabou cedendo, já que havia se casado havia um mês. Voltou para casa e somente no final do dia soube que todos os Andrades haviam morrido na tragédia.
Há outras histórias, como a de um farmacêutico que, na última hora, precisou atender um doente e cancelou a viagem. Consta que o taxista Mário Cachoni seria o responsável para levar os torcedores até São Caetano, mas precisou transferir o serviço para João Simão porque uma outra viagem foi contratada.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate