‘Sacola literária’, a reação de uma escola à falta de leitura

Aluno do Ensino Fundamental mostra sacola em sala de aula

Escola ‘Sinharinha Camarinha’ desenvolve um projeto
para incentivar leitura dos alunos e até dos familiares

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Um projeto para incentivar a leitura não apenas dos alunos, mas da própria família. Esta é a iniciativa de professores e da direção da escola estadual “Sinharinha Camarinha”, de Santa Cruz do Rio Pardo, que envolve alunos do Ensino Fundamental. É uma daquelas ideias simples, mas com um alcance enorme para difundir o hábito da leitura numa cidade com problemas na Educação, em que a única biblioteca pública sequer renova seu acervo. Segundo a escola, o “Sacola Literária” já começou a mostrar resultados.
A professora Graciela Frasson Beguetto Godoy, uma das coordenadoras da “Sinharinha Camarinha”, explicou que o projeto surgiu de um programa implantado pela Diretoria Regional de Ensino — o MMR (Método de Melhoria de Resultados) — e que mobilizou todas as escolas da região. Na hora, houve consenso entre os educadores de que abrir as portas da leitura é melhorar o acesso à informação e ao conhecimento, partindo de uma escola que possui alguns dos melhores índices educacionais da cidade. “A gente sempre quer atingir o melhor. Neste sentido, percebemos que falta leitura entre os alunos e até para os pais das crianças, daí a essência do projeto”, disse.
Sim, a ideia é difundir também a leitura na própria família do aluno. Graciela disse que não adianta somente incentivar a leitura entre os alunos se em casa este hábito é esquecido. O ideal, segundo a professora, é fazer com que os pais leiam junto com a criança durante uma semana inteira.
A “Sacola Literária” é literalmente um saco com livros, revistas, jornais ou gibis. O DEBATE também faz parte do pequeno lote distribuído aos alunos e que deve permanecer nas residências das crianças inclusive nos finais de semana. “Se o aluno recebe a sacola na terça, ele entrega na terça seguinte, tendo a oportunidade de passar o fim de semana na companhia da família e dos livros e jornais”, disse.
Claro que o projeto é improvisado de acordo com o esforço das professoras. Um jornal diário, por exemplo — “Folha de S. Paulo” ou “O Estado de S. Paulo” — tem os cadernos repartidos entre as sacolas, já que não existem exemplares disponíveis para doação.
Junto, é entregue um caderno onde a criança pode fazer anotações sobre o que leu e as suas impressões. Graciela disse esperar que os próprios pais escrevam textos. “Isto já aconteceu nesta semana”, comemorou a professora, “e é importante porque mostra o envolvimento dos pais”.

LEITURA JÁ!— Professores, coordenadores, direção e alunos da “Sinharinha Camarinha” reagem à queda de leitura com um projeto simples e inovador

A vilã internet

O projeto é ousado porque, no total, 280 crianças, de 10 salas do 2º ao 5º ano do Ensino Fundamental — vão compartilhar o conteúdo das sacolas com seus familiares. É uma grata reação de uma escola pública para combater a queda da leitura nos últimos anos, especialmente depois da proliferação das redes sociais e dos celulares. Dez professores coordenam o programa.
“Na verdade, este projeto é importante a partir da constatação de queda significativa no índice de leitura. Todo mundo está vendo isto, com cada vez menos manuseio de livros, jornais e revistas”, disse Graciela.
A “Sacola Literária” deve ser distribuída até o final do ano. Até lá, os resultados serão avaliados por todos, educadores, alunos e pais.


DESDE CEDO— diretora Ana Manzo mostra a biblioteca para pequenos

Escola tem uma biblioteca
exclusiva para os pequenos

A professora Ana Manzo, diretora da “Sinharinha Camarinha” há 13 anos, já viu e ajudou a implantar dezenas de projetos educacionais na escola. Entretanto, ela acredita que o “Sacola Literária” tem uma importância fundamental num momento de crise cultural no Brasil. “Ele teria importância menor há dez anos, mas hoje, com a abundância destas redes sociais na internet, é um alerta para o fato da leitura estar sendo deixada de lado pelas famílias.
Ana lembra que o tipo do projeto possibilita, inclusive, uma maior interação na família da criança. “O objetivo é mesmo envolver os pais ou até os irmãos. Um irmão, por exemplo, às vezes vai ouvir a mãe comentar e certamente vai ter vontade de ler alguma publicação”, disse. “Aliás, todo mundo na família vai ter a oportunidade de contar suas experiências”, completou.
A diretora já sentiu resultados positivos. “Teve mãe que já telefonou à escola fazendo perguntas e elogiando o projeto, inclusive pedindo informações sobre como agir com as publicações”, contou.

Alerta literário

Ana possui três netos na própria escola que dirige. No próximo ano, serão quatro, o suficiente para avaliar no universo infantil o hábito da leitura. “A gente percebe que, na faixa dos sete aos dez anos de idade, os alunos são mais interessados na leitura. Mas quando eles chegam ao 6º ano na escola, com professores polivalentes e uma ampla biblioteca, é preciso insistir mais na leitura”, explicou.
O importante, segundo a educadora, é fazer com que uma criança se espelhe em outra que adquiriu o hábito da leitura. “A gente sabe que muitas famílias hoje não têm tempo e se dedicam muito ao trabalho, não tendo condições de incentivar os filhos. Mas a partir do momento em que a escola consegue agir e a criança acha legal, o coleguinha também vai despertar”, disse.
Ana lembrou que o celular é proibido na escola, a não ser para atividades pedagógicas, mas ela sabe que até as crianças pequenas possuem telefones móveis. “O celular é o grande vilão da leitura hoje em dia. Claro que, para eles, é muito mais gostoso conversar com o colega em tempo real do que ficar lendo. Mas, aos poucos, eles vão descobrir que o celular é um instrumento frio, que não traz a descrição que o livro, gibi ou jornal proporciona. Então, acreditamos que eles vão começar a se animar com a leitura”, afirmou.
A “Sinharinha Camarinha” possui duas bibliotecas, uma delas apenas para as crianças iniciantes, do 2º ao 5º ano, inclusive com bancadas mais baixas para facilitar o manuseio dos livros. “Eu não perdi a esperança. Afinal, já tenho muitos alunos leitores — do 2º ao 9º ano — e nossa biblioteca possui um grande número de retiradas”, afirmou. Ela admite que a internet também publica obras literárias, mas ressalta que o importante é “sentir e até cheirar” o livro. “O leitor viaja com o texto, aguçando a imaginação, o que não acontece com a internet”, avaliou.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate