O dia em que os ‘Mamonas’ apoiaram a história da cidade

DOCUMENTO — A professora Marci Brondi guarda cópia do abaixo-assinado que teve apoio dos “mamonas”

Quinteto irreverente assinou abaixo-assinado a
favor do tombamento de prédio histórico de S. Cruz

Líder dos “Mamonas”, Dinho dá entrevista no recinto da Expopardo em 1995, horas antes do show

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A professora Marci do Valle Brondi, 62, guarda com carinho a cópia de um abaixo-assinado que elaborou em 1995, defendendo a preservação do prédio do primeiro Grupo Escolar de Santa Cruz do Rio Pardo. É que entre as mais de 1.300 assinaturas, pelo menos seis chamam a atenção. São dos músicos que integravam a inesquecível banda “Mamonas Assassinas” e morreram em 1996 num desastre de avião. No ano do abaixo-assinado, eles se apresentaram em Santa Cruz na última edição da extinta Expopardo. Bateram o recorde de público e, menos de seis meses depois, encontraram a morte na Serra da Cantareira.
Delegada de ensino de Santa Cruz a partir de 1994, Marci Brondi se apaixonou pelo prédio do antigo Grupo Escolar, onde funcionava a delegacia “Gentil Marques Válio”. Ele foi projetado pelo consagrado arquiteto Ramos de Azevedo, no início do século passado. O ex-delegado Sebastião Jacyntho da Silva já havia solicitado o tombamento histórico do prédio, mas o projeto não saía do papel. Marci, então, passou a visitar o Codephaat — órgão da secretaria estadual da Cultura que cuida da preservação de prédios antigos — e apelar para autoridades estaduais e políticos, pedindo agilização no processo. Já em 1995, a dirigente de ensino resolveu elaborar um abaixo-assinado.
Na época, estava sendo organizada a terceira edição da Expopardo, a antiga feira agropecuária de Santa Cruz do Rio Pardo. Duplas famosas estavam se apresentando, mas um grupo de “malucos” — contratado quase um ano antes, a preço de banana — estava na crista da onda. Era a banda “Mamonas Assassinas”. Marci conseguiu patrocínio e montou um estande na Expopardo para coletar assinaturas para o abaixo-assinado.
No dia da apresentação da banda, os “mamonas” andaram pelo recinto e encontraram as fotografias do prédio antigo no estande montado por Marci. “Eu os chamei imediatamente. Eram muito brincalhões, mas expliquei que o abaixo-assinado tinha um motivo justo, que era a preservação da nossa história”, conta a professora.
No documento, o líder dos “Mamonas” assinou apenas “Dinho”, colocando “Tremembé” como endereço. Já Sérgio Reoli e Bento Hinoto escreveram Guarulhos como residência. Por fim, Júlio Rasec e Samuel Reis informaram “Mamonas” como suas cidades.

Cópia traz os nomes de todos os músicos da banda famosa

Deterioração

Marci foi a primeira delegada de ensino de Santa Cruz nomeada através de um concurso público. O exame foi em 1994, quando a professora era coordenadora da escola “Maria José Rios”. Segundo Marci, uma tia, Nina, foi quem a incentivou a prestar o concurso. “Ela mostrou a notícia no DEBATE e me perguntou se eu preenchia os requisitos. Na época eu fazia mestrado, mas minha tia me convenceu a participar do concurso”, contou.
No cargo, trabalhou no prédio do primeiro Grupo Escolar, inaugurado em 1915, na gestão do prefeito Agnello Villas Bôas e construído pelo coronel Tonico Lista. Claro que a professora ficou apaixonada pela arquitetura. “Meu pai e meus tios estudaram na antiga escola. Quando eu era menina, gostava de entrar naquele imóvel”, lembrou a professora.

MEMÓRIA VIVA — Sala da casa de Marci tem objetos raros, como uma caixa usada para guardar tipos gráficos

A casa de Marci, no bairro São José, é a prova de que ela ainda gosta de antiguidade. Na sala, há peças antigas e até um móvel cheio de gavetas que pertenceu à extinta Ramos Artes Gráficas. Era o local em que ficavam os tipos gráficos para impressão, a maioria de chumbo. O ambiente ainda é decorado com cadeados e até uma máquina fotográfica muito antiga. Cópia do abaixo-assinado com as marcas dos “mamonas” ficam numa bolsa.
Na época em que foi a delegada de ensino, Marci diz que as condições do prédio ainda eram razoáveis. “As paredes têm seis camadas de tinta e a gente alertava as pessoas de que o prédio estava em processo de tombamento”, disse.
No entanto, a delegacia de ensino de Santa Cruz do Rio Pardo foi fechada em 1999 pelo Estado e transferida para Ourinhos. O tombamento histórico, porém, finalmente aconteceu alguns anos depois. A professora Marci ainda tentou convencer o governo a implantar outros projetos no imóvel, sem sucesso. “Nem me ouviram. Meu objetivo era fazer com que o prédio continuasse vivo”, explicou.
Aos poucos, o imóvel histórico foi se deteriorando até que sua última ocupante — a escola Etec “Orlando Quagliato” — foi obrigada a deixar o imóvel às pressas.


RELÍQUIA — Prédio do primeiro Grupo Escolar foi inaugurado em 1915

Ação deve obrigar Estado
a restaurar o velho prédio

Uma ação civil pública movida pelo Ministério Público pode impedir que o prédio do primeiro Grupo Escolar de Santa Cruz do Rio Pardo, que já foi o mais imponente da cidade, seja destruído pelo descaso e abandono. A Justiça já determinou ao Estado que realize obras emergenciais para evitar a deterioração. Há um mês, uma empresa terceirizada começou a escorar as paredes do velho prédio com estruturas metálicas.
No entanto, não há informações sobre a restauração total do imóvel, uma vez que o tombamento histórico deve ser respeitado.
O prédio foi construído pelo lendário coronel Tonico Lista e inaugurado em 1915, quando Agnello Villas Bôas era o prefeito da cidade, indicado pelo próprio Lista. Agnello era o pai dos irmãos Villas Bôas, fundadores do Parque Nacional do Xingu. Um deles, Orlando, nasceu em Santa Cruz e chegou a ser indicado duas vezes para o prêmio Nobel da Paz.


Contrato com Expopardo foi assinado um ano antes: preço modesto…

‘Mamonas’ tiveram fama
meteórica antes da morte

Nascida como “Utopia”, a banda “Mamonas Assassinas” teve uma ascensão meteórica em meados de 1994, com um estilo escrachado e muito humor. Quando a Expopardo contratou o quinteto, os “mamonas” ainda eram desconhecidos. Mas o contrato antecipado garantiu a presença deles em Santa Cruz em outubro de 1995, quando já eram famosos.

Grupo se apresentou em Santa Cruz em 1995, quando assinou o abaixo-assinado

Naquele mesmo ano, os “Mamonas” lançaram seu único disco, vendendo mais de 3 milhões de cópias. Tocavam até nove vezes por semana e o cachê da banda passou a ser um dos mais caros do País.
Em Santa Cruz, atenderam dezenas de fãs antes do show. Dinho, o líder do grupo, nunca perdia o humor. Perto do palco da Expopardo, por exemplo, antes do show, foi abordado por uma mãe que queria um autógrafo para o filho. “O que eu escrevo?”, perguntou Dinho. “Qualquer coisa”, disse a mulher. Certamente ela ainda deve guardar o pequeno pedaço de papel com os dizeres “qualquer coisa” e a assinatura de Dinho.
No dia 2 de março de 1996, cinco meses após o show em Santa Cruz, os “mamonas” voltavam de Brasília após um show, quando o avião se espatifou na Serra da Cantareira. Terminava a história da banda mais divertida da história musical brasileira.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate