Filme raro de 1944 exibe um santa-cruzense na Segunda Guerra Mundial

NO CINEMA — Documentário de 1944, filmado por um francês para o cinema dos EUA, mostra Biécio de Britto

Imagens foram usadas na abertura do longa ‘A Estrada
47’ e mostra o soldado santa-cruzense Biécio de Britto

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Enquanto a tropa brasileira é cumprimentada pelo general Mark Wayne Clark, dos Estados Unidos, a câmera em movimento filma um jovem soldado, com olhar distante, que de repente vira o rosto para cima. O ano é 1944 e a cena, em solo italiano, dura alguns segundos, o suficiente para perceber a feição do protagonista. É o santa-cruzense Biécio de Britto, ex-inspetor de alunos da escola “Leônidas do Amaral Vieira” e um dos oito soldados da cidade que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O filme nunca foi visto por Biécio, que morreu em 1982. Entretanto, faz parte daqueles curtas ufanistas que eram exibidos nos cinemas — do Brasil e dos Estados Unidos, já que a narração original é em inglês.
Em 2015, o cineasta Vicente Ferraz usou parte deste material no filme “A Estrada 47”, um drama sobre soldados da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Baseado em fatos reais, a produção mostrou cenas reais do treinamento da tropa brasileira na Itália. Numa delas, logo na abertura do filme, está a imagem de Biécio de Britto.
A gravação original já era do conhecimento da família e do próprio Biécio. “Ele contou que olhou para cima no instante da filmagem porque aviões cruzavam o céu naquele momento. Mas nunca assistiu ao filme”, conta o filho Boanerges de Britto, 57, que ainda guarda as relíquias do pai usadas na Segunda Guerra Mundial. Segundo Boanerges, as cenas raras foram exibidas pela TV Cultura em 1982, mesmo ano da morte do pai. Já o “Estrada 47”, que usa as mesmas imagens do documentário antigo, ganhou o nome devido ao caminho percorrido pelos soldados em direção a Monte Castelo, uma das conquistas brasileiras. O título original da produção era “A Montanha”.
Mas não foi só. Biécio também apareceu em fotos na capa de jornais dos Estados Unidos e na revista “O Cruzeiro”, a de maior circulação no Brasil na época.
Eram outros tempos, com tecnologia limitada. Quando as imagens dos treinamentos foram exibidas nos cinemas, por exemplo, os “pracinhas” já estavam em combate.
Biécio — e mais os santa-cruzenses Antônio Vidor, Antônio Inácio da Silva, Edson Dias Brochado, José Bernardino de Camargo, Oswaldo Carquejeiro, Salatiel Dias e Valdomiro Eliseu do Nascimento — permaneceram um ano em combate na Itália. Segundo Boanerges, o pai lembrava momentos difíceis na guerra, como a falta de alimentos. “Durante um período, os soldados eram obrigados a comer até ratos para não morrerem de fome”, diz.
A mãe de Biécio permanecia “grudada” todos os dias no rádio para ouvir notícias da guerra. Um dia, chegou um telegrama. “Minha avó tremeu ao perceber que era uma mensagem de morte. Mas quem morrera, na verdade, era um cunhado”, lembra Boanerges.

Filho de Biécio, Boanorges mostra capacete do pai danificado por granada

Ferido na guerra

Na Segunda Guerra Mundial, Biécio (à direita) posa com metralhadora

Biécio não era militar em 1944, mas havia concluído o Serviço Militar havia pouco tempo. Naquela época em que parte do mundo lutava contra as forças nazifascistas do Eixo — Alemanha, Itália e Japão —, havia um clima de patriotismo no Brasil e muita gente se oferecia para lutar na Segunda Guerra Mundial. Biécio foi um dos voluntários. Em julho de 1944, partiu para a Itália. Os navios levaram 25.000 soldados brasileiros.
A comunicação com a família era rara. Algumas cartas chegavam na sede do Tiro de Guerra de Santa Cruz e eram distribuídas às famílias. Os parentes demoraram para saber, por exemplo, que Biécio havia sido ferido em batalha.
Segundo o filho, ele foi atingido por estilhaços de uma granada que explodiu a centímetros. O capacete que Boanerges ainda guarda tem as marcas do ataque. Biécio também sofreu ferimentos graves nas nádegas. “Meu pai foi levado ao hospital, operado e, quando ia voltar aos campos, a guerra acabou”, conta. Não houve sequelas.

Boanerges mostra jornal dos Estados Unidos com foto do pai Biécio

Herói brasileiro

No fim da guerra, os parentes de Biécio resolveram viajar até o Rio de Janeiro, no desembarque das tropas, para fazer uma surpresa ao filho herói. Todo mundo desceu, menos ele. Preocupados, todos resolveram procurá-lo. “Na verdade, ele estava dormindo no meio das batatas”, conta Boanerges.
Biécio ainda trabalhou como relojoeiro, fotógrafo e inspetor de alunos, mas teve de passar várias vezes por psicólogos, pois o trauma da guerra o incomodava. “Nos dias de festas, quando os rojões estouravam, ele se abrigava em algum canto da casa. Depois, preferia deixar a cidade nos dias festivos”, conta o filho.
O reconhecimento financeiro demorou e praticamente não foi usufruído por Biécio. Foi aposentado como major depois de uma batalha judicial que envolveu milhares de pracinhas, mas morreu pouco depois.
Boanerges batizou um dos dois filhos em homenagem ao pai. Em 1987, por iniciativa do ex-deputado estadual Israel Zekcer, a escola do distrito de Caporanga recebeu o nome de “Biécio de Britto”. O nome dele também está num monumento aos heróis da Força Expedicionária Brasileira no final da rua Euclides da Cunha, infelizmente abandonado e cuja placa foi encoberta pelo “lanchódromo” existente no local.

* Colaborou Toko Degaspari

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Proprietário e Editor do Jornal Debate