Homem gasta mais de R$ 20 mil em ‘Brasília’ velha

Para Aluísio, não importa o valor gasto no veículo. Ele diz que o gasto compensou o sonho de ter uma Brasília, carro com que, aliás, aprendeu a dirigir, ensinado pelo pai

Dono levou até cinco anos
para concluir a reforma no carro

O interior do carro também está impecável

Diego Singolani
Da Reportagem Local

A paixão do brasileiro por carros é algo que, muitas vezes, extrapola os limites da razão. Da razão financeira, principalmente. É o caso de um santa-cruzense que gastou mais de R$ 20 mil reais para restaurar uma “Brasília” ano 1980 comprada, caindo aos pedaços, por R$ 1 mil. Após cinco anos de reformas, o reluzente automóvel “verde indaiá”, praticamente novo, não passa desapercebido pelas ruas ou exposições automobilísticas que participa. De acordo com o proprietário, dificilmente o investimento feito por ele será recuperado. “Mas isso não importa, afinal, sonho não tem preço”, afirma.
Aluísio Rodrigo Belei, 40, trabalha no ramo produtos ortopédicos. Durante muito tempo ele alimentou o desejo de comprar um veículo antigo para restaura-lo do zero. Entretanto, não poderia ser qualquer veículo. “Eu aprendi a dirigir em uma Brasília. Meu pai tinha uma e esse carro sempre foi meu sonho”, declarou. Há cinco anos, Aluísio e um amigo adquiriram uma Brasília em cacarecos para, segundo ele, “brincarem” no sitio. O negócio custou R$ 1 mil, dividido meio-a-meio. “Só que eu percebi que essa Brasília, apesar de bastante avariada, era toda original, sem sinais de funilaria ou massa plástica. Foi então que eu decidi investir nela”, revelou.

A Brasília possui detalhes que nem mesmo carro de colecionadores possui

Após comprar a parte do amigo, Aluísio deu início a saga para recuperar sua Brasília e percebeu logo de cara que o trabalho seria hercúleo. “As crianças adoravam andar nela, porque parecia o carro dos ‘Flintstone’, dava para ver todo o asfalto pelo assoalho”, relembra. Motor, funilaria e tapeçaria, tudo teria de ser refeito. Devido ao seu trabalho, Aluísio viaja bastante. Ele conta que em cada cidade que visitava sempre fazia paradas nos ferros-velhos, além de ficar de olho nos quintais, atento à alguma Brasília abandonada. “Meu shopping eram os desmanches. Eu parecia criança em loja de doces, garimpando peças para o carro”, diz Aluísio. Enquanto isso, os gastos só aumentavam. De acordo com proprietário, em determinado momento, ele chegou a um ponto crítico. “Pensei em abandonar a empreitada para não ter um prejuízo ainda maior, mas já estava no meio da obra. Já havia investido cerca de R$ 10 mil e se eu não concluísse teria sido dinheiro jogado fora. Por isso não desisti e fui até o fim”, afirmou Aluísio. No total, o valor gasto na Brasília atingiu a soma de R$ 23 mil. Aluísio faz questão de frisar que o processo realizado em seu veículo não foi uma simples reforma, mas sim uma restauração. “Eu busquei manter o máximo possível das características originais dela”, garante.
Aluísio admite que muitos amigos ficaram espantados e alguns até o questionaram sobre o montante investido em seu projeto. “Quem conhece do assunto sabe que para se fazer uma restauração completa como essa, nesse nível de qualidade, realmente tem que se investir uma boa quantia”, diz. O dono da Brasília, na verdade, estava mais preocupado com a reação da esposa. Isso porque ela não sabia dos detalhes da restauração e muito menos dos gastos. “Minha mulher só ficou sabendo depois que estava pronta. Felizmente ela aceitou sem problemas e também curte dirigir a Brasília”, revelou Aluísio, demonstrando alívio.

ATÉ BRINQUEDO — Aluísio exibe miniatura de sua Brasília ano 1980

A fundo perdido

Aluísio tem consciência de que dificilmente conseguirá recuperar os R$ 23 mil investidos em sua Brasília, mesmo o modelo sendo um “queridinho” nacional, principalmente em cidades do interior. Além ter sido imortalizada na música “Brasília Amarela”, dos “Mamonas Assassinas”, o veículo é um ícone da indústria automobilística no Brasil. Produzido entre 1973 e 1982, foi um dos primeiros modelos projetados e construídos pela montadora alemã fora da sua matriz europeia. O carro foi pensado para atender as características do mercado brasileiro, trazendo a consagrada força do Fusca aliada a um designer mais contemporâneo à época – o nome Brasília, vale destacar, foi uma homenagem a moderníssima capital do País, inaugurada em 1960. Nos dias de hoje, segundo Aluísio, o preço de uma Brasília em boas condições varia de R$ 3 mil à R$ 5 mil.
O automóvel de Aluísio é um modelo 1980, com motor 1.600, dupla carburação e já com alternador. Diferente das Brasílias mais antigas, os detalhes internos e externos são de material plástico e não de metal. O carro roda tanto na cidade como pelas rodovias, em frequentes viagens da família. O proprietário conta que muita gente o aborda mostrando interesse em compra-la, mas acabam se assustando com os valores. “Uma vez um sujeito me parou no semáforo, em Ourinhos, e disse que pagava R$ 15 mil a vista, na hora. Eu recusei”, afirma. Apesar do evidente apego sentimental à sua Brasília, Aluísio não descarta de desfazer dela. “Eu posso começar a negociar a partir de R$ 20 mil. Menos que isso, sem chance”, diz. Uma possível venda do veículo seria motivada por uma causa nobre. “Pretendo investir o dinheiro para restaurar uma outra Brasília”, revelou.


Veículos sofreu danos no acidente e vai precisar de uma nova reforma

Brasília é atingida em
acidente fatal na SP-225

Um dia depois de conceder entrevista ao DEBATE sobre a restauração de sua Brasília ano 1980, Aluísio Rodrigo Belei, 40, se envolveu em um acidente de transito ocorrido na noite do dia 29 de novembro, na rodovia Engenheiro João Batista Cabral Rennó.
A colisão traseira entre dois caminhões, na divisa entre Espirito Santo do Turvo e Paulistânia, culminou na morte de um rapaz de 21 anos, que estava em um dos veículos. Aluísio seguia logo atrás, quando percebeu o acidente e encostou a Brasília para sinalizar a pista. Foi quando um Monza descontrolado atingiu a traseira de seu carro e se evadiu do local. Aluísio não se feriu. 

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