Canários são criados em liberdade

‘MORDOMIA ’ — Neto Maitan espalhou bebedouros no entorno do posto

Iniciativa de empresário busca repovoar
a área urbana da cidade com espécie nativa

Canário vive ao redor do posto de gasolina

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Em um trecho da rua Marechal Bitencourt, no centro de Santa Cruz do Rio Pardo, o som ambiente predominante é o barulho de motores, ferramentas retinindo e homens trabalhando. A região concentra várias oficinas, lojas de peças, depósito de materiais de construção e postos de combustível. Nos últimos meses, porém, os ouvidos mais atentos começaram a perceber uma melodia diferente em meio ao caos sonoro: o canto de “Canários da Terra”, que voltaram a ocupar o espaço urbano graças à iniciativa de um grupo de amigos que decidiu criar as aves para reintroduzi-las na natureza.
O precursor do projeto é o empresário Neto Maitan, 38, que sempre foi apaixonado por pássaros. Desde garoto, ele criava aves e depois as soltava. “Nunca gostei de ver passarinho preso na gaiola”, diz. Há alguns meses, Neto se uniu a outros aficionados pelos animais para pôr em prática o plano de repovoar Santa Cruz do Rio Pardo com aves que já estavam desaparecendo da paisagem.
Segundo ele, o Canário da Terra foi a primeira espécie escolhida por ser nativa da região e se adaptar facilmente após sair do cativeiro. “O ‘Canário do Reino’, por exemplo, não consegue sobreviver na natureza se for criado em gaiola”, explica. Após acasalarem no cativeiro, os Canários da Terra ganham liberdade para procurar um local adequado para chocar seus ovos. “Sempre soltamos um macho e uma fêmea juntos, para facilitar o processo de escolha de parceiro e procriação. Por ano, um casal pode chegar a ter até 10 filhotes”, afirma Neto.
O grupo já soltou passarinhos em vários pontos da cidade e também da zona rural. Neto explica que, além de reproduzirem, os Canários acabam atraindo outras aves, o que tem aumentado significativamente sua população. “Na cidade nós também colocamos algumas casinhas artificiais, para que sirvam de ninho. Nosso cuidado é em escolher locais onde existam pessoas que possam ficar de olho, porque sempre tem alguém para tentar roubar os ninhos”, revela o empresário.

LAR — “Cabaças” servem como ninhos; na da foto mora um casal
Pássaro na gaiola, que breve ganhará liberdade, costuma receber visita de outros canários

‘Hotel das aves’

Um desses ninhos confeccionados por Neto fica exatamente em frente ao seu posto de combustível, na Marechal Bitencourt. O casal de Canários da Terra que habita a cabaça transformada em ninho está chocando alguns ovos. Para aumentar a “mordomia” dos passarinhos, o empresário ainda pendurou na árvore um bebedouro e um comedouro com ração. “Antes eu deixava uma gaiola aberta no posto. Eles vinham, entravam, saíam e voltavam. Até que decidiram ficar de vez na casinha da árvore”, conta Neto.
O empresário ainda mantém uma gaiola no pátio do posto, fechada, com um Canário devidamente registrado. De acordo com Neto, ele está à procura de uma fêmea para, em breve, também soltá-lo na natureza.
O inconfundível canto dos canários reverbera por toda a quadra. Antônio José Sanson, 64, é proprietário de uma loja de automóveis em frente ao posto, próxima ao ninho. Ele diz que há dois meses, desde que Neto soltou os pássaros, a cantoria tem início religiosamente às 6h da manhã. “É muito bom começar o dia assim. Até alivia o estresse”, afirma Antônio.
Neto, que começou o projeto como um hobby com os amigos, se mostra feliz com os resultados e pretende expandir a iniciativa, inclusive para outras espécies. “Assim como várias pessoas na cidade se dedicam a cuidar de cães e gatos abandonados, nós nos dedicamos a repovoar a população de aves. Acho que ajudar os animais faz parte da evolução do ser humano”, diz o empresário.


LIBERDADE — Argentino e o irmão Carlos criavam pássaros soltos

Barbeiro já experimentou a sensação

Um dos barbeiros mais antigos de Santa Cruz do Rio Pardo, Argentino Montagnoli já cuidou de passarinhos em liberdade quando era sócio do irmão Carlos, já falecido. “Na verdade, foi o Carlos quem começou. O salão ficava na Conselheiro Dantas, ao lado do antigo Banespa. A gaiola fica aberta e o passarinho saía e voltava à noite para dormir”, contou.
Os irmãos dirigiam o maior salão da cidade. “Ficava aberto até 23h. Eram 16 horas por dia de trabalho”, conta Argentino.
Segundo ele, o irmão Carlos “soltava uma tropa” durante o ano. Ele disse que ideia começou quando Carlos, de repente, decidiu soltar o passarinho que ficava na gaiola do salão. “Eu o avisei que não ia mais voltar. Mas no dia seguinte o passarinho voltou e nunca mais foi embora”, lembra.
Montagnoli costumava comparar o irmão a São Francisco de Assis, protetor dos animais. Afinal, Carlos fazia o mesmo em casa, onde mantinha outras gaiolas. Todas, enfim, abertas.
Argentino diz que o antigo salão foi berço de incontáveis ninhadas. Além da gaiola, havia ração e água à vontade para os amiguinhos dos barbeiros. E não eram apenas canários. Tinha sabiá, tico-tico, pintassilgo e muitas outras espécies.
O hábito de cuidar de pássaros em liberdade acabou em 1983, quando Carlos morreu. Desde então, tudo ficou na memória de Argentino.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate