O adeus ao ‘teacher’

O professor Celso Fleury Moraes, em um de seus escritórios, em foto do ano passado

Aos 89 anos, morre Celso Fleury, professor e advogado
que se destacou no fomento da cultura em Santa Cruz

Celso Fleury adorava fotografia e natureza, mas amava a literatura

O coração do professor Celso Fleury Moraes parou de bater no início da tarde de segunda-feira, 4, num dos quartos da Santa Casa de Misericórdia de Santa Cruz do Rio Pardo. Ele havia sido levado ao hospital durante a madrugada, após uma pequena queda, aparentemente sem consequências. Entretanto, entrou em coma já durante a manhã e morreu no início da tarde. Tinha 89 anos, quase todos dedicado à literatura, ao jornalismo e à cultura em geral. Os médicos diagnosticaram uma isquemia cerebral (AVC). Celso foi um dos grandes incentivadores do DEBATE, jornal fundado por um de seus filhos.
Professor de Inglês formado em Letras pela USP-SP, Celso Fleury lecionou em várias cidades antes de ser efetivado em Santa Cruz. Em cada um dos cinco municípios, teve um filho. Em Santo Anastácio, participou de um grupo que lançou um jornal alternativo, “O Malho”, que era encartado em outro semanário da cidade.
Em sua longa trajetória acadêmica em Santa Cruz, deu aulas nas escolas “Leônidas do Amaral Vieira” e “Genésio Boamorte”, além da faculdade de Filosofia da Oapec.
Em meados da década de 1960, Celso morou um ano nos Estados Unidos onde aperfeiçoou os estudos graças a uma bolsa de estudos. No período, foi condecorado como “Cidadão do Texas”, cuja honraria foi assinada e entregue pelo governador John Connally, o mesmo que também foi baleado no carro do presidente John Kennedy, assassinado em 1963. O professor narrou sua viagem aos Estados Unidos numa série de reportagens publicadas em “A Folha”, sob o título “Um Caipira nos EUA”.
Quando se aposentou, em 1986, decidiu não vestir o pijama. Ingressou na universidade estadual do Paraná e formou-se em Direito em 1991. Foi um período difícil, quando Celso viajava todas as noites numa velha perua Kombi comprada em conjunto com outros estudantes. Já advogado, gostava de defender pessoas carentes, mesmo recebendo apenas alguns trocados do Estado como profissional nomeado. Na verdade, ele viu na nova profissão uma forma de conseguir fazer justiça em alguns casos. E conseguiu em vários.
Mas também defendeu o filho em inúmeros processos movidos por políticos contra o DEBATE, jornal que amava e com o qual colaborou desde a fundação, há quase 42 anos. Na maioria das vezes, não gostava de assinar artigos com o nome. Era, invariavelmente, o “Chico da Ponte”, pseudônimo que também usou quando foi colunista do jornal “O Lanterna”, no início dos anos 1970.

Celso (à direita, em pé) e os alunos que encenaram “Pluf, o Fantasminha”, uma das produções do inesquecível TAC

Paixão pelo palco

Celso Fleury sempre foi um apaixonado pelo teatro. No final dos anos 1960, reuniu um grupo de talentosos alunos e fundou o TAC — Teatro Amador do Centenário. O grupo teatral resistiu à ditadura militar, revelou talentos e marcou a cultura de Santa Cruz do Rio Pardo. No palco, graças a improvisações, havia críticas ao regime militar, o que despertou a juventude da cidade para o que realmente acontecia no País. Numa das peças, por exemplo, o ministro da Justiça foi mandado ao inferno, como se aquela cena realmente fizesse parte do texto.
O TAC produziu peças infantis, comédias e temas adultos, cujas produções foram levadas para as cidades da região e do Norte do Paraná. Celso costumava dizer que o grupo acabou criando uma espécie de “irmandade” que jamais se desuniu. No ano passado, os remanescentes se reuniram novamente para um almoço festivo, no restaurante “Os Galeguinhos”.
Ex-ator do TAC, Lino Lorenzetti diz que só ouviu o termo “trabalho em equipe” muitos anos depois, em palestras proferidas por profissionais muito bem remunerados. “Mas o professor Celso, pelo que eu saiba, intuitivamente ou não, sabia de toda esta coisa há 50 ano”, explicou.
De fato, Celso Fleury era considerado um homem à frente de seu tempo. Esta, aliás, foi a manchete da revista “Essencial”, da jornalista Maria Luiza Mello, edição de junho do ano passado. Foi a última entrevista do professor e advogado.
Sob aplausos, Celso Fleury foi sepultado no Cemitério da Saudade na tarde de terça-feira, 5. Ele deixou a viúva Maria de Fátima Moraes, também professora, e os filhos Neusa, Neide, Sérgio, César e Cibele.


Há um ano, durante celebração dos 50 anos do TAC, com a mulher Fátima

Intelectual, era o leitor
voraz de livros e jornais

Celso Fleury se engajava com paixão em qualquer movimento cultural. Apesar de aposentado e estudante de Direito, ele foi um dos fundadores da Proarte, entidade que proporcionou, por exemplo, a reforma do Palácio da Cultura “Umberto Magnani Netto” nos anos 1980, com recursos da Lei Rouanet. Segundo a filha Neusa, que foi secretária de Cultura de Santa Cruz e presidente da Proarte antes de Celso, o professor visitava as obras da reforma todos os dias, impreterivelmente.
Fleury se decepcionou quando, já nos anos 2000, o prefeito Adilson Mira desistiu da ideia de transformar o Palácio da Cultura num dos melhores teatros do interior paulista para se limitar ao cinema — atividade, aliás, que também estava prevista no projeto de JC Serroni. A Proarte, então, desapareceu.
Era amante das artes em geral. Apreciava música clássica e MPB, mas também se voltava para a natureza. Sabia “de ouvido” os cantos de alguns passarinhos, sem nunca ter aprisionado algum numa gaiola. Também era fotógrafo.
Mas a literatura o acompanhou durante toda a vida. Lia jornais, livros e revistas todos os dias. Assinava, inclusive, revistas dos Estados Unidos, como a “Time”. Deixou uma biblioteca de aproximadamente 7 mil livros, sendo aproximadamente 20% em inglês. Isto porque, ao longo da vida, doou muitas obras.
Talvez o olhar humano de Celso Fleury tenha relação com a literatura. Era aficionado por dicionários, tendo vários volumes na estante. Gostava do papel, não do digital. Nos últimos meses, quando o cérebro começou a falhar, o professor se irritava quando não encontrava as palavras. Passou, então, literalmente a ler dicionários e anotar palavras, na tentativa de recuperar a memória. Não teve tempo de conhecer o resultado da experiência.

Celso Fleury escreveu para o DEBATE desde a fundação do jornal; seu último artigo foi publicado no ano passado

Professor lutou
contra ditadura

Até a década de 1970, só existia um partido em Santa Cruz do Rio Pardo, dividido em dois grupos adversários que disputavam o poder, conforme a legislação da época. Em meados da década, enfim, surgiu o grupo de oposição à ditadura, que criou o MDB. Celso Fleury Moraes era um dos fundadores.
Presidiu o novo partido e ajudou a estruturar uma oposição que, já nos anos 1980, afastaria o grupo simpático à ditadura da prefeitura. Somente depois percebeu que não havia muita diferença entre os grupos e abandonou a política. Sempre foi um democrata.

Sobre Sergio Fleury 5838 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate