Uma vida dedicada à música e à fé

O professor Giovanni com o filho Romolo

Professor de música que formou gerações em Santa Cruz
do Rio Pardo, Giovanni Lanfranchi morreu aos 91 anos

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Uma das personalidades marcantes da música em Santa Cruz do Rio Pardo calou-se para sempre. O professor Giovanni Giuseppe Lanfranchi morreu no último dia 30 de março, aos 91 anos. Ele ensinou música a várias gerações, além de participar de grupos que fizeram história e ainda fundar um coral.
Italiano de nascimento, Giovanni chegou ao Brasil em 1952. Tinha apenas 25 anos e fugia da situação difícil do seu país após a Segunda Guerra Mundial, atravessando o oceano com mais 1.500 imigrantes no navio “Conte Grande”. Na bagagem, apenas um acordeon, já que na Itália costumava animar festas.
Aliás, ele lembrava à família que, já na alfândega, teve o primeiro dissabor. Os funcionários da fiscalização ameaçaram confiscar o aparelho musical e Giovanni foi obrigado a entregar todo o seu dinheiro para não ficar sem o acordeon.

INSEPARÁVEIS — O professor Giovanni Lanfranchi com duas paixões: seu filho único Romolo e o acordeon

Foi assim, sem dinheiro, que Giovanni chegou ao Brasil, indo direto para a região de Santa Cruz. Os primeiros anos não foram fáceis, já que o italiano trabalhou como ajudante de pedreiro e operário nas obras de construção da atual rodovia João Baptista Cabral Rennó (SP-225), que liga Ipaussu a Bauru. Era o carregador de piche.
A partir do trabalho, porém, começou a ficar conhecido pela habilidade em tocar instrumentos musicais. Dois anos depois de chegar ao Brasil, Giovanni Lanfranchi começou a dar aulas particulares de música. Foi quando percebeu que ele próprio poderia se aperfeiçoar ainda mais.
Cursou quatro anos de violão clássico em São Paulo e formou-se no Conservatório Musical de Agudos. Aliás, foi o primeiro diplomando de violão da cidade e teve como aluno o maestro Mário Nelli.
Giovanni praticamente fundou uma escola de música em sua própria residência. Foi quando se apaixonou por uma de suas alunas, a professora Maria Liberina Romano, com quem se casou.
Em 1974, passou a acumular as aulas particulares com a carreira de professor de música do Conservatório “Osvaldo Lacerda”. Era responsável por aulas práticas e teóricas, sendo contemporâneo da professora Tereza Zanoni, fundadora da instituição de ensino musical.
Mas Giovanni era um inquieto. Ele ainda fundou o Coral Santa Cecília, que se apresentou em toda a região. Além disso, fez parte, nos anos 1970, de uma das primeiras versões do “Conjunto da Saudade”, juntamente com Dante Salemme, Alcídio Mardegan, Gildo Brochado e Hélio Castanho de Almeida.

Giovanni ao lado do ex-prefeito Carlos Queiroz, de quem foi amigo, durante uma comemoração eleitoral

Ministro da eucaristia

AMIGOS — Giovanni posa com amigos de um grupo religioso católico

O único filho de Giovanni, o dentista Romolo Emílio Romano Lanfranchi, conta que outro aspecto marcante do pai foi a religiosidade. Católico fervoroso, ele começou a tocar nas missas da Igreja Matriz de São Sebastião e também em celebrações de casamentos. Em pouco tempo, foi convidado para ser ministro da eucaristia, função que exerceu por mais de meio século.
Mas o professor também tinha suas paixões, como o futebol. E há uma história curiosa, contada pelo filho Romolo. Na Itália, Giovanni era torcedor fanático da Juventus de Turim e, quando chegou ao Brasil, perguntou aos amigos por qual time deveria torcer. “Eles disseram que, como era Juventus na Itália, deveria ser torcedor do Juventus da rua Javari. Ficou algum tempo nesta situação incômoda, pois o Juventus não ganhava títulos. Até que alguém sugeriu que, como italiano, deveria torcer pelo Palmeiras”, contou o dentista. O alviverde, então, ganhava um fanático torcedor em Santa Cruz do Rio Pardo. Mesmo assim, Giovanni não perdia um jogo da velha Juventus italiana, sendo, inclusive, assinante de uma TV por assinatura só para ter acesso aos jogos do campeonato da Itália.
Com o casamento do filho único com a também dentista Ana Cristina, as famílias Lanfranchi e Zanoni se tornaram unidas. Romolo e Ana, por sinal, deram o nome de “Giovana” a uma filha em homenagem ao músico que se tornou um símbolo em Santa Cruz do Rio Pardo.
O professor Giovanni Lanfranchi morreu aos 91 anos, cercado pelo carinho da família e amigos. Ele foi sepultado no cemitério da cidade no final da tarde de sábado, 30 de março. No mesmo dia, a sua Juventos italiana vencia o Empoli e o seu Palmeiras disputava mais uma semifinal do campeonato paulista.

  • Colaborou Toko Degaspari
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Proprietário e Editor do Jornal Debate