Creche Fermino Magnani funciona há quase 60 anos

Inauguração da primeira ala da creche, no ano de 1960

Instituição mantida pela sociedade de
Santa Cruz já teve madres no comando

Freira recebe visitas na creche

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O “Lar da Criança Fermino Magnani”, instituição que durante décadas foi comandada pela professora Noemia Aloe, funciona há 59 anos em Santa Cruz do Rio Pardo. Noemia morreu há uma semana e, de acordo com a coordenadora Márcia Belei, a creche era “a menina dos olhos” da professora, que vai ganhar um quadro na mesma parede em que está a pintura de Fermino Magnani, que dá nome à instituição. Alfaiate, Fermino morreu quando a obra ainda não estava terminada. Vicentino, sonhava em dotar a cidade com uma enorme creche.
Aliás, a instituição surgiu do amor de um grupo de pessoas ligadas à ação vicentina, quando perceberam que a cidade necessitava de uma instituição para acolher crianças durante o horário de trabalho dos pais. Um terreno foi doado por Basílio Vidor e, em seguida, Noemia Aloe fez uma série de campanhas vicentinas e comprou as demais áreas. No final, um quarteirão inteiro formou a área da creche. Houve até o caso de um impasse com um clube japonês que existia na quadra. Como o estatuto do clube só permitia desfazer da sede mediante permuta, o “Lar da Criança Fermino Magnani” comprou um outro imóvel na avenida Tiradentes, construiu uma nova sede e realizou a permuta. “Foi na ‘orelha’”, lembra, com humor, Márcia Belei.
A construção da creche começou em 1953 e até 1960, quando começou a funcionar, a obra ainda não estava pronta. Havia um único prédio.

O INÍCIO — Diretor da instituição mostra frutas cultivadas no pomar da própria instituição

 

NOEMIA — A presidente discursa em evento , ao lado do frei José Maria

Segundo Márcia Belei, a creche tinha uma diretoria ligada à Conferência Santa Isabel, agregada à Sociedade São Vicente de Paulo. “É um grupo religioso e, na época, ficou decidido que as mulheres trabalhariam para a creche e os homens, para o asilo. A Noêmia foi, talvez, a única remanescente da antiga diretoria até sua morte”, disse. “Antes adoecer, há um ano e meio, ela jamais deixou de comparecer à instituição um único dia”, disse. Noemia morreu aos 99 anos.
No início, um grupo de quatro freiras dominicanas começaram a trabalhar na creche, assim como faziam no asilo. Na época, a Santa Casa também era administrada por madres, mas de outra ordem católica. É por isso que o prédio da creche “Fermino Magnani” tinha até uma clausura, local em que as religiosas ficavam fechadas durante um período de oração ou meditação. Hoje, os cômodos são usados como depósitos. Elas moravam no prédio.
Na época, o prédio da instituição era considerado “longe da cidade”, pois praticamente não havia construções nas imediações da vila Oitenta. Aos poucos, a cidade foi chegando. “Hoje, estamos praticamente no centro”, diz Márcia.
Mas as dificuldades eram grandes. O imóvel tinha água, mas o esgoto demorou para chegar. Foram feitas, então, várias fossas sépticas, sendo que a última foi redescoberta e aterrada há alguns anos.

ANOS 70— Irmãs, diretores e crianças durante entrega de Kombi

Construções

CONSTRUÇÃO — No final dos anos 1950, foto mostra construção do primeiro prédio da creche

A creche começou a funcionar atendendo apenas 20 crianças. É que as acomodações ainda eram pequenas, mas as construções foram aumentando com o tempo. Hoje, o prédio principal é enorme e acomoda refeitórios, cozinhas, dormitórios e salas de aula. Há, ainda, imóveis para dormitórios de bebês, casa para o caseiro, prédio para aulas de reforço, lavanderia e uma extensa área de lazer, incluindo grandes árvores. Uma outra residência é usada para gerar recursos para a entidade, mediante aluguel. Um último imóvel será demolido porque é muito antigo e foi totalmente contaminado por cupins.
Segundo a coordenadora Márcia Belei, novos bairros foram surgindo nas imediações — Parque São Jorge, Jardim Eleodoro, Eldorado e outros — e a creche precisou ampliar o atendimento para mais de uma centena de crianças.


DESAFIO — Márcia Belei foi amiga de Noemia e diz que desafio é continuar o trabalho da instituição

Creche atende 157
crianças de S. Cruz

Uma das maiores creches de Santa Cruz, instituição
tem as marcas da caridade da ex-presidente Noemia Aloe

Na entrada, há um quadro de Fermino Magnani, que morreu antes da inauguração; agora haverá mais um, de Noemia Aloe

Fruto do amor e solidariedade de um grupo de santa-cruzenses há quase 60 anos, o “Lar da Criança Fermino Magnani” é uma das mais importantes creches de Santa Cruz do Rio Pardo. É uma instituição civil que recebe algum recurso público, além de professoras do município, e precisa realizar promoções o ano todo para fechar o orçamento. Hoje, atende a 157 crianças da vila Oitenta e toda aquela região. Funciona em dois períodos — manhã e à tarde — e ainda possui uma classe de reforço educacional que funciona no contraturno das escolas estaduais e municipais.
“Já tivemos mais crianças”, diz a coordenadora Márcia Belei, “mas o número de funcionários é reduzido e passamos apertado”. Segundo ela, somente a faxina do prédio é um trabalho demorado que precisa ser feito todos os dias.

CARINHO — As crianças recebem cuidados, brincam e têm refeitório e lanches à disposição
FÉ — A capela foi construída na época das madres, mas ainda há missas

A creche tem atualmente 13 funcionários, incluindo as professoras mantidas pela prefeitura. “É pouco”, ressalta Márcia. O prédio é extremamente limpo e há uma curiosidade: o grande número de galinhas d’angola no quintal. A criação não é para alimentação e sequer os ovos são retirados. “Na verdade, elas fazem toda a limpeza do terreno. Pode ver que não há bicho algum”, diz Márcia. As galinhas deixam a instituição no período da tarde, voando sobre o muro, mas voltam em determinados horários. Os vizinhos já se acostumaram e sabem que as galinhas na rua são da “Fermino Magnani”. Aliás, quando pessoas estranhas se aproximam, as galinhas dão o alarme com um barulho forte.
A creche também tem biblioteca, brinquedoteca, mais de uma sala de TV e um “playground” com muito espaço e brinquedos para as crianças. A caixa de areia, por exemplo, é gigantesca.
Fotos mais antigas indicam que a instituição tinha, inclusive, uma piscina no pátio, mas que foi retirada em nome da segurança para as crianças.

Crianças recebem o lanche da tarde, após se divertirem

Noemia Aloe

CUIDADOS — Uma sala enorme é preparada para os bebês dormirem

Márcia Belei foi a dirigente da instituição mais ligada à professora Noemia Aloe, que presidiu a creche “Fermino Magnani” durante décadas. Ela se lembra com carinho da amiga que morreu há uma semana e cujo trabalho voluntário foi imprescindível para o crescimento da instituição. “A Noemia era especial, muito dedicada. Será difícil encontrar uma pessoa com tanta caridade. Apesar de não ter se casado, teve milhares de filhos que são as crianças que cuidou na instituição durante anos”, afirmou Márcia Belei.
Segundo ela, Noemia também era ousada. “Quando havia algum problema ou obra a ser feita, ela dava ordem para começar. Costumava dizer que daria um jeito, inclusive com a promoção de excursões, das quais ela não faltou a nenhuma”, contou a coordenadora.

BRINQUEDOTECA — Maioria dos brinquedos foi doada à instituição

 

Um dos refeitórios da instituição

Noemia, por sinal, foi conhecida pela colaboração às entidades assistenciais. No entanto, há uma extensa obra de caridade particular que a professora não gostava de comentar. “Ela dizia que aquilo que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber”. Assim, Noemia ajudou muita gente, deu bolsas de estudos e cestas básicas, pagou faculdades, realizou o sonho de muitas famílias carentes e ainda dava conselhos. “Ela recebia as famílias em sua casa”, conta Márcia. Aos 96 anos, ainda estava na ativa, como integrante da diretoria da creche que foi a razão principal de sua vida.

HORA DO CAFÉ — Todas as crianças recebem alimentação na creche
  • Publicado na edição impressa de 09/06/2019
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