Apoio de mulheres santa-cruzenses foi fundamental na revolução de 1932

Batalha de 1932, embora curta, foi sangrenta até mesmo na região

Grupo de mulheres, embora longe do front, apoiou
as tropas paulistas angariando recursos e até costurando

Getúlio cedeu dois anos depois e promulgou uma nova Constituição

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Última grande batalha envolvendo brasileiros, a Revolução Constitucionalista de 1932 começou, na verdade, dois anos antes, quando os paulistas não concordaram com o golpe que depôs Washington Luiz e colocou Getúlio Vargas à frente de uma ditadura. O novo presidente havia prometido convocar eleições e uma Assembleia Nacional Constituinte para promulgar uma nova Constituição, mas passou a governar por meio de decretos. No dia 23 de maio de 1932, quatro jovens estudantes são mortos por tropas getulistas e a violência deflagrou um levante armado dos paulistas contra o governo federal. A guerra começou em 9 de julho.

Cartaz símbolo do movimento chamando os paulistas para a batalha de 1932
Cartaz convoca as mulheres para ajudar as tropas paulistas; em Santa Cruz do Rio Pardo, grupo feminino da “Cruz Azul” foi importante apoio aos soldados da região

Santa Cruz do Rio Pardo aderiu ao movimento de imediato. Na atual praça Leônidas Camarinha, o alistamento de soldados voluntários era feito no coreto através de filas. A cada novo combatente inscrito, o público aplaudia, segundo as memórias deixadas pelo professor Norival Vieira da Silva, que morreu em 2015 e cujo comércio dos pais, nas imediações da praça, foi requisitada pelas tropas e se transformou no “Rancho do Soldado”.
O pai de Norival, Tertuliano, seria prefeito da cidade anos mais tarde. Mas em 1932 ele era dono de uma revenda de automóveis franceses em Santa Cruz, que foi um dos principais locais de apoio aos soldados paulistas que passavam pela região. Depois da batalha, o mesmo prédio se transformaria, sob o comando da família Vieira da Silva, no “Bar Paulista”.
Segundo o historiador Celso Prado, foi aí que o destemor de mulheres santa-cruzenses mostrou-se fundamental para manter a moral das tropas constitucionalistas e dar o apoio aos batalhões. Num movimento que teve a adesão do juiz Eugênio Fortes Coelho, do delegado, prefeito e ainda uniu todos os políticos, as mulheres também formaram um grupo da “Cruz Azul” sob a presidência de Antonieta Fortes Coelho e das ativistas Lizuca Sampaio, Maria Aparecida Bueno, Dagmar Pinheiro Guimarães, Lurdes de Moura, Edith Martins e outras.
Elas trabalharam arrecadando fundos em leilões para compra de capacetes de aços e produtos de primeira necessidade para os soldados. Além disso, mantinham uma oficina de costura que funcionava dia e noite. A santa-cruzense Maria Fortunata Palma chegou a doar um terreno na rua Conselheiro Antonio Prado, que seria leiloado para arrecadar fundos. Outras famílias doaram ouro.

Foto do jornal “A Cidade” mostra batalhão de Santa Cruz (Arquivo do historiador Celso Prado)

Batalha violenta

SÍMBOLO — Moeda usada em São Paulo durante a revolução

Em Santa Cruz do Rio Pardo, vários voluntários participaram da revolução e a cidade, inclusive, teve um batalhão próprio no front violento da guerra. O soldado voluntário Luiz Gonzaga d‘Ávila chegou a perder um dos braços em combate. O irmão dele, professor na rede pública de Santa Cruz, foi prisioneiro na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro.
Um fato marcante foi a passagem pela cidade do “Batalhão XI de Agosto”, formado por alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), de São Paulo. O estudante José Bretz morreu em combate em Salto Grande e o corpo foi trazido para Santa Cruz, ficando horas estendido sobre uma mesa na prefeitura.
Os gaúchos invadiram a região em três frentes — Ourinhos, Salto Grande e Santa Cruz do Rio Pardo. Quatro meses depois, São Paulo se rendia, mas a derrota se transformaria em vitória política com a promulgação de uma nova Constituição dois anos depois.
Os gaúchos permaneceram alguns dias ocupando Santa Cruz do Rio Pardo, todos com lenços vermelhos no pescoço. Deixaram a região quando houve a garantia da pacificação entre os brasileiros.

  • Publicado na edição impressa de 07/07/2019
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