Pascoalino: ‘Vale tudo?’

Vale tudo?

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Não sei se você também enxerga assim, mas me parece que estamos sempre procurando sarna para se coçar. Agora mesmo, em plena Lua Cheia, o país discute qual seria, afinal, a estatura de Paulo César Farias, o defunto tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor. Comparando fotos feitas em datas e lugares diferentes, constata-se que ora PC era maior ora menor do que uma mesma pessoa flagrada ao seu lado. Fala-se em uma diferença de 3 ou 4 centímetros, e eu não entendo por que tanta polêmica? Descontando os saltos, não estaríamos aí dentro da margem de erro como nas pesquisas eleitorais? Mas não deixa de ser curioso notar que o mesmo ser que se mete a calcular a idade da Terra e a temperatura do Sol, às vezes não consiga sequer tirar as medidas de um cadáver! Já pensou se o doutor Badan Palhares ao invés de médico legista fosse um alfaiate?
Não sei porque todo esse barulho agora. Como se a maldição camaleônica de PC Farias não fosse uma das poucas verdades da Nova República. Em um momento, ele era o homem mais desejado do Brasil. Acho que não me expressei bem. Quero dizer que PC era disputado por grandes empresários e raposas da política que dele tentavam se aproximar literalmente a qualquer custo. De repente, PC era o sapo bigodudo que ninguém mais queria beijar. Pior: que ninguém jamais viu mais gordo (nem magro), que ninguém sequer conheceu um dia, parodiando Pedro antes do galo cantar pela terceira vez. E pensar que num passado recente o país queimava pestanas por causa de duas polegadas a mais que o júri de um concurso de beleza enxergou na baiana Marta Rocha!
Pois, na falta de sarna, de um bicho de pé que fosse, ando matutando sobre uma frase que li no para brisa de um carro: “Deus a tudo perdoa”. A princípio, pensei que pudesse se tratar de um adesivo feito para carros de auto-escolas, mas logo também encontrei a mesma frase em carro de gente habilitada. Depois, pensei que pudesse se tratar de um plástico para carros que andam em excesso de velocidade, cruzam sinal fechado ou são estacionados na calçada. Novo engano. E assim tenho passado esse mês de junho, que teoricamente devia ser frio, me perguntado se tudo merece perdão.
Tenho desde menino uma pré disposição para desconfiar desses despachantes de Deus que ora nos informam que Ele é fiel, que Ele é pai e não padrasto, que Ele é brasileiro, etc. Mas, “Deus a tudo perdoa”, convenhamos, são palavras muito generosas para se escrever em para-brisas ou para-choques. Se ainda fosse um simples “Deus perdoa”, vá lá.
Agora, falando sério. Se ao invés de tudo você pudesse ter um único erro perdoado pra valer, você seria capaz de se decidir por um? Desculpem a insistência, mas, suponhamos que ao se decidir por um único pecado você fosse verdadeiramente perdoado, já não estaria bom?
Ao cruzar com um motorista que expõe publicamente a sua crença em que Deus tudo perdoa, eu piso no freio. Se a coisa já não estava boa pra gente por ninguém trazer escrito na testa a natureza do seu caráter, imagine agora com essa frase circulando por ai!

  • Publicado originariamente em 18/06/2000
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