Beto Magnani: ‘A pedra’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

A pedra

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— O inábil vendedor de Nióbio!
Foi o que gritou o senhor de cabelos grisalhos sem tirar os olhos da televisão da sala de espera do setor de exames do hospital público, que estava com o som altíssimo. Na tela o entrevistado falava dos planos de vender bijuterias do metal. Uma mulher se aproximou, parecia ser a esposa.
— Você tá melhor?
— Sem dor pelo menos.
— Amor, queria aproveitar a espera pra te contar uma coisa. A vizinha me chamou ontem pra conversar. Falou que estava sem jeito de falar, mas que eu precisava saber. Ela viu nosso lixo na frente de casa e encontrou um monte de fotografias antigas nossas.
— A maluca revirou o lixo?
— Sim.
— São as fotos dos prêmios de química que ganhei. Algumas com nós dois naqueles jantares chatíssimos.
— Mas por que jogou fora?
— Que mulher enxerida essa vizinha!
— Pois é. Ela guardou pra me devolver. Estão na minha bolsa.
— Joga fora isso.
— Jogo. Mas não entendo porque não quer mais as fotos.
Ele não respondeu. Ficaram em silêncio por um tempo, até ele começar a falar sem parar, alto para que todos na sala ouvisse. O tom inconformado da sua voz superava o volume da televisão.
— Quando você joga um punhadinho de Nióbio, apenas 100 gramas, no meio de uma tonelada de aço a liga se torna muito mais forte e maleável. Carros, pontes, turbinas de avião, aparelhos de ressonância magnética, mísseis, marcapassos, usinas nucleares, sensores de sondas espaciais, praticamente tudo o que é eletrônico, ou leva aço, fica melhor com um pouco de nióbio. Os foguetes mais avançados do mundo levam nióbio. O LHC, maior acelerador de partículas do planeta, e o D-Wave, primeiro computador quântico, também. Aí vem um boçal de merda querendo exportar nióbio pra bijuteria!
— Calma amor! Você vai piorar assim.
Eu me aproximei do casal. Não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti:
— Faz tempo que o senhor tá esperando?
— Uma hora já. Ultrassom demora mais. Venho sempre. Tenho pedra nos rins.
— O senhor é químico?
— Há trinta anos.
— Professor?
— Pesquisador.
— Que bom. Também tive pedras nos rins. Tirei com cirurgia.
— Sim, vou tirar a minha também. To aguardando a cirurgia. Quando tirar vou fazer um colar com a pedra e dar de presente pra minha esposa. Depois que eu morrer talvez valha mais do que um colar de Nióbio. Minha vizinha vai morrer de inveja!
Todos riram na sala. A esposa sorriu como se pedisse desculpas pelo inconformismo do marido com a noticia da televisão. Finalmente ele foi chamado. Entraram. Fui chamado em seguida. Esperei menos, era só um hemograma. Lembrei da minha pedra, o médico chegou a me mostrar após a cirurgia. Por que não tive a ideia do colar na época? Acabou indo para o lixo, sem valor. Tirei sangue e fui embora. Saí antes do químico. Fui ao camelô.   (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 07/07/2019
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