Beto Magnani: ‘O orégano’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

O orégano

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— Parece que vão proibir o Orégano.
— Como assim?!
— O Zóião que falou. Ele ouviu no rádio.
— O Orégano? Mas é uma planta! Como é que pode alguém proibir uma semente de nascer. A semente é de Deus.
— Pois é. É um sacrilégio! A vida inteira gostei de Orégano.
— Você pode até proibir que misturem as coisas. Proibir Orégano com Bicabornato, por exemplo. Mas proibir que o Orégano exista é uma fronta à natureza divina!
— Vai que explode?
— O que?
— O Orégano com Bicarbonato.
— Não explode.
— Se vão proibir é porque descobriram alguma coisa. Ou mata ou deixa doidão.
— A folha da Mandioca Brava mata e não é proibida. Pra comer tem que ferver por sete dias.
— E quem é que come isso?
— Nunca comeu Maniçoba?!
— Tô é com dó do Orégano. Tô com isso na cabeça desde cedo, desde a hora que o Zoião me contou.
— Então você deveria ter mais pena da Maconha! É igual ao orégano e é proibida faz tempo!
— Verdade. Outra que não deixam a semente nascer. Tadinha.
— E ela é remédio também.
— Mas deixa doidão.
— A pinga deixa muito mais doidão e não é proibida.
— Mas é porque o Cabra começa na maconha e depois vai indo pra coisas mais pesadas. No fim acaba indo parar numa dessas igrejas. Quando não morre.
— Meu tio começou na pinga e morreu na pinga mesmo. E já ia à igreja quando começou.
— Quem? O Zé Pedro?
— Não. O Zé Antonio. Aquele que era Maçom.
— Sei.
— Bom é vinho. É uma arte. Esse até o padre toma. Até Jesus!
— Mas também deixa doidão.
— Deixa.
Ficaram em silêncio um pouco. Preparavam hambúrgueres no Food Truck da praça de alimentação do festival de rock. Eu aguardava o meu. Não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti:
— Vocês conhecem o Zoião?
— Meu amigo – respondeu o que estava com dó das sementes.
— Foi ele que falou que vão proibir o orégano? – perguntei.
— Garantiu. Ouviu no rádio. Você conhece?
— Amigo de infância. Eu estava junto no dia em que ele acertou as duas asas da abelha com um só tiro de cartucheira. Foi um chumbinho pra cada asa. A abelha caiu no chão e saiu andando que nem um besourinho preto e amarelo.
— Ele já me contou essa história. Você tava também?
— Claro. Me lembro como se fosse ontem.
Meu hambúrguer ficou pronto. Eles continuaram falando das sementes. Saí dali com saudade do Zoião. Se, por acaso, ele estiver falando a verdade, já deve estar pensando onde vai comprar orégano depois que proibirem. Ele adora. Comi o hambúrguer e voltei ao rock(Magú)

  • Publicado na edição impressa de 14/07/2019
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