Geraldo Machado: ‘Festa no céu’

Festa no céu

Geraldo Machado *

Festa de jacu nhambu não vai, diziam os violeiros d’outro “tempo em que os animais e vegetais falavam na Amazônia”. É este um modo um pouco estranho de se iniciar um artigo que, há muito tempo eu tentei escrever no meu espaço no DEBATE e não cheguei ao fim. Fiquei com medo de não conseguir escrever com a medida palatável e o leitor não chegar ao fim e me deixar falando sozinho com o jacu e o nhambu piando sem retorno.
Festa no céu é apólogo que se ajusta entre outros mais no livro do amazonense Raimundo Morais. Desse escritor eu tenho alguns outros: Aluvião, O homem do pacoval e Histórias silvestres do tempo em que animais e vegetais falavam na Amazônia.
O leitor já percebeu que o título deste tamanho só cabe na Amazônia e no céu aonde a festa aconteceu. É sobre a festa que me atrevo escrever com a esperança de achar um tempo para ouvir o chitãozinho e chororó piar na festa que aconteceu no céu e me contado pelas seriemas, aos gritos, para ser ouvido lá em cima, além de Alá. Antes e com economia de espaço, quero dizer que o livro me custou só dez mil réis, à época, e mostra que o estudante não fazia greve — estudava.
Este apólogo ocupa seis páginas do livro e não posso transcrevê-lo na íntegra. Vou colocar aspas na parte que interessa ao leitor e vamos ver no que dá. “A mãe dos Bichos, com surpresa geral da fauna, apareceu enfim corporificada na floresta. Até então ninguém a vira. Ouviam-lhe apenas o canto e a fala. Mostrara-se linda e majestosa. Carregava o aspecto augusto de uma deusa e lembrava, no feitio, o ar soberano da Ave do Paraíso, se bem que as cores fossem outras. Alva, cauda em plumas frisadas, quando esta se arredondava num leque de arminho e ouro, dir-se-ia uma auréola que a envolvesse”. (O autor escreveu este livro para os seus netinhos Catarina, Teresa, Fernanda e Aldo. Eu copio para os meus bisnetos Felipe, Helena e Murilo e, também, para as seriemas e os nhambuzinhos lá do meu sítio e fico mais triste neste Finados, 2 de Novembro de 2016, que os jacus, as jacutingas, macucos e o nhambu-guaçu foram. Voaram com a Mãe dos Bichos para o reino da bem aventurança).
“Na cabeça alteava-se lhe bizarra coroa de pérolas negras. Tinha os pés verdes e o bico azul. Correspondia mesmo à divindade desencantada. Verdadeira joia da Natureza. Gorjeou primeiro uma ária estonteante e falou depois. Trazia, declarou a Visão, uma incumbência da Corte Celeste, que a encarregara de convidar seus filhos para uma grande festa no Céu. A clareira da selva em que a matriarca se manifestara regurgitava de animais. Amontoavam-se quadrúpedes, ofídios, quelônios, sáurios, aves, caracóis, insetos, quadrúmanos. Para que a embaixada terrena fosse brilhante, continuou a Bela Aparecida, tornava-se necessário organizar várias comissões. Uma, central, composta da Jararaca, da Preguiça, da Garça, do Macaco, do Tatu, da Minhoca, da Aranha. Cada ser alado, pássaro, inseto ou peixe, obrigar-se-ia a conduzir para a Mansão Etérea, um animal sem asas. Os excursionistas deviam levar ainda, escolhendo os melhores músicos da mata, duas orquestras. Nas vésperas da festa, declarou, volveria a fim de examinar os trabalhos. Ruflou as asas harmoniosamente e sumiu-se no espaço. Foi um chega e vira da nossa morte na fauna”.
Daí pra frente, leitor, eu não tenho condições de continuar acompanhando o rebuliço que se passava na mata desde que a Bela Aparecida ruflou as asas harmoniosamente e sumiu-se no espaço.
No meu tempo, as histórias que a minha mãe, cochilando, contava para nós, os animais não tinham Bolsa Escola nem Enem. Só o curiango, o urutago agourava o cachorro latia e o sapo no brejo conversava com a comadre rã e a intrigava com os grilos. O quarto era clareado com a tíbia luz de um coto de vela e meu pai dizia: “Apague essa vela, ela não cai do céu! Deitem e durmam, estou cansado e tenho de levantar cedo pra tirar leite”.

* In memoriam

  • Publicado originariamente em 2006
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