Pascoalino: ‘Mineiramente, 72 pontos no Ibope’

Mineiramente, 72
pontos no Ibope

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Com mais de 70 pontos no Ibope, Flávio Cavalcanti era o dono do domingo. Fosse mulher, seria a própria noite de domingo em pessoa. Quem o via tirando e pondo os óculos sem parar achava que ele estivesse precisando consultar um oculista. Flávio Cavalcanti era um artista exclusivo da TV Tupi, que naquele tempo reinava absoluta sem reclamar da falta de concorrência. Na modesta TV Globo um ex-camelô se esforçava fazendo de tudo para aparecer, mas, pelo jeito, ninguém queria ver. Mesmo quando o camelô colocava cidades para se comerem no palco — ao vivo — como galos de briga. A Globo de então era mesmo para principiantes. Imagina um sujeito descapitalizado alugar horas da programação dominical apenas tirando eletrodomésticos da cartola.

Na Tupi ficava o time dos profissionais. Dos grandes nomes saídos do teatro, das grandes estrelas caídas do rádio e dos espectros das colunas sociais. E, para que o seu programa não parecesse chato, Flávio Cavalcanti punha os craques da Tupi para jogar em outra posição: Pelé cantava e tocava violão, Chico Anysio fazia embaixadas com a bola e Roberto Carlos, acredite se quiser, contava piadas! Mas os picos de audiência eram alcançados quando a produção mandava buscar em Minas o médium Chico Xavier. Entre parênteses: o Fantástico só estrearia em 1975, com relativo sucesso graças a reportagens que anunciavam o fim do mundo segundo Nostradamus. O resto da história você já conhece: o mundo não acabou, Flávio Cavalcanti deixou a Tupi e dona Belinha viúvas, e aquele ex-camelô acabou comprando a falida Tupi para das suas cinzas construir a segunda maior rede de televisão do país — o SBT.

Chico Xavier vinha de Pedro Leopoldo (ou já seria de Uberaba?) para psicografar no programa Flávio Cavalcanti. A produção do quadro, de uma economia franciscana, contrastava com o smoking impecável de Flávio Cavalcanti. Uma resma de papel sulfite e alguns lápis pretos nº 2 era tudo o que Chico Xavier precisava para dar 72 pontos no Ibope.

O mais árido dos materialistas, o mais perdido dos ateus, o mais ressabiado dos maridos, todos se rendiam ante a figura daquele homem frágil, armado apenas de um sorriso deixado à vista entre uns lábios úmidos de cego, de onde saia um fiozinho de voz. Chico Xavier usava paletó sobre uma camisa esporte, sem gravata. Ninguém lhe dava apenas os 60 e poucos anos que exibia na carteira de identidade. Além dos óculos e dos grandes lábios molhados, a peruca mal fixada sobre a calva era uma de suas marcas registradas. De um preto intenso, os cabelos escorridos como os de uma boneca barata coroavam sua imagem. Mesmo assim, as câmeras se aproximavam cada vez mais dele, sem tirar dele a concentração nem espantar os espíritos. Sentada à direita do médium, uma assistente retirava as folhas que iam sendo escritas, uma a uma, de forma que não se interrompesse o fluxo grafológico. Colocando todo o peso de seus olhos estrábicos sob a mão esquerda espalmada na testa, Chico Xavier escrevia grande, como o parto de uma gata. Não mais do que 15 palavras por folha, mas muitas folhas.

O ponto alto da reportagem era quando Flávio Cavalcanti decifrava aqueles garranchos vindos do além. Nessa hora, ninguém arredava o pé da sala. Chego a pensar que no Brasil inteiro, por um instante, ninguém ia ao banheiro, nem se roubava. E o que diziam os espíritos que baixavam aos domingos na TV Tupi? Infelizmente, não me lembro de uma única palavra psicografada. Malemá, guardo uns restos de imagens em branco e preto do transe. E algumas das dúvidas que ficavam para espantar o sono. Por exemplo: onde se acomodavam aquelas almas enquanto esperavam a sua vez de entrar no programa?

Dia desses, folheando uma revista no dentista, dei de cara com uma reportagem sobre espiritismo. E lá estava Chico Xavier, sem a mágica da televisão, sem a música de fundo, sem a fisionomia contrita de Flávio Cavalcanti e seu corpo de jurados. Depois de 30 anos, sem procurar por ela, ali estava a resposta para as minhas dúvidas de domingo. Copiei em uma página perdida da minha agenda e reproduzo aqui para os leitores do DEBATE: “No livro Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier, é descrita a colônia espiritual para onde vão os espíritos brasileiros que morrem. Tem formato de estrela, localiza-se no céu, mais ou menos sobre o Estado do Rio de Janeiro, e tem hospitais, escolas, governo com ministérios e muita burocracia. Lá os espíritos passam por um processo evolutivo e aguardam até reencarnar mais uma vez” (revista Veja 26/07/2000).

De certo que deve ter queijo também.

  • Publicada originariamente em 13/08/2000
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