Nath Camilo: ‘Crônica em sépia’

Crônica em sépia 

Nath Camilo
Da Equipe de Colaboradores

Quando passo os dias no departamento de arquivos manuais, distribuídos em caixas e prateleiras a se perderem de vista, é sempre preciso raciocínio direto para não deixar sensações nostálgicas permanecerem com você diante de papéis amarelados. Sempre existe alguma ficha de alguém que já faleceu, um primo-avô, um profissional querido ou um médico tão antigo que sequer ouvimos falar na nossa geração.
Quando menos percebemos, nosso pensamento está em modo de fotografia sépia, sobrevoando nossas saudades, nossos segredos, algumas tristezas e a certeza de que amanhã não seremos nada mais que uma vaga lembrança para as poucas pessoas que nos amam de verdade. O retrato em sépia nos faz entender que não existe justificativa para tomar anfetamina com a finalidade de se tornar magra. Nem gastar a melhor maquiagem no dia a dia para se tornar perfeita. Pois é fato comprovado que um dia a beleza se vai e dá lugar a um rosto cheio de imperfeições. E botox demais irão deformar ou construir em nós uma aparência que nunca existiu.
O salão claro composto de dezenas de prateleiras e centenas de caixa faz lembrar que meu avô deixou um vazio do meu lado direito que nunca será preenchido, não importe o quanto eu chore, nem o quanto eu me mergulhe em orações, a tristeza é sempre pela certeza de que não voltaremos ao mesmo lugar. Ele não vai mais me contar a história de Chapeuzinho Vermelho cinco vezes consecutivas ou até mais se eu pedir. Nem vai resolver minhas contas de matemática com fórmulas criadas por ele, pois afinal não estudou, mas seu raciocínio lógico era incomparavelmente melhor que o meu. E depois de procurar a existência dele, sinto falta de conversar com minha avó que está se tornando uma criança e hoje quer pagar aluguel da própria casa, pois não se lembra que é dela. E por mais que eu tenha aproveitado sua presença e de ela ser tão presente em minha vida, eu sei que nunca vai ser suficiente, pois quando amamos nós desejamos o estar infinito das coisas.
As relações extrafamiliares também são lembranças tão sólidas, mas como dizia Karl Marx, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Não sei em que livro isso foi citado, nem sei se cheguei a ler ou vi em algum muro de uma cidade universitária, pois li O Capital, nunca li A Comuna, como uma eterna aprendiz das Relações Internacionais a URSS me arrepia.
Quando o gelo derrete sempre há um pouco de vapor, então o sólido se desmancha no ar. O retrato em sépia continua em flashes durante o dia. E me arrependo de não ter gelado algumas pessoas da minha vida à primeira vista. Provavelmente hoje não teria o desprazer da lembrança e essas poderiam ser mais agradáveis, puras e verdadeiras sem o veneno do diabo. Nem sempre alguém que veste Prada é o diabo, mas o diabo sempre vai vestir Prada e, se sorrir para ele, você vai beber seu veneno, e se tiver sorte não será fatal, mas vai se machucar e o tratamento será extenso.
É melhor gelar o diabo que veste Prada do que os raros cavalheiros de terno Armani que passam por nossas vidas. Uma hora você vai sentir falta do seu paletó esquentando suas costas, ou de como ele passa horas conversando com você enquanto enxerga a pureza e a sinceridade em seu olhar. Ou das vezes que te ocupou a noite toda numa festa porque sabia que se sentia mal com tanta vaidade e absinto.
Mas o presente também é um passado, existem pessoas que são desmascaradas secretamente para nós mesmos, quando se escuta uma missionária que frequenta diariamente a igreja criticando a vaidade do século XXI, e se lembra de que todas as vezes em que entrou na loja ela te oferecia produtos em dobro, e sua alma mercenária desabrochava pois sabia sempre que você era praticamente obrigada a comprar ao menos um item, há as lembranças de sempre falar em tendências e aparências. Quando passou a lucrar tudo o que podia talvez achasse necessário falar da vaidade em excesso com acusações para não sentir culpa do lucro. Afinal, os católicos precisam de terapia intensiva quando enriquecem tudo o que querem. Por mais que a metáfora sempre esteja sendo interpretada errada, “é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha”… Enfim!
Nesses casos é melhor ser judeu e acreditar com toda sua força que é um dever divino enriquecer. E quando chego nesse assunto alguns ascendentes aparecem novamente numa lembrança em sépia, é quando volto para o presente para não sentir meu peito mais machucado ainda de um acidente na estrada que levou minhas estruturas embora. Meu pai não sabia, mas ela sempre me deixou mexer com toda sua penteadeira, inclusive abrir gavetas, passar pó de arroz e usar sua escova de cabelos.
Entre tantos retratos em sépia, é preciso ter fé e amor para combater a saudade que arrebata daqueles que não voltam mais, para acreditar que um cavalheiro ainda pode aparecer do seu lado e até mesmo que ele possa gostar de jogar xadrez durante o fim do dia ouvindo um happy folk. É preciso se lembrar do sorriso e da alegria de quem se foi, e da força e da sabedoria das suas estruturas. Assim como todas essas lembranças, por um momento eu não passarei de uma, ou talvez seja mais uma esquecida. Está é minha crônica em sépia, pois ela é a última. Não sei até quando, apesar de falar tanto em lembranças, mal tenho tempo pra me sentar à mesa e comer algo. Busquei tanta coisa pra fazer na vida que atualmente sou um imã de trabalho e estudo. Só agradeço, mas esse meu canto aos domingos será esquecido nos próximos dias. No entanto, sempre quando o trem passa ele me faz lembrar que sua trilha não tem um fim, ela vai ser sempre um eterno retorno. E o mais bonito nessa trilha, nós sempre vimos luz no fim de um túnel. Essa é a lembrança que quero deixar, há sempre o retorno, e a luz sempre existe no fim de algo, é assim que deixo meu retrato em sépia. Nostálgica, já com saudades, grata por todos e por tudo, e com a certeza de que hoje, foi essa trilha que tive que seguir.

* Nath Camilo
é escritora
santa-cruzense,
autora de “A
Névoa Cinza do
Paraíso” e
outros livros

 

  • Publicado na edição impressa de 21/07/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate