Frei Cardoso agora é comendador

COMENDADOR— Alberto Cardoso saúda o público logo após receber a comenda da Câmara de S. Cruz

Dominicano Frei Cardoso foi homenageado com uma
comenda pela Câmara, na noite de quinta-feira, 25

‘FÃS’ — Vereadores fazem ‘selfie’ com frei Cardoso na cerimônia

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O frei dominicano Alberto Cardoso é, desde a noite de quinta-feira, 25, o terceiro detentor do título de comendador outorgado pela Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo — os outros foram o frei Lourenço Pappin e José Eduardo Catalano. Aos 90 anos de idade e no mesmo dia em que sua ordenação sacerdotal completou 63 anos, frei Cardoso recebeu a homenagem diante de uma multidão que acompanhou o evento. O religioso disse que não merecia a honraria e, no final, emocionou o público com a declamação de um poema.
Nascido Dino Cardoso Furtado, no município de Vargem Grande do Sul/SP, na divisa com Minas Gerais, o frade dominicano foi ordenado em Bolonha, na Itália, em 1956, depois de concluir os estudos do ginásio e colegial em Santa Cruz do Rio Pardo, na Escola Apostólica Dominicana. O nome “Alberto Cardoso”, segundo ele, foi sugestão dos próprios superiores.

Sanches Marin elogiou dom da palavra

O religioso foi missionário no sertão de Goiás, inclusive no meio de índios Carajás e sertanejos, mas foi em Santa Cruz do Rio Pardo que permaneceu a maior parte de seus 90 anos — chamado de “Jubileu de Álamo”. “Percebi que a cidade é a minha casa”, revelou frei Cardoso durante a homenagem, contando que não “ficava à vontade” em outros municípios. Aliás, ele já foi homenageado pela Câmara com o título de “cidadão santa-cruzense”.
Nos anos 1960, frei Cardoso participou da construção da nova Matriz de São Sebastião, ao lado do frei José Maria Lorenzetti. No entanto, admite que foi contra a demolição da antiga igreja, com suas fascinantes torres. Professor de Educação Moral e Cívica, foi coordenador do Centro Cívico da escola “Sinharinha Camarinha” e fundou um grupo de escoteiros para auxiliar adolescentes — entre eles Eduardo Blumer, Brasil Zacura, Isaias Carvalho dos Santos e outros — na formação social e religiosa. Cardoso também foi o responsável pela construção da Casa Paroquial.
Ainda hoje, o frei é surpreendentemente disposto para seus 90 anos. Ele reza missas na Igreja Matriz, visita doentes, atende confissões, celebra casamentos e ainda participa de programas católicos na rádio Difusora.

LOUVOR — Público cantou hino católico em homenagem ao frade

Pregador ‘brincalhão’

A comenda legislativa foi outorgada por um projeto apresentado pelo vereador Paulo Pinhata, atual presidente da Câmara. O prefeito Otacílio Parras (PSB) saudou o frei Cardoso como aquele que fez sua confissão e comunhão. “Conheço a família do frei desde que nasci, pois meu pai foi vizinho durante muitos anos”, contou.
O empresário José Sanches Marin, ministro da eucaristia da Matriz de São Sebastião, também usou a tribuna para homenagear frei Cardoso, lembrando que o religioso costuma integrar caravanas de pescarias. “São pitorescas na vida dele estas aventuras no Mato Grosso. Porém, mesmo no lazer, ele não deixa de rezar a missa para todos nós”, afirmou. Marin disse que a Câmara foi “iluminada” ao propor a homenagem ao frade dominicano. “A Ordem Dominicana está em Santa Cruz há mais de 80 anos e o frei Cardoso tem 63 anos de sacerdócio e 90 de idade. É uma vitalidade e jovialidade que encantam ows jovens do seminário. Ele sempre foi brincalhão e sou testemunha de que a idade não afetou sua jovialidade. Como ministro, confesso que as últimas missas do frei Cardoso têm surpreendido os paroquianos pelo dom da palavra”, disse.

Frei recebeu a comenda numa cerimônia festiva

Na tribuna, Alberto Cardoso “confessou” que falar numa cerimônia legislativa é mais difícil do que pregar numa igreja. “É um privilégio receber esta comenda. Mas quero dizer que fiquei preocupado, pois esta homenagem geralmente é dada às pessoas que fizeram relevantes serviços à comunidade. Confesso que nada fiz, além da minha vida sacerdotal, que sempre foi muito simples”, disse. “Quero agradecer a Deus, que me deu esta perseverança, mas também gostaria de compartilhar esta comenda com o frei Chico, pois ele realmente fez um trabalho de vulto em Santa Cruz, com a fundação da creche no São José e da Casa do Menor. Assim, que seja uma homenagem póstuma também ao frei Chico”, afirmou. No final, ele ainda emocionou o público ao recitar uma poesia.
O vereador Luciano Severo (PRB) contou, logo após o discurso do frei, que foi “coroinha” nas missas de frei Cardoso. Severo afirmou que o religioso demonstrou humildade ao dizer que não merece a homenagem. “Nestes 90 anos de existência, o senhor salvou muitas almas da escuridão. Uma única sequer já seria motivo suficiente para garantir, aos olhos de Deus, um lugar ao lado dele”, disse o vereador, que pediu “mais 90 anos” ao dominicano. “Não podemos colocar limites para Deus”, respondeu frei Cardoso.


Frei Cardoso diz sentir um ‘saudosismo muito forte’ da antiga Igreja Matriz

Frei tem saudades da antiga Matriz

Alberto Cardoso pensa em escrever um
livro sobre suas ‘peripécias’ em Santa Cruz

Frei Alberto Cardoso, nascido Dino Cardoso Furtado, chegou aos 90 anos com uma vitalidade que impressiona os fiéis católicos. Homenageado pela Câmara na quinta-feira, 25, com o título de comendador, ele não faz uma dieta especial, come de tudo e ainda não dispensa uma cervejinha ou um bom vinho. O segredo? “Nunca fumei ou bebi em demasia”, disse no início do ano, em entrevista ao jornal.

Frei Cardoso, na tribuna da Câmara
Frei Cardoso é homenageado por Cyro Camarnha na década de 1960

O religioso católico — que há 70 anos grava o programa radiofônico “Ave Maria” — diz que outro segredo é “estar em paz com Deus”. Frei Cardoso já dormiu em acampamentos ouvindo o esturro da onça, se livrou de acidentes em estradas intransitáveis e foi um grande jogador do time dos dominicanos, inclusive jogando na Itália. No entanto, garante que o craque daquele time era o frei José Maria Lorenzetti.
E foi ao lado do amigo — que morreu em 1986 — que Alberto Cardoso acompanhou, com amargura, a demolição da antiga Matriz de São Sebastião, para dar lugar a um templo moderno na avenida Tiradentes. Segundo ele, o frei Humberto Pereira foi um dos grandes entusiastas da campanha para construção da nova Matriz, nos anos 1960.
Frei Cardoso disse que a antiga igreja realmente tinha problemas de rachaduras, mas era uma construção que não estava comprometida. Ele explicou que a construção de grandes templos era uma mentalidade dos líderes católicos naquela época. O frade reconhece que estas ideias surgiram na Itália na época do fascismo de Benito Mussolini.
Quem veio para Santa Cruz trazendo a “moderna” arquitetura da Itália foi frei Henrique, também responsável pela construção do Santuário Nossa Senhora de Fátima e do Colégio Dominicano. “Tudo é muito grande, com aqueles enormes corredores”, lembrou.
Hoje, talvez frei Cardoso fosse uma voz dissonante contra a demolição da Igreja Matriz que deixou tanta saudade na população. “Rezei muitas missas na antiga Matriz. É um saudosismo forte”, disse ao jornal no início do ano.

‘REI’ NO CINEMA — Roberto Carlos doou renda para construção da nova igreja

Roberto Carlos

Para a construção da nova Igreja Matriz, a paróquia realizou uma série de eventos para arrecadar recursos. Um deles foi um show especial com o cantor Roberto Carlos na década de 1960, quando o “rei” já era ídolo da “Jovem Guarda”. A apresentação foi no cinema, o antigo “Cine Pedutti”, já que o prédio ainda não pertencia ao município.
O frei Cardoso ainda se lembra do show, embora não dos preparativos. “Mas eu estava no cinema”, afirmou.
O interessante é que Roberto Carlos já demonstrava ser religioso convicto. Tanto que, ao saber que a renda seria para a construção de uma nova igreja, não cobrou cachê. Sim, o artista que hoje cobra mais de R$ 1 milhão por apresentação, veio a Santa Cruz do Rio Pardo de graça.
Frei Cardoso admite que, naquela época, “olhava torto” para Roberto Carlos. Um dos motivos era a rebeldia do “rei do iê-iê-iê”. O outro, uma música que dizia que mandaria “tudo para o inferno”.
Com tantas histórias para contar, frei Alberto Cardoso planeja escrever um livro sobre a sua vida. Ele, inclusive, já tem o título na cabeça: “As peripécias de um frei”.

  • Publicado na edição impressa de 28/07/2019
Sobre Sergio Fleury 5353 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate