CARTAS – Edição de 11/08/2019

Missão dos avós

Neste mundo em que se exalta a juventude como um estado eterno, o vigor e a beleza como referências existenciais, a pouca idade como síntese de todos os valores, nesta época, neste mundo de hoje, algum papel existe para ser desempenhado pelos avós?
Num tempo que se alicerça no materialismo, terá sentido cultuar essa figura que, antigamente, era mítica?
Dentro de uma economia de mercado, que tem no pragmatismo sua diretriz, é cabível consumir recursos públicos com um grupo etário que pouco produz?
Numa quadra da história em que se fala, de peito aberto e sem qualquer pudor, em reduzir direitos dos aposentados, numa quadra como esta, avô não é reminiscência de uma tábua moral ultrapassada?
Suponho que três respostas negativas e somente uma afirmativa (para o último quesito) serão dadas, quase que mecanicamente, por inúmeras pessoas, mesmo pessoas bem intencionadas e de caráter. Isto porque a ideologia dominante inoculou no subsconsciente coletivo as respostas equivocadas que supomos serão oferecidas.
Essa ideologia despreza a Ética.
Quer resultados e não reflexão filosófica.

Mas devemos remar contra a maré e fazer Filosofia.
Os avós têm um duplo papel: na família e na sociedade.
Na família os avós são conselheiros dos pais e dos netos. Podem transmitir ao vivo a experiência que nenhum livro, ou programa radiofônico, ou televisivo, é capaz de traduzir.
Os avós são apoio em inúmeras situações e emergências. Integram a família.
Feliz da família na qual comparecem os avós.

Na sociedade, os avós transmitem ao presente a herança do passado. São depositários da sabedoria acumulada através de milênios.

A Bíblia aponta horizontes que merecem ser seguidos por crentes e não crentes.
Esse Livro Sagrado exalta a missão dos avós.
Lóide converteu-se ao Cristianismo durante a primeira viagem missionária de Paulo.
Graças ao ensino e ao exemplo de Lóide tivemos no seu neto Timóteo um dos maiores apóstolos dos primeiros tempos.
Até os pequenos gestos revelam a atitude respeitosa ou desrespeitosa para com os idosos.
Ceder o lugar ou a passagem ao idoso, mostrar-se disponível para ajudar nas mais comezinhas situações, tudo isso demonstra o nível de educação de uma comunidade.
Ao escrever este texto penso nos jovens que são os sucessores das gerações que partem.
Precisam esses jovens de orientação para escolher caminhos que contrastam com o modelo social imperante, vazio, sem alma, desumano.
— João Baptista Herkenhoff, juiz aposentado (Vitória-ES)

A cultura individualista
São múltiplas as razões para a extensão das redes criminosas que agem à sombra do Estado. Uma das fontes desse poder oculto é a própria Constituição de 88. Parece uma sandice, pela antinomia expressa: a lei maior, no mais elevado pedestal da Pátria, ser responsável por mazelas. Há lógica?
Ao abrir o leque de direitos sociais e individuais, a Carta construiu as vigas institucionais com autonomia, liberdade e competência funcional. Sistemas e aparelhos se robusteceram para exercer com independência as funções constitucionais. O Estado liberal e o Estado social convergiram suas posições em direção ao Estado Democrático de Direito, sob o qual o Poder Judiciário assume posição de relevo, fato que explica seu papel preponderante na pavimentação da via democrática.
A judicialização da política, fenômeno bastante observado nos últimos tempos, leva em consideração a ausência de legislação infraconstitucional, o que tem permitido ao Judiciário entrar no vácuo legislativo e interpretar as normas de comando.
Instituições do Estado, voltadas para a defesa do regime democrático, da ordem jurídica e dos interesses sociais e individuais, ganharam impulso. O Ministério Público, por exemplo, alçado à condição de instituição essencial à função jurisdicional do Estado e acrescida bagagem normativa, passou a incorporar a missão de guardião maior da sociedade. Sua atuação, se, de um lado, ganhou o respeito dos cidadãos, passou a ser questionada por causa de ações consideradas exageradas.
A Polícia Federal reforçou a identidade como órgão encarregado de exercer a segurança pública para a preservação da ordem e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, passando a agir em parceria com instâncias do Judiciário. Sua extensa folha de serviços, alargada por um fluxo de maior profissionalismo, penetra nos espaços mais obscuros da vida criminosa e nos porões incrustados nas malhas da administração pública.
A par de sua contribuição para a consolidação dos pilares éticos e morais e a preservação das boas práticas políticas, ganhou uma legião de críticos e adversários, também por conta de operações espetaculosas, marcadas por nomes simbólicos. Como pano de fundo temos a Constituição de 88, que propiciou ao aparelho do Estado a competência para organizar estruturas e métodos capazes de garantir a sua segurança e alcançar o equilíbrio social.
Às ações do MP e da PF se somam tarefas de outros sistemas que também fazem apurações e controles, como o Gabinete de Segurança Institucional, o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da União, além dos aparatos do Parlamento, como as Comissões de Inquérito. O Estado possui máquina mais que suficiente para monitorar retas e curvas de pessoas físicas e jurídicas. Mas nessas trilhas a coisa começa a desandar. A pletora de instrumentos de controle abre imensos vácuos. A política é como a água corrente: preenche os vazios.
Tarefas assemelhadas se repartem entre alguns órgãos, espaços se bifurcam e dirigentes são atingidos pelo fogo das vaidades. Cada qual procura chamar para si a atenção. Afinal, as luzes do Estado-Espetáculo propiciam ampla visibilidade. Se as ferramentas a serviço do Estado fossem desprovidas de sentimentos, teríamos gigantesca estrutura de controles comprometida com o bem comum. Coisa difícil.
O bem da coletividade passa pela filtragem personalista. Somos um País que privilegia a marca pessoal. A ação da entidade é precedida pela louvação do dirigente. O ministro Sérgio Moro ganha estátua de xerife-mor. Mesmo sob tiroteio. Juízes e procuradores dão o tom da justiça e da política, imprimindo à orquestra o seu compasso. Alas e grupos se formam no interior de estruturas, matizes políticos dão o tom de operações e a algazarra do espetáculo acende altas fogueiras.
A querela se espalha, como estamos vendo hoje entre os três Poderes. O que fazer com a massa contenciosa que agita atores e instituições? O óbvio: cumprir o dever nos limites prescritos pela lei, despir-se de vaidades, usar o bom senso para evitar duplicação de tarefas e profissionalizar as estruturas, deixando-as imunes aos partidarismos. Cada Poder deveria se ocupar de suas funções. Sem mais nem menos. Se for criado um novo controlador para comandar o já existente, o País andará em círculos.
— Gaudêncio Torquato, jornalista (São Paulo-SP)

Eu votei no Bolsonaro porque…
Eu votei no Jair Messias Bolsonaro porque ele prometeu uma nova política, um jeito novo de governar, de uma forma que a maioria dos brasileiros gostaria de ver, sem compadrio, sem alianças espúrias, de respeito ao erário, rígido no gasto público, com uma equipe de notáveis.
Eu votei no Bolsonaro porque ele prometeu não nomear para cargos da provisão da presidência: aliados políticos ou seus indicados (afilhados políticos), nem indicados por amigos pessoais ou gurus que sequer morem no Brasil e nem parente algum. Somente seriam considerados os que estivessem aptos aos cargos e nomearia pessoas de notório saber. Mesmo porque ele se considerava um militar e político e não entender de mais nada, exceto escolher pessoas.
Infelizmente, ele não cumpriu, ouviu o guru que abandonou o Brasil para viver bem nos Estados Unidos da América, e este lhe indicou algumas personagens que nem conhecia pessoalmente e mostrou-se um desastre na pasta mais importante da nação: a Educação. Depois nomeou outro que confunde personagens históricas, não tem senso algum de prioridade para o ministério, não apresenta um plano de educação para melhorar as escolas, os professores, envolver os pais e a comunidade, melhorar infraestrutura e utilizar melhor os recursos financeiros.
Embora, pessoalmente, eu não seja contra ter um ou outro parente ocupando cargos de nomeação política, nossa sociedade é contra qualquer tipo de parente ocupar qualquer cargo da provisão, ponto final. Nem que o filho fosse extremamente competente, o que, claramente, não é, não tem experiência alguma em diplomacia, tem um inglês sofrível -comunica-se bem em inglês como o Lula em português-, apresenta um americanismo – emprestando o termo da Igreja Católica- imperdoável, além de ser fã do presidente Trump, algo inconveniente para um diplomata.
Eu votei no Bolsonaro porque ele prometeu que seria guiado pelos valores da honestidade e “res publica” e que respeitaria o Erário com uma administração austera sem benesses pessoais como fez na campanha. Que implantaria um controle de gastos e extinguiria estatais, como o Trem Bala e a TV Lula. Eliminaria cargos em comissão e privatizaria estatais. E, como consequência, reduziria impostos.
Tal qual na Revolução dos Bichos, o presidente altera suas “leis”. Lamentavelmente, disponibilizou helicópteros da presidência para transportar parentes -a recusa em explicar ainda piorou a atitude-, não extinguiu estatais, utiliza-se dos equipamentos do Estado para realizar agendas que não são do interesse público, etc.
Preocupa-me a inexperiência no setor público de seu guru da economia, Paulo Guedes, mas Meirelles também não tinha e foi um brilhante ministro, tirando o Brasil da depressão econômica que a Dilma criou. Infelizmente, mesmo tendo um ano para preparar um projeto, Guedes mostra amadorismo ao fazer projetos como a liberação do FGTS. Esquece-se que o país precisa, além de uma reforma educacional, um política econômica, de tributação, um projeto para criação de empregos, etc. Sem contar que o governo deve também uma reforma política.
E tantas outras coisas que o então candidato Bolsonaro prometeu e não cumpre, como as patacoadas que ele proferiu contra o INPE — serão tratadas em futuro próximo. É preciso que os que o amam o coloque de volta aos trilhos que ele prometeu trilhar.
— Mário Eugênio Saturno (São José dos Campos-SP)


‘Foto do Leitor’

D. Pedro no desfile cívico

Numa última lembrança do desfile de Sete de Setembro de 1954 em Santa Cruz do Rio Pardo, o leitor Edílson Arcoleze Ramos de Castro mostra hoje um aluno fantasiado de D. Pedro I. Ele passa pela antiga Silva Jardim, hoje avenida Cyro de Mello Camarinha,  no centro da cidade.

 

  • Publicado na edição impressa de 11/08/2019
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