Beto Magnani: ‘O figurino’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

‘O figurino’

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

— O figurino levou três meses para ser feito! Cheio de detalhes! Criado e costurado pela Iolanda!!!
— Que Iolanda?!
— Iolanda Saldanha!!!
— Sim.
— Veio de Salvador só pra esse trabalho!
— Então vai ter que vir de novo, porque já era o figurino.
— Como assim já era? Não ligaram para o motorista do táxi?!
— Ligamos e ele disse que não foi deixado no carro. Não achou nada.
— Eu tenho certeza que o figurino ficou no táxi. Ele saiu com o carro bem na hora em eu fui abrir o porta-malas. Acho que esqueceu que eu tinha colocado o vestido lá.
— Ou roubou mesmo.
— Mas por que um motorista de táxi roubaria o figurino de uma peça de teatro!?
— Talvez porque ele conheça a Iolanda Saldanha.
— Mas eu não falei pra ele que o vestido do porta-malas era da Iolanda Saldanha.
— Ele viu o vestido?
— Viu.
— Então ele conhece o estilo da Iolanda Saldanha.
— Não, a Iolanda é figurinista e não estilista. O figurino depende da proposta de encenação, é sempre diferente em cada espetáculo. Ele não reconheceria a Iolanda Saldanha pelo estilo. Talvez pelo talento.
— Então foi pelo talento. Ou por ser um vestido diferente. Pensou que poderia ser caro por ser diferente e resolveu roubar pra vender nas quebradas.
— Tem que fazer um Boletim de Ocorrência na policia. Temos que recuperar o vestido.
— Impossível fazer o Boletim de Ocorrência.
— Como assim
— Já fui na delegacia. Falaram que esse tipo de ocorrência é feita pela internet.
— E aí?
— E aí que na internet aparecem várias opções de furtos e não consta furto em táxi. E Figurino de Teatro também não consta em itens roubados.
— Coloca vestido.
— Também não consta. Acho que nunca furtaram vestidos. Muito menos em táxis.
— Não tinha a opção Outros?
— Não.
— Nem NDA.
— O que é NDA?
— Nenhuma Das Alternativas.
— Também não tinha.
— Mas todas as listas têm que ter Outros ou NDA no final!
— Mas essa não tinha.
— E agora?
— Não tem solução! Não é possível chamar a polícia para roubos de figurinos por taxistas. Pra piorar o motorista nega o fato, alega inocência. Nós vamos ter que fazer a peça com outro figurino e mandar a Iolanda Saldanha pro ralo.
— Tenho uma estreia daqui três dias e fotos para divulgação daqui meia hora e você me diz que eu não vou ter os figurinos de Iolanda Saldanha!!!
— Se o figurino não fosse esquecido pelo senhor no táxi também não teríamos o produtor executivo porque você já teria me matado.
— Teria mesmo!
— Será que tem a opção Assassinado pelo Diretor no Boletim de Ocorrência online?
— Você já estaria morto, como faria o Boletim de Ocorrência?
— Deixaria pré-agendado. Faria imediatamente depois que o táxi saísse com o figurino no porta-malas. Antes de lhe contar.
— E agora? Falta meia hora para as fotos. O fotógrafo tá esperando. E daqui três dias é a estreia! Você tá me entendendo?!
— Perfeitamente. Eu colocaria uma camisola na atriz. Vai ficar muito melhor do que aquele vestido horroroso da Iolanda Saldanha.
— Que merda!!!
O telefone do produtor tocou. Ele atendeu e saiu falando pela rua. O diretor entrou no teatro. Eu só tinha parado para olhar os cartazes da programação e não resisti ouvir a conversa.
Nunca tinha ouvido falar em Iolanda Saldanha. Fiquei curioso pelo espetáculo. Tomara que ele use camisola; não sei porque senti mais firmeza naquele jovem produtor do que na tal Iolanda Saldanha.
Lembrei que também precisava fazer um Boletim de Ocorrência de extravio da minha identidade. Imagino que exista essa opção. Fui à Lan House. (Magú) 

  • Publicado na edição impressa de 11/08/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate