João Zanata Neto: ‘Ensinamentos tóxicos’

Ensinamentos tóxicos

João Zanata Neto *

Estou em um momento de plenitude. É aquela sensação de missão cumprida. Tudo parece mais cristalino quando o final se aproxima. E, nesta hora, quando me libertei das amarras dos ensinamentos tóxicos, que a razão e a serenidade se tornam mais presentes.
O ideal está longe, no entanto, as sementes que já germinam expõem os resultados incipientes que satisfazem. Este contentamento provém da percepção de mudanças amistosas em um horizonte infecundo e degenerado.
Nascemos e crescemos assimilando padrões e verdades que se diziam inquestionáveis. Um mundo estranho aos nossos olhos se interpôs como o único horizonte. Nos entremeios destes ensinamentos venéficos qualquer questionamento era duramente rechaçado e ironizado. Fôramos vítimas indefesas de um sistema padronizador que passava um rolo compressor em todos os pensamentos libertários e criativos.
Quantas observações superficiais são ditas como verdades pela mera coincidência? Quantas aproximações são consideradas para se ter uma verdade? Quantas idealizações são feitas para se alcançar uma verdade hipotética? Quantas verdades hipotéticas se aconchegam em nossa mente como uma verdade inquestionável? Quantas lendas e histórias são contadas para nos causarem temeridade ou idolatria? Quantas vezes nos anunciaram a morte para que ansiássemos a salvação? Este é o repertório dos ensinamentos tóxicos que nos aprisionam.
Mas, um dia este ciclo de aprendizagem termina e muitos se mostram adultos, adulterados, adestrados e adaptados. Somos engrenagens que se acoplam justas neste sistema que não permite qualquer excentricidade. Tudo funciona muito bem até que um lampejo de razão exorbita a conformidade das coisas.
Alguns questionamentos começam a depurar as verdades vigentes. Uma ansiedade pelo sentido das coisas surge feito febre, inquietando as mentes que agora se mostram muito mais curiosas e desconfiadas. O velho veneno das ideias impostas se transforma no tônico das transgressões. O velho mundo que desde o início se apresentou aos nossos olhos parece agora mais nocivo, explorador e injusto.
Afortunados serão todos os que se insurgiram contra a toxidade dos ensinamentos, passando a depurar todas as ideias nocivas que furtaram o indivíduo que havia em cada um. Para ser gente é necessário ser insurgente contra os padrões aniquiladores da individualidade. Adicionemos todos os obstáculos e dores que nos relegaram a um canto sem importância e teremos um vazio como o resultado de todos os nossos esforços para ter uma nesga de pão.
Ao menos seremos filósofos de ocasião quando tudo estiver perdido e sem sentido. Quando tudo for exploração, injustiça, submissão e desumanidade uma razão sóbria nos alertará sobre as incoerências deste mundo. O que estamos fazendo, em que estamos acreditando e para onde estamos indo será a pergunta mais racional ante todas as atribulações que contaminaram o nosso pensamento.
Quando esta lucidez regenerar o nosso pensar, enfrentaremos a persistência dos padrões como um inimigo declarado. Ao menos seremos o ermitão de ocasião que desejará subir as montanhas para fugir de todas as amarras do mundo. A natureza é o bucólico rincão da paz. A sintonia com o universo que nos abraça pleno, infinito e desconhecido, mas nos acolhe sem fronteiras para o nosso pensamento. Nele não há horizontes, nem início, nem meio e nem fim, onde o nosso velho mundo opressor é um grão de areia insignificante.

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 11/08/2019
Sobre Sergio Fleury 5353 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate