Pascoalino: ‘Dois caminhos’

Dois caminhos

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

A vida é como um pé de guatambu, essa árvore de pequeno porte cujo tronco dá um bom cabo de enxada. O guatambu cresce no cerrado se multiplicando em bifurcações simétricas que nas extremidades também viram forquilhas de estilingue. Se uma formiga-cabeça-de-vidro ou uma maria-fedida sobe por um pé de guatambu, ela se verá diante de uma profusão de encruzilhadas ou ipsilones.
A primeira encruzilhada na vida da gente é quando o embrião se define por um sexo, entre a oitava e a décima segunda semana de gestação. A partir de então, as bifurcações se multiplicam numa escalada lotérica. Sim ou não, faço ou não faço, vou ou não vou, caso ou compro uma moto? Bifurcações, encruzilhadas a toda hora, para todo lado que se olha. Igual a um pé de guatambu do ponto de vista de quem sobe.
Na casa do falecido Reinaldo tinha um quadro cheio de insinuações que eu nunca entendi direito. Era um quadro colorido intitulado “Dois Caminhos”, em letras góticas, como hoje escrevem na fachada desses sacolões da fé. Na base da gravura, de uma lateral a outra, desenhava-se o primeiro ato. Um muro alto, como o dos atuais condomínios fechados, com duas opções de entrada. À esquerda, um portal ornamental onde duas estátuas seguravam sugestivo BEM VINDO. Reforçando o parentesco com os condomínios, abaixo desse letreiro havia uma guarita de segurança. À direita, a entrada era mais modesta. Uma porta estreita, sem palavras ou faixa de boas vindas, anunciada apenas por um homem suado, desses que você vê com um livro na mão pregando nas praças para todos e para ninguém.
Dividia o quadro ao meio, no sentido vertical, uma sinuosa cerca de madeira. Os próximos passos iam perdendo em detalhes, mas ganhando em dramaticidade. O portal da esquerda levava imediatamente a um salão de baile, ao teatro e ao cassino – todos lotados! O que não cabia na gravura vinha citado nominalmente: taberna, loterias, profanação do domingo, penhora, etc. Os que iam por esse caminho não dispensavam chapéu-coco, vestido longo, fraque, sombrinha e bengala. As crianças iam vestidas de padrinhos e madrinhas de aliança, numa escala reduzida dos pais. Por outro lado, a porta da direita conduzia a uma catedral medieval, uma encenação da crucificação de Cristo, uma escola dominical, uma escadaria quilométrica e uma pinguela por onde só se passava a pé. Esse detalhe devia ter alguma importância, pois no outro caminho subia-se a cavalo e até de trole.
As mulheres que seguiam pela esquerda tinham um belo perfil – uma até se parecia com a polaquinha da lata de Leite Moça. As que iam pela direita estavam sempre de costas e olhando pro chão. De repente, no caminho da esquerda, via-se um cavalo sendo açoitado, gente brigando, e um homem enforcado na janela do cassino. Pelo caminho da direita seguiam crianças seguras pelas mães, pastores, carneiros e pequenos grupos adeptos do piquenique (do inglês, picnic, literalmente comer no chão com as formigas).
O penúltimo passo do caminho à direita era um sobrado germânico que abrigava o Instituto de Diaconisas. Daí pra frente era só uma trilha em desfiladeiros impensáveis como os que sobem para Machu Picchu. E lá no topo, dez anjos tocando trombetas na direção de um bezerro de ouro.
As coisas tinham sido desenhadas para que fôssemos comparando os caminhos, passo a passo, como se fossem dois prédios vizinhos. Mas, à esquerda do Instituto de Diaconisas, o desenhista desistiu das sutilezas: Fuzilamentos, açoitamentos, embates entre guerreiros montados e uma maria-fumaça. Nunca entendi aquele trem de ferro correndo em direção ao fogo do inferno. Seria uma alusão ao progresso?
Entre os dois caminhos, lá no alto do desenho, quando o destino de todos que subiam já estava selado, desenhavam-se no céu um inútil arco-íris e o triângulo iluminado de onde um só olho (enorme e triste) nos observava. Anos depois, reencontrei esse mesmo olho grande desenhado na parede de uma sala de tortura nos porões do Palácio da Polícia, na rua Brigadeiro Tobias, centro de São Paulo.
Não quero tomar o seu tempo com analogias. Essa não é uma crônica que traz pendurada no rabo certa moral da história. Todo mundo tem as suas próprias encruzilhadas na vida. Até o radialista canalha que se diz um homem sem escrúpulos. Até as marias-fedidas. Todos amanhecemos a cada dia para uma nova série de ipsilones que haverá de nos conduzir à saúde ou à doença, à alegria ou à tristeza, ao sucesso ou o fracasso – seguem-se as 305 páginas do meu dicionário de sinônimos e antônimos, com 12 mil referências (Ed. Artenova).
Até onde me lembro, no quadro que decorava a sala do falecido Reinaldo, logo na cena primeira havia duas placas. Numa estava escrito, CAMINHO DA PERDIÇÃO. Na outra, CAMINHO DA SALVAÇÃO. Eram duas plaquinhas pequenas, redondas, dessas que são feitas para serem desrespeitadas no trânsito. Só não consigo me lembrar qual delas ficava à direita ou à esquerda no quadro.

  • Publicada originariamente em 01/04/2001
Sobre Sergio Fleury 4567 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate