João Zanata Neto: ‘Confuso e natural’

Confuso e natural

João Zanata Neto
Da Equipe de Colaboradores

Em uma dúvida se encontram suspensas todas as maiores incertezas, pois dela decorrem sucessivas lógicas interdependentes. O contrário também é verdadeiro, pois de uma pequena certeza, aparentemente correta, muitas respostas são satisfeitas por terem um encadeamento lógico.
Para muitos, mais vale uma pequena certeza do que o dissabor de uma dúvida gigantesca. O erro é evitável quando a coerência atua antes das respostas ou afirmações. É impossível emitir afirmações incoerentes quando se tem a noção da realidade. O real é o que é e não aquilo que se diz ser. É melhor não afirmar nada quando não se entende a realidade. Isto quer dizer que a realidade oculta algumas razões e lhe desafia para uma investigação mais profunda.
É comum que a busca por respostas leve o entusiasmado ao poço das frustrações. As possibilidades são hipóteses em um labirinto. Há caminhos sem saída para toda pergunta, pois para toda resposta há outra pergunta.
É sempre mais fácil saciar o estomago do que o cérebro. O sabor para a língua é algo palatável, mas para o cérebro é uma degustação.
É preciso sempre ser impreciso nas afirmações, pois decorre tal inexatidão da própria incerteza que arrisca o seu argumento. A certeza das afirmações é a morte do pensamento. Qual é o postulado dos postulados que nunca será derrubado?
Em toda velha afirmação há uma novidade a ser postulada. Em toda hipótese há uma antítese como algoz, mas isto é natural, é o fluxo do pensamento, é a rotina da inteligência o contraditório.
Os olhos devem ser fechados para as ilusões e se abrirem para a realidade, pois desta se alimenta o pensamento como a coerência das coisas. Mas a realidade nem sempre é tangível. Aí só resta conjecturar o que deve ser. Este deve ser é um tratamento das semelhanças, ou seja, uma hipótese fundamentada naquilo que costuma ser. As ideias coerentes do passado, mas nem sempre, são ideias absurdas no presente.
Quando tudo parece confuso, complicado, não é uma sensação apenas. De alguma forma, todos os problemas são intricados. E isto é natural, pois se tudo fosse conhecido não haveria inteligência ou a evolução do pensamento. Será este o propósito de todas as intrincadas e desconhecidas leis da natureza?
A ciência dos tempos não é o estudo dos eventos. É a investigação das causas primeiras. É o trabalho mais árduo da mente a cogitação do desconhecido e invisível causador de todos os fenômenos. E isto é o que lhe torna interessante.
O desconhecido não pode ser explorado como algo temerário. Nem tão quanto algo alegórico. A ciência ultrapassa o indivíduo e reverbera no pensamento coletivo. Ela é a singela contribuição altruística à coletividade, o bem imperecível da humanidade. Ela não é restrita aos meios acadêmicos. O maior pecado destes clubes seletos é a falta de pragmatismo e um relutante ceticismo. Contudo, ressalvam-se as nobres figuras que presam pela simplicidade das proposições. A morada de tais deuses não há de ser intransponível, uma vez que o pensar não advém de estirpe. Ele é a força gratuita a todos que se valem dos seus caprichos intelectuais.

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

  • Publicado na edição impressa de 1º/09/2019
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