Beto Magnani: ‘A feijoada’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

A feijoada

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Ele levantou no meio da feijoada. Tinha acabado o primeiro prato. Pediu licença para se retirar porque tinha um parto marcado. Cesária. No sábado para os parentes poderem visitar no primeiro dia de vida. Ele foi. Dona Aurora, a mãe do obstetra e de mais três sentados à mesa, voltou da cozinha com o molho de pimenta que o filho que acabara de sair não poderia comer por causa da hemorroida.
— Finalmente! Podemos comer a pimenta sossegados. Coitado. Não ponho na mesa pra ele não passar vontade. – disse a matriarca com dó do filho mais velho.
— Pra mim não precisa, já tinha pegado na cozinha sem ele perceber. — respondeu o filho mais novo.
— Estava esperando o meu amigo Tiziu, filho da empregada da casa, que naquele dia ia me apresentar o noivo com quem iria casar no cartório. Me convidaram para sentar na mesa enquanto ele não chegava. Todos comiam em silêncio, às vezes entrecortado por um ou outro comentário sobre alguém da família que não estava presente. Eu só ouvia.
— Faz tempo que você conhece o Tiziu? — me perguntou a marido da única filha da matriarca.
— Estudamos juntos no primário.
— Agora resolveu mudar de lado. E vai casar, vê se pode? Eu fiquei espantado, nunca imaginei. Nem jeito de gay ele tem. Você não ficou surpreso? – me perguntou a mulher do obstetra.
— Não. – respondi sem me estender.
— Meu marido acha um absurdo a lei permitir o casamento homossexual. Diz que é privilegiar a exceção ao invés de assegurar o correto, a regra. – continuou a mulher do obstetra.
Eu não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti:
— A senhora não tem ninguém próximo que é gay?
— Só o Tiziu mesmo. Mas é como se fosse da família. A mãe dele trabalha ha trinta anos com a minha sogra.
— Mas da família mesmo não tem ninguém. – interrompeu a matriarca – Criei os quatro filhos sozinha com valores cristãos. Os irmãos e tios do meu marido achavam que eu não ia conseguir depois que ele morreu. São todos fazendeiros lá no Mato Grosso. Nunca mais quis saber.
— Legal. — respondi automaticamente, sem expressar meu lamento.
— Meus filhos são excelentes pais de família e minha filha uma dona de casa que qualquer marido gostaria de ter.
— Legal. – saiu de novo.
— Come mais. Fica à vontade.
Agradeci. Já estava satisfeito. O obstetra voltou. Foi rápido. Esconderam a pimenta. Ele sentou à mesa e comentou que tinha sido fácil. E que deixou a equipe fechando a barriga, saiu antes. Era uma menina. Uma criança que nasceu entre dois pratos de feijoada daquele senhor criado sob as regras da senhora que criou três coronéis e uma dona de casa. O Tiziu chegou com o namorado. Todos da mesa acenaram sem muita atenção. Pedi licença e levantei para me juntar ao casal. Fomos para a cozinha. (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 1º/09/2019
Sobre Sergio Fleury 4589 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate