Pascoalino: ‘Onde ainda não chegava o azar’

Onde ainda não chegava o azar

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Nada mais me surpreende. Depois de ver o Faustão, daquele tamanho, correndo atrás de audiência com as mesmas armas do Gugu, agora vejo o país inteiro sentado em pleno expediente para assistir a um programa improvisado que não tem nem nome. A nova atração da televisão brasileira não foi desenvolvida em laboratório por doutores em comunicação e tampouco admite intervalos comerciais: é a Rede Globo copiando a TV Senado em plena luz do dia – quem diria?
Como vivemos a primeira dentição das liberdades democráticas, o resultado é esse que você acompanha como um folhetim diário de Adelaide Carraro – tem sacanagem para todo lado. A única coisa positiva nisso tudo é que o Brasil é uma jovem democracia. Não tem dote, mas até que tem um corpo bonitinho! Repare que tudo por aqui tem menos de 100 anos, a começar pelo voto secreto. A mulher brasileira vota há menos de 70 anos; o analfabeto, há pouco mais de 10; os maiores de 16 anos, há apenas 11. Quando a democracia brasileira for di maior, o assombro será coisas do passado.
Passado lembra museu, e uma data para se guardar no Museu Nacional é o dia em que o ex-deputado João Alves justificou as duzentas e tantas vezes que ganhou na loteria como uma mãozinha de Deus. Historiadores informarão às novas gerações que João Alves não disse isso num boteco da baixada do Glicério, nem durante uma buchada de bode no agreste baiano; disse para todo o Brasil ouvir, diante das câmaras da TV, naquele prédio imponente projetado por Niemeyer para ser o Congresso Nacional. Um historiador mais rigoroso observará que antes mesmo de ser cassado em Brasília, João Alves poderia muito bem ter sido caçado por evangélicos de todo o país, já que para a Igreja o jogo é coisa do demônio e as loterias estão no caminho da perdição – a exceção são os bingos das paróquias. Assim sendo, Deus jamais poderia ter se ocupado em premiar João Alves uma vez na vida, quanto mais duzentas vezes seguidas!
A verdade é que os ser humano adora um joguinho. Isso desde quando o homem ainda carregava pente no bolso. Certos lugares eram tão distantes da civilização que se fossem enviados para lá, os bilhetes da loteria já chegariam todos corridos. Dessa forma, para exercitar o espírito de porco, o caipira praticava apostando um contra o outro. “Quer apostar que eu como todos esses salgadinhos da vitrina?” Quer apostar que eu bebo esse garrafão de vinho e ainda acabo com as latas de sardinha?”. Os desafios variavam, mas repetiam sempre a mesma fórmula: um corajoso desafiando alguém a bancar a conta da sua extravagância – o prazer importava menos do que o prejuízo alheio. Numa terra sem cartório para reconhecer firma, esse era um jeito de se provar que era macho. Quem não apostava podia deixar a barba crescer.
O Norberto, por exemplo, um dia chegou à venda do Quebra-Cabaça e se derreteu todo diante da travessa de doce de leite que o dono da venda servia em copos para o freguês comer de colher. “Quer apostar que eu como essa travessa de doce inteirinha?”. A venda quetou. O desafio era dirigido ao seu Antonio, o dono do estabelecimento, um japonês do mato que na verdade se chamava Shiroshi, nome complicado de falar. Aposta topada, o Norberto encostou o imbigo no balcão para o embate. Pediu uma colher de sopa e uma garrafa d’ água a uma japonesa que não falava nada – só obedecia. Num primeiro tempo, parecia que o Norberto ia dar um belo prejuízo ao dono da venda, mas, aos poucos, o ímpeto foi dando lugar ao fastio pecador. O Estevoni barbeiro, irmão do desafiante, parou de achar graça quando ainda faltava meia travessa. O Norberto estava ficando com uma fisionomia de afogado, meio azul e suando frio! A consistência levemente pastosa do doce enganava muito: quanto mais metia a colher, mais parecia que o Norberto deixava na travessa. Quando, enfim, viu que não dava pra ele, o desafiante não se fez de rogado: “Seu Antonio, eu vou pagar a aposta. Mas me faça um favor: guarda a travessa que amanhã eu volto para comer o resto”.
O Estevoni não sabe até hoje se o Norberto pronunciou aquelas sábias palavras porque o doce era realmente bom ou se era um jeito de valorizar até o último centavo que estava deixando na venda. Eu não estava lá – que não posso estar em toda parte ao mesmo tempo. Mas quem duvida da palavra de barbeiro?

  • Publicada originariamente em 29/04/2001
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