João Zanata Neto: ‘Mundo animal’

Mundo animal

João Zanata Neto *
Da Equipe de Colaboradores

Era uma vez um pequeno cão que vivia em um belo canil com a sua mãe, seu papai e seus três irmãozinhos. Todos eram felizes e brincavam no quintal como crianças peraltas. Depois da traquinagem ficavam com muita fome e devoravam a ração que os seus cuidadores lhes davam.
Os dias se passavam e os filhotes cresciam saudáveis e fortalecidos para o orgulho do papai e da mamãe. Os quatro filhotes eram muito unidos e dormiam juntos, embolados e debruçados na barriga da mamãe.
Sempre que o papai e a mamãe saiam para caminhar com os seus donos, eles ficavam olhando para a rua por trás das grades do quintal. A rua era outro mundo barulhento com muitos cheiros que eles não conheciam. Tudo parecia muito rápido, muitas buzinas, muitos sapatos e pernas andando para todo lado, passarinhos fugindo dos carros, papéis e sujeira sendo levados pelo vento.
Mas, havia outros cães desfilando pelas calçadas, encoleirados e acorrentados pelos cuidadores, farejando todos os cantos. Quando eles se encontravam, levantavam o rabo, farejando e calculando as ameaças um do outro. Às vezes, até se estranhavam, rosnando com o pelo eriçado.
O mundo lá fora era demasiadamente grande e estranho para os filhotes. Tudo ficava mais interessante quando o felino da casa em frente se aproximava dos filhotes. Eles latiam muito por trás das grades, pois era o felino o inimigo intuitivo. Mas, o felino, indiferente às ameaças dos pequenos, só queria um diálogo impossível. Um miau em troca de um au-au. Coisa simples e amistosa. Mas, os filhotes não davam trégua, esboçando dentes e olhos raivosos. Aquele ser que parecia um casaco de pele sobre ossos e a sua telepatia intrigante quedou inerte, lambendo as patas e ignorando os espasmos raivosos aqueles pequenos cães. Aquela aventura não durava muito, pois até a paciência felina se cansava e ia procurar lugares mais tranquilos.
O passeio dos donos não demorava muito. Mas, naquele dia, ficaram na rua por mais tempo e quando retornaram, ‘papai não estava com eles’. Os filhotes ficaram felizes com a chegada da mamãe. ‘A mamãe estava tristonha e retribuía os nossos afetos. Os nossos donos estavam sérios e até discutiam por vezes. A nossa dona parecia implorar a ele e lhe mostrava quatro dedos, mas ele, inflexível, apontava dois dedos apenas’. E foi assim que os quatros filhotes foram separados. Dois machinhos para um lado e duas femeazinhas para outro lado. Os dois com o papai e as duas com a mamãe. Não houve tempo para as despedidas. Os filhotes machinhos foram engaiolados e entregues aos novos donos do papai. A família canina estava ceifada ao meio.
A nova casa não era tão bela quanto a última e os novos donos não eram muito afáveis. ‘Papai parecia conformado e não se incomodava. Mostrava-se cada vez mais bravio com os estranhos. Meu pequeno irmão estava triste e mordia os cantos do canil. E eu, inconsolado, só olhava através da grade o mundo lá fora’.
E foi num dia qualquer desses onde os donos esquecem o portão aberto que o filhote mais velho fugiu sem deixar pistas. Ele dormia no mato, vadiava pelas ruas e comia restos de comida. Cresceu forte e feroz como um lobo alfa. Matilhava com outros cães da rua, amedrontando todos que se aproximavam. Se lhe davam comida, ele a abocanhava como uma presa e fugia para o mato. Alguns lhe chamavam Vadio, Arisco ou Maltratado. Ele sempre perambulava pela cidade em busca de alimento fácil. E assim, encontrou um gato parado em frente a uma grade. Aproximou-se como um lobo sedento e afugentou o felino que se refugiou em uma árvore próxima. Enquanto rondava a árvore, viu duas fêmeas caninas que lhe olhavam e farejavam entre as grades do quintal. Ele rosnou para elas. Elas, com as caudas abaixadas e rodopiantes, insistiam na aproximação. Uma pequena lembrança lhe fez sentir algo familiar. Cautelosamente, ele se aproximou, farejando algo que lhe parecia conhecer, mas, não entendia. Tão pouco demonstrou afeto, pois não sabia mais o que era este sentimento.
O reencontro não durou muito, pois o dono das fêmeas o afugentou com ameaças de pedradas. O maltratado até rosnou para ele, mas fugiu para escapar das pedras. Contudo, de vez em quando, lá pela tardezinha, ele aparecia por lá só para afugentar o gato e fazer gracinha para as moças do belo canil.

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate