CARTAS – Edição de 22/09/2019

Moradora pede posicionamento
da Câmara sobre João Marcelo

Eu, mulher, santa-cruzense, filha, esposa, mãe, avó, professora, dona de casa e eleitora, quero mostrar minha indignação e meu repúdio (tenho certeza que o de muitas mulheres de nossa cidade também) e sugerir, se for possível, à nossa única representante do sexo feminino da nossa Câmara Municipal, que nos representa junto a esta Casa de Leis, para que apresente uma moção de repúdio ao digníssimo vereador e advogado, senhor João Marcelo Silveira Santos, referente ao seu infeliz comentário em redes sociais, que repercutiu muito ofensivo a todas nós mulheres.
Não vou entrar no mérito da questão que levou a tal atitude indigna, um vil comentário de um representante do povo, mas querer desqualificar uma mulher por sua beleza é, no mínimo, algo muito volúvel e impensado.
Mulher exemplar, que trabalha dignamente, precisa ser necessariamente bonita, linda? Quer dizer que mulher feia (a seus olhos) não é exemplar e nem trabalha dignamente?
Além disso, a verdadeira beleza e essência da mulher (e de todo ser humano) não se encontra no seu exterior, na sua beleza física, mas sim na sua beleza interior, de alma, caráter e índole. “A beleza está nos olhos de quem vê”.
Um ato digno desse senhor, seria se redimir perante a essa casa e a todas mulheres santa-cruzenses.
— Adriane Stella Pedrotti Mendes e Mendes (Santa Cruz do Rio Pardo-SP)

Candidaturas laranjas: até quando?
Conforme se extrai do artigo 10, caput, da Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições), nas eleições proporcionais (cargos eletivos de Deputados e Vereadores), “Cada partido ou coligação poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, a Câmara Legislativa, as assembleias legislativas e as câmaras municipais no total de até 150% (cento e cinquenta por cento) do número de lugares a preencher”. O parágrafo 3º do mesmo dispositivo estabelece que no mínimo 30% (trinta por cento) dos candidatos sejam do sexo feminino.
O escopo deste regramento de cota de participação de mulheres nas eleições consiste na ampliação da atuação feminina no cenário político brasileiro, uma vez que, como sabemos é muito pequena a participação. Porém, as primeiras eleições foram palco de candidatas “fake”, ou seja, candidaturas que serviram única e exclusivamente para cumprir a exigência legal.
Embora esta regra tenha sido introduzida na Lei das Eleições em setembro de 2009, portanto, com aplicação para as eleições de 2010 (Deputados Estaduais e Federais), apenas a partir das eleições de 2016 (vereadores) o Poder Judiciário foi provocado a se manifestar sobre o tema.
No último dia 17 de setembro, o Plenário do Tribunal Superior Eleitoral, enfrentou a questão pela primeira vez e por quatro votos a três, decidiu que a utilização de candidatas “laranjas” resulta na cassação de toda a coligação que se uniu para a disputa ao cargo de vereador de Valença do Piauí (PI) na eleição municipal de 2016.
O voto vencedor, do ministro Jorge Mussi, pautou-se no entendimento de que “todo o conjunto de candidatos acabou sendo beneficiado” com a utilização das “candidatas laranjas”, uma vez que sem elas não atingiriam o mínimo. Com isso, todos os candidatos eleitos pela coligação tiveram seu mandato cassado, conforme se extrai do excerto do voto: “A fraude da cota de gênero implica a cassação de todos os candidatos registrados pelas duas coligações proporcionais. A gravidade dos fatos é incontroversa”.
Divergiu, parcialmente, do entendimento do voto vencedor o Ministro Fachin, o qual foi acompanhado dos Ministros Sérgio Banhos e Og Fernandes, que votaram pela punição apenas dos envolvidos na fraude.
Ouso divergir dos Eminentes Ministros que formaram a maioria, uma vez que, além de alcançarem com a decisão candidatos eleitos que sequer participaram da fraude, causando-lhes prejuízo moral e eleitoral sem que tivessem anuído, minimamente, com o conluio, estabelecendo-se verdadeira responsabilidade objetiva (ou sem culpa). Ademais, não podemos olvidar que além da responsabilidade sem causa daqueles que não participaram da fraude, tem a legitimidade dos votos dirigidos aos eleitos, o que ofenderia a liberdade do voto e a democracia.
Todavia, entendo que punir apenas os efetivos envolvidos na prática promiscua é muito singelo. Há que ser penalizada, severamente, a agremiação partidária, através da retenção do Fundo Partidário e Eleitoral, especialmente pelo fato dos Partidos usufruírem do percentual mínimo de 30% destinados para financiar as campanhas de candidatas no período eleitoral.
Não se pode olvidar que o partido do presidente Jair Bolsonaro foi alvo de acusações de candidaturas laranjas, fatos esses com possível participação do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, nas últimas eleições para deputados (2018) do Estado do Rio de Janeiro, mantida a posição originária do TSE todos os deputados estaduais e federais fluminenses eleitos pela coligação que estava o PSL terão seus mandatos cassados. Será que os Ministros terão a mesma mão pesada que teve com os vereadores de Valença do Piauí (PI)?.
— Marcelo Aith (São Paulo-SP)

A tristeza no Anhangabaú
Ainda me lembro de que há anos, quando passava uns dias em Porto Alegre, alguns gaúchos amigos me perguntavam com frequência o que era esse tal de “Anhangabaú” de que tanto ouviam falar nos noticiários, como referência ao centro de São Paulo.
Tentei explicar de forma simplista que era um nome indígena dado a um vale que existia no centro da capital paulistana. Na realidade, “Anhangabaú” é palavra em tupi-guarani que significa “rios dos malefícios do diabo”. Os indígenas acreditavam que as águas do riacho Anhangabaú provocavam doenças físicas e espirituais.
Em quase todas as cidades há folclore, elementos que ajudam a contar a história do lugar, e o Anhangabaú não foge à regra. E foi caminhando numa tarde de segunda-feira que me deparei com uma multidão, por volta de mil pessoas, muitas deitadas no chão, outras chorando e contando histórias aos que estavam ao seu lado numa fila interminável. Muito sutilmente, procurei me aproximar de um idoso na fila, que mais parecia um morador de rua, pois estava deitado no velho e famoso “papelão de chão”, utilizado pelos moradores de rua na capital para diminuir o impacto do frio que existe entre o chão e seu corpo.
Perguntei-lhe do que se tratava a tal fila enorme, e ele, com olhar cansado, até um pouco marejado, de maneira submissa e educada me disse que era desempregado há dois anos e que aquela multidão estava ali para tentar conseguir um emprego. Era possível ver, na sua timidez social e na dos que ali estavam, o desalento, o desespero, a tristeza. Ele disse também, com um olhar de esperança, que acreditava naquele “mutirão do emprego”. Contou-me, com uma voz trêmula, que passou a noite “para pegar lugar”. Balançando minha cabeça afirmativamente, desejei-lhe boa sorte.
À medida que caminhava, pensava: Que Brasil estamos vivendo? Temos um crescimento pífio, contamos com 13 milhões de desempregados, segundo o IPEA, a escalada da desigualdade social disparou, empresários não investem, na expectativa de mudanças, o dólar sobe numa velocidade sem controle, a economia não anda e, mais, no vácuo da falta de propostas, os noticiários se enchem, dando publicidade ao rigor das Operações da Lava Jato, às prisões diárias e outras investidas policiais que parecem ser uma das pautas do governo, o que me parece justo e razoável, pois votei no presidente Bolsonaro e fui às ruas para protestar contra a corrupção, mas, entre os desfiles militares, as palavras ríspidas aos jornalistas, os conflitos internacionais em que o presidente acabou se envolvendo na defesa da soberania, nos conflitos entre poderes, entendo que o povo brasileiro perdeu o consenso político e estamos mergulhados na escuridão.
O Ministro Dias Toffoli, a quem considero uma pessoa de bom senso, em entrevista fez menção exatamente a essa questão do apaziguamento entre os poderes, do diálogo, da preservação da democracia e, acima de tudo, do Estado Democrático de Direito. Temos que partir para a geração de emprego e menos agressividade, temos que viabilizar o diálogo com todos os matizes ideológicos, e não apenas desenrolar um rol de acusações ao Congresso, vez que vivemos uma democracia representativa, que, com todas as imperfeições da democracia, ainda é melhor do que o Estado de Exceção.
Pensei no Anhangabaú, pensei nos indígenas que deram nome àquele lugar e com um olhar triste refleti: “talvez alguma tribo um dia tenha previsto que tanta tristeza habitaria ali, na procura de um sonho, de um emprego”, enfim, que se sequem as lágrimas do vale e que a esperança de um Brasil melhor faça valer a pena passar uma noite de espera no velho Anhangabaú….
— Fernando Rizzolo (São Paulo-SP)

A tecnologia como agente transformador
O termo blended learning, ou ensino híbrido, tem sido pautado como a evolução do modo de ensinar. A expressão, que significa disponibilizar ao aluno parte das aulas de maneira presencial e outra de modo remoto, explorando o uso de aplicativos e recursos online, é também uma possibilidade de usar a força da internet para escalar o aprendizado personalizado. Enquanto no ensino presencial o professor está pessoalmente na sala de aula, expondo o conteúdo e interagindo com os alunos, momento essencial para o processo de aprendizado mas nem sempre viável àqueles alunos que não tem tempo para estar lá, no ensino híbrido é possível usar o tempo de maneira mais produtiva, transferindo parte da dedicação a internet. Assim, professor e aluno podem estar conectados, ensinando e aprendendo através de plataforma online, sem precisar sair de onde estão.
Embora as promessas que rondam essa nova forma de lecionar sejam bastante positivas, por facilitar a participação de mais alunos nas aulas, é preciso ter bem claro que o professor segue insubstituível. Cursos 100% online, onde não há a interação presencial com um professor pelo menos durante parte da carga horária, tendem a ter um alto nível de desistência, pois não há engajamento e o aluno tem mais dificuldade em ver seu progresso. Porém, a fórmula que combina parte do ensino presencial, em sala de aula com um professor e outros alunos, e parte do processo de forma remota, seja através de exercícios práticos ou até de aulas online, é hoje o formato ideal para que alunos com restrições de tempo e de dedicação possam participar das aulas, aprender e concluir seus cursos. É um modelo de ensino, portanto, que veio para ficar.
Quando se trata de crianças, porém, há algumas diferenças. Para as crianças da primeira infância, que procuram na imagem do professor alguém em quem possam confiar e se apoiar ao longo do período escolar, a interação presencial é ainda mais necessária e imprescindível para o desenvolvimento de suas habilidades. Neste caso, a sugestão é inserir a tecnologia em sala de aula por meio do uso de recursos como lousa interativa, aplicativos com jogos e atividades complementares e aulas no computador, orientadas sempre por um professor. O que motiva o aluno do público infantil a querer aprender é a curiosidade e a ludicidade das aulas.
Se o professor resolve explorar um tema, como animais exóticos, por exemplo, para ensinar o vocabulário e algumas estruturas gramaticais que podem ser usadas para descrevê-los, é possível trazer para a sala de aula um vídeo sobre curiosidades, mostrando cada um em seu habitat e abrindo uma excelente oportunidade para debate. É usar a tecnologia como um aliado para que os alunos entrem em contato com pessoas de outras nacionalidades e façam entrevistas ao vivo para o aprendizado de perguntas e respostas do dia a dia. A gamificação, outra ótima opção, também pode ser usada como um poderoso recurso para o aluno estudar em casa, sem depender de um adulto, possibilitando complementar o aprendizado de sala de aula e se divertir ao mesmo tempo.
O uso de tecnologia em sala de aula facilitou muito o aguçamento da curiosidade e a exposição do aluno a conteúdos relevantes, assim como a disponibilização de aplicativos para todos os níveis; portanto, deve ser usada como aliada no processo educacional, uma ferramenta a mais que o professor tem a disposição para aumentar a motivação e o engajamento dos alunos. Nesse cenário, cabe ao educador se atualizar, uma vez que o perfil da criança e o jovem do século XXI é muito diferente dos de outrora: são menos pacientes por serem expostos a um excesso de informação e estímulos, o que dificulta a atenção e a motivação. Por isso, é essencial que o educador esteja a par das tecnologias disponíveis e traga para a sala de aula os recursos que melhor se adequam ao perfil e a faixa etária de seus alunos, de forma a criar um equilíbrio entre o uso da tecnologia e a interação com o professor, contribuindo para o aprendizado mais eficiente de seus alunos.
— Sylvia de Moraes Barros (São Paulo-SP)


‘Fotos do Leitor’

Joaquim Pio da Silva

Por Edilson Arcoleze:
Joaquim, filho da minha tia-avó Alice Ramos de Castro e de José Pio da Silva, nasceu aos 5 de julho de 1923 em Santa Cruz do Rio Pardo. Se formou professor e foi lecionar no distrito de Formiga, município de Regente Feijó-SP. Liderou o movimento pela emancipação político-administrativa do distrito e contou com a ajuda do deputado santa-cruzense Leônidas Camarinha. Formiga foi emancipada em 1º de novembro de 1953, recebendo o nome de Taciba. Joaquim foi indicado o seu primeiro prefeito, cumprindo o mandato de 1954 a 1958. Posteriormente, em 1960, transferiu-se para Presidente Prudente onde se elegeu vereador da 5ª Legislatura, de 1964 a 1969, sendo que de 1º de janeiro de 1967 a 1º de janeiro de 1968 ocupou o cargo de presidente da Câmara.
Como professor, lecionou nos três níveis de ensino até aposentar-se em 1983. Ocupou alguns cargos adminstrativos na Secretaria de Estado da Educação. Ao aposentar-se, passou a dedicar-se à agropecuária.
Foi casado com Maria Terezinha Motta da Silva, e teve três filhos: Eliane, Kátia e Cássio.
Joaquim Pio da Silva faleceu aos 23 de setembro de 2010 e está sepultado no Cemitério Municipal São João Batista em Presidente Prudente-SP.

Sobre Sergio Fleury 5353 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate