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Publicado em: 03 de outubro de 2019 às 13:14 Atualizado em: 30 de março de 2021 às 07:17
HISTÓRIAS DO MAGÚ
O iceberg
Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores
O dia entrava pelas frestas da janela. Eu ainda não tinha conseguido dormir. Deitado, ouvia os sons da rua como se fosse dentro do quarto. Um carro parou em frente. Pelas duas batidas de porta quase sincronizadas, duas pessoas desembarcaram ao mesmo tempo. O carro saiu. Nenhuma das duas era o motorista. Ficaram ali.
— A última vez que fui lá foi para autorizar a retirada dos ossos do meu avô. Ele teve que ir pra uma caixa menor. Pra liberar espaço.
— Sim.
— A penúltima foi no enterro dele.
— Sim.
— A ponta que está acima do nível da água é só um pedaço do iceberg. A maior parte fica submersa.
— Sim.
— O que os idiotas chamam de radical, de “xiita”, é a só a ponta do iceberg de tudo que o mundo vem desenvolvendo há séculos. Nos diálogos, no conhecimento, nas práticas. Absurdo o sujeito achar que do nada inventamos regras aleatórias.
— Sim.
— Eles estão a fim de derreter o Iceberg. Literalmente.
— Sim.
— Estão fazendo isso com tudo. Anos de trabalho! Anos da vida de muita gente séria sendo derretidos por toscos. Não é possível que exista alguém que não esteja enxergando isso. As crianças enxergam!
— Sim.
— Está obvio que eles não têm noção!
— Sim.
— Oferecem insegurança ao invés de segurança!
— Sim.
— Só sabem falar provocando os outros! E só absurdos!
— Sim.
— Até tudo isso voltar aos trilhos novamente...
— Sim.
— Anos. Muitos giros do planeta. Mas a gente retoma. Claro que retoma!
— Sim.
— “Que o mundo gira é fato. Mas o ‘como’ ele gira sempre dependerá dos seres que o habita”.
— Sim.
— Foi minha avó que disse isso. No dia do enterro do meu avô.
— Sim.
— O que move os seres que habitam o mundo? Tudo poderia ser mais simples.
— Sim.
— Você me entende?
— Sim.
— Temos que buscar o entendimento claro. Lúcido. Simples. “Simples para que as crianças entendam”.
— Sim.
— Renato Russo.
— Sim.
— Mas também poderia se minha avó.
— Sim.
Um carro parou de novo. Uma batida de porta. Ou o motorista desceu, ou os dois embarcaram no banco de trás. Ou um só embarcou, claro. O carro saiu. Não foi o motorista que desceu. Passos se afastando. Um só embarcou e o outro foi embora a pé. Por que não se despediram? Quem será que ficou? Seria o que só falava sim ou o inconformado que liberou a retirada dos ossos do avô? Jamais saberei. Quase levantei para espiar, mas resisti. Finalmente dormi. Bem. Como se não houvesse amanhã. (Magú)