Geraldo Machado: ‘Vamos tomar um vinho’

Vamos tomar um vinho

Geraldo Machado *

“Há também, lado a lado,
o homem e o vinho.
Há de permeio o
homem vinagre”.
Cora Coralina em
(Vintém de Cobre)

Eu gosto muito de vinho, tinto e seco. Mas, por tradição rural e mineira, não sou acostumado com ele e, assim, não sinto faltar, nem mesmo aos domingos. Não tenho essa corda toda, frustrada por economia. Os meus amigos me presenteiam, mas só abro as garrafas nos grandes dias. No Brasil não é como na Europa ou no sul nosso das adegas e da hospitalidade que diz: “Sacramento — tu não aceitas um vinho da Colônia?” “Não quer um aperitivo de pinga com bergamota?” Isso em gesto largo do coração e do abraço, eu ouvi — e tenho saudades manhosas — em Concórdia, cidade do oeste de Santa Catarina.
Por quatro vezes fui lá, nas “Feiras anuais dos Criadores de Suínos”. Duas vezes com o Fernando Santos (já falecido). Duas vezes, com o Iramis Trevizan (que, nestes dias, veio me convidar para a festa dos seus 85 anos). Lá sim, tomamos o vinho bom, da Colônia, servido à vontade, em jarras de cristal. Sacramento!
O nosso caboclo bebia (hoje não mais… caboclos) pinga. Na zona rural, por aqui em roda, não existia adega — havia alambiques de cobre. Sempre numa tira d’água (nível), com roda tocada a água dum ribeirão ou duma represa artificial — açude. Caboclo bêbado era coisa dura de aguentar. Com pinga na cabeça, os patifes, que não eram de nada, viravam “valentes” e cômicos, ou melhor, engraçados. Quanto, então, era convidado para uma festa, de véspera amolava o facão na pedra do rebolo. A garrucha, de um ou dois canos, de carregar pra boca, pousava de molho no cocho de mosto de garapa com fubá. Neste meio líquido e ácido, ela se desenferrujava. Isto feito, passava a gordura de galinha velha (gorda por natureza). Tudo feito e, para continuar o ritual, punha uma carga de chumbo no cano, socava com uma vareta, a bucha. Aí dava um tiro para cima, sem alvo, (uma salva).
O caboclo de barba só no queixo (Tio Quincas os chamava de “Barba” de cará…O Cará) — bom para uma sopa — tinha uma meia dúzia de raízes dependuradas, à guisa de barba, pelos. A essa liturgia demorada e vadia, o caipira chamava de “escorvar”.
Aviso o leitor sem experiência no uso de armas, que escorva é a mesma coisa que espoleta, que é um dispositivo que faz explodir a carga da arma. Pronto. Estava o nosso “valente”, “macho”, preparado para a festa, para o mutirão. Não levava a mulher. “Briga é pra homem.”
Leitor, meu caro, caríssimo: que tem você a ver com isso? O negócio não é vinho? Adivinhe. É para encher linguiça, deixar você aflito e eu fritando linguiça (Sadia) no caso, no gosto pelas brigas e pelas sandices. O título para esta “matéria” seria “Rubayat”. O que é isto?
Grego? Não, é persa. O persa era filho de Omar Ibnibra Him el Khayyan. Nasceu na Pérsia, em 1040 da Era Cristã. Era fabricante de tendas.
Tenho o livro — Rubayat (Sítio, 28/02/1946) “…no vinho encontro um meio de fugir à realidade trágica da vida”, diz no Prefácio, Otávio Tarquínio de Sousa. (…baixinho, a argila segredou ao oleiro que a trabalhava: não esqueça que já fui como tu…não me maltrates…”
Omar Khayyam era incrédulo, pessimista e bêbado. Fala toda hora em morte (morreu esse barro, com 85 anos). Mas fala também de amor, e do Senhor, e no Destino, e no Corão. Rima muito com sabedoria, “e no pescoço da bem amada que o braço enlaçava.” Ele diz: “mas uma voz me disse: o céu e o inferno estão em ti mesmo.” De quem ele, o Omar, ouviu isso? Dum anjo ou de uma sombra?
Ponho um final, um ponto nesta bebedeira, com um pouco de latim, que diz: “a verdade só é crível após vários copos de vinho”. Verdade, dizia o meu amigo Manuel Domingues Pataias: “Em Portugal — na aldeia — a gente levantava bem cedo, bebia um duplo vinho, comia umas sardinhas assadas na brasa e ia trabalhar cantando…”
Meu leitor, que trabalho: Levante cedo, mas não cante alto a Giovenezza para não acordar as crianças — joviais e dorminhocas. 

* Publicado originariamente em 2012

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Proprietário e Editor do Jornal Debate