Geraldo Machado: As broas da vovó Veridiana

As broas da vovó Veridiana

Geraldo Machado *

“Grande nau,
grande tormenta.”

Não vivo atormentado mas, me poupo, me previno e valho por dez. São dez anos de vida que me deu o Dr. Pimentel, médico que cuida do meu coração, mesmo morando longe dos seus olhos — mora em Marília, “pastora bela”. A primeira consulta que fiz, isso há mais de trinta anos (de visitas anuais e amizade fortalecida), ele brincava: “Vou levá-lo aos noventa.”
Eu ficava transplantado, me sentia novo em folha. O tempo passou para mim e para a minha neta Carolina, que, por sinal, promete um bisneto(a), para este ano. Eu tenho pressa, o que não vejo no marido que, deslumbrado, não aposta no sexo do filho/filha. Será o Juliano, meu “neto” — adotivo ou novo apóstata? O outro, que foi imperador de Roma, se chamava Julião. Tinha o cognome de Apóstata, porque deixou de ser cristão. Não podia fazer isso: era sobrinho de Constantino, o César que oficializou a religião Católica Romana.
O meu Juliano, de Dracena, está rindo atoa. Ele é professor de História e, ainda, do Partido Verde — é ecologista e, eu, assim sou. Não tenho o pragmatismo político, só peço que não leve o meu filho, Murilo — seu sogro — à apostasia. O Murilo e a minha nora, Sônia, são agrônomos. Dedicados à carreira, ensinam alunos numa Escola Prática de Agricultura lá em Dracena.
A família inteira — a minha — tem tudo para gostar do verde; “verde nosso que queremos verde”. O verde de Garcia Lorca, das ramas, das matas, da lavoura — insisto nisso, repito isto. Volto à Marília e ao consultório do Dr. Carlos Pimentel. Voltei lá, quando fiz 90 anos, já com prazo vencido.
Disse a ele: “Doutor, o senhor houve por bem me ajudar alcançar esta idade, não provecta, mas aproveitada. Mas eu aproveitaria mais se o senhor me desse uma “prorrogação” nos pênaltis. Mas ressalvo, não no “morte súbita”, como faz o juiz de futebol no apito.” Ele riu e eu saí de lá rejubilante e rejuvenescido.
São os 10 anos, meu jovem leitor, com inflação e tudo, de que me valho para falar das broas de minha avó que, velha, viveria mais se a medicina e os remédios não fossem uma quimera naquele sertão tão verde, em tempo tão afastado.
Fui ao Michaelis, dicionário pequeno, editado para velhos esquecidos, que não têm mais muque para colocar o Aurélio naquele cavalete que serve para manter aberta a Bíblia à altura do devoto. Vi, na página 25: BROA (vocábulo pré-romano) sf. Pão arredondado, feito com fubá de milho.
No pré-romano, no mundo velho, não havia milho para fubá, sequer para a galinha choca; a quirera para os mal empenados pintainhos. O milho chegou à Europa após as grandes naus voltarem ao Mediterrâneo, salvas das grandes tormentas.
Minha avó Veridiana, que eu, uma vez a chamei de “Cornélia de Atibaia”, já fazia e enfornava broas arredondadas, para o lugar do pão de farinha de trigo, este, sim, da Europa (França e Bahia, como dizia o Cego Aderaldo, em Caruaru).
Sem o milho que meu avô colhia nas coivaras; sem o fubá que ele moía no moinho do Tio Tonico, como completar o almoço e servir a ceia à noitinha, ao marido cansado do machado e da foice?
Mais tarde, depois dos filhos, os netos “agarrados” na sua saia: “Vó, me dá uma broa”; “vó, me dá um biscoito” (de polvilho de mandioca).
Leitor, meu amigo, meus bisnetos vão me pegar pelas mãos, cansadas de tanto teclar, e dizer: “Vovô, quando for à Marília, não esqueça (o senhor anda tão esquecido…) não vai deixar o Dr. Pimentel sem as broas – o senhor nunca embromou alguém …”

* In memoriam

  • Publicado originariamente em 2012
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