João Zanata Neto: ‘Foi-se o tempo’

Foi-se o tempo

João Zanata Neto *
Da Equipe de Colaboradores

Doravante, todas as promessas serão ignoradas, todas as modéstias serão falsas e todas as proezas serão desprezadas, pois a humanidade capitulou a inocência de todas as intenções. Foi-se o tempo do respeito, o tempo da autoridade e o tempo da submissão, pois a hipocrisia foi desnudada pela coerência de todos os esclarecidos.
O mundo fatigou-se das palavras, da insensatez dos discursos e da frouxidão das frases frívolas, pois o século das luzes desmitificou as temeridades de todas as lendas. Foi-se o tempo das ideologias, das revoluções e das alienações, pois os verdadeiros propósitos foram ignorados pelos profetas de ocasião.
A humanidade assimilou a indiferença como o remédio contra as febres sociais. As chagas da civilização não carreiam convalescentes. Os velhos venenos se transformaram em agentes imunizadores.
No mundo, não há mais espaço para os extremistas. Todas as ideias estão relativizadas. A humanidade pluralista pulveriza todas as propostas, furtando-lhes a força impactante. Nem mesmo a velha utopia se sai ilesa da desestruturação das transformações sociais.
O poder se estabelece, hoje, apenas pela conveniência da ocasião, pois a liberdade é dissociadora. Foi-se o tempo da alienação, da conformidade e do conservadorismo. A velha dominação não se fortalece ante a indiferença dos súditos pós-modernos. A incerteza e o descrédito das lideranças advêm da história dos governos. A cronicidade da corrupção é uma mácula indelével que fulminou as últimas esperanças do bem-comum.
Hoje, a civilização é indiferente ao poder e tal desprezo provém de um pessimismo dissimulado. A própria civilização está desacreditada, soando como uma idealização do impossível. Ela nunca foi algo de fácil manejo, porém, agora, ela é intratável e se dissolve em mil aspectos pela sua dissidência interna. Uma revolução silenciosa assola todas as esperanças de um entendimento. Um embate frio de ideias traz à tona as borbulhas da insatisfação.
Foi-se o tempo em que se acreditava em uma democracia quando se percebeu que tudo era indireto. Foi-se o tempo do regalo, dos amigos da corte e das benesses do poder. Foi-se o tempo dos ditadores e do absolutismo massacrado pelo liberalismo.
Mas o que conquistou tal liberdade em face da quase democracia? Não é verdade que a democracia aniquilou o liberalismo com pequenas concessões? A democracia não foi sempre indireta ou um eufemismo para o poder dominante? Quando e aonde o poder deu voz à multidão? Quantas vezes ela pensou estar sendo ouvida?

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

Sobre Sergio Fleury 4727 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate