Pascoalino: ‘Paulistana’

Paulistana

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

Quando o carro empacou na altura de Barueri, eu resolvi falar alguma coisa, qualquer coisa, só para espreguiçar as idéias. “São Paulo… Faz um ano e um mês que eu não venho a São Paulo”. Meus companheiros de viagem se mexeram no banco procurando uma posição mais confortável para ver aquele tempo irremediavelmente perdido passando na janela. Nenhum comentário. Pareciam surdos de inveja. Reli a frase do pára-choque à nossa frente e algo me disse que era melhor continuar falando comigo mesmo, em silêncio. Comecei lembrando um tempo em que as pessoas apreciavam ir a São Paulo.
Como se sabe, o homem é um animal que nasceu para ir; a qualquer lugar, de preferência ir em frente. Antigamente, além de ir, o homem tinha o costume de espalhar a notícia. Nas páginas de “O Correio do Sertão” encontramos inúmeros registros de viagens de uns nossos avós rodados em lombo de burro e trem de ferro. A maioria ia ali mesmo e já voltava contando maravilhas, desdenhando da poeira e do carvãozinho da maria-fumaça. Alguns chegavam a São Paulo e poucos podiam dizer que conheciam o Rio de Janeiro. Esses poucos traziam da então capital federal uma bandeja com uma paisagem gravada em marchetaria – quase sempre o Pão de Açúcar visto da praia de Botafogo – para exibir como troféu em cima da cristaleira.
Com o êxodo rural essa história começou a ser contada diferente. Mas por um bom tempo as grandes cidades ainda seduziram o homem do interior. Comigo era assim. O sono ia rareando nos dias que antecediam a viagem, sem falar na noite inteira do longo e lento caminho de ida pela estrada de ferro. Cochilava-se entre um bilheteiro que anunciava a próxima estação e o vendedor de guloseimas. Dava para ouvir do outro vagão o carrinho de bebidas onde brindavam as garrafas de refrigerantes funados e as de cervejas quase geladas. Sanduíches, cocadas e revistas também passeavam ruidosas entre a locomotiva e o carro leito num ir e vir de endoidecer as lombrigas. Pela janela, as cidades da linha passavam em silêncio, chocando a tristeza daquelas ruas mal iluminadas e desertas. As casas repetidas das vilas dormiam fechadas como túmulos enluarados e humildes.
À capital se chegava primeiro pelo cheiro do que o paulistano tinha comido e bebido na véspera. Depois víamos os campinhos de várzeas onde amanheciam brincando descalços os futuros craques de uma pátria de chuteiras. Um pouco antes da Estação da Luz e da Júlio Prestes, o trem passava lentamente cortando ao meio a sombra das chaminés das Indústrias Matarazzo. Eu respirava fundo enchendo os pulmões para sentir bem o cheiro da cidade, uma mistura de esgotos, chaminés e escapamentos. Aquilo era o distante, o anunciado e desejado progresso, e me parecia bom.
Da estação para a fila do ônibus circular que saía em fila nos mostrando São Paulo a partir da decadente Avenida Cásper Líbero. Quanta puta na rua! Quanta loja de disco! O vendedor de Chicabon das crônicas de Nelson Rodrigues vestia avental branco e empurrava um carrinho amarelo onde também levava pirulitos de chocolate, cata-ventos e ioiôs redundantes. A cidade e suas feiras livres formigando. A cidade e seus grandes magazines onde havia de tudo, principalmente tudo aquilo que não podíamos comprar. A encomenda de minha mãe era um par de meias elásticas e uva-passa sem caroço para rechear bombons. A cidade e suas praças bem cuidadas, seus prédios encardidos. A cidade e a muda garoa para além de todas as portas fechadas e de todas as luzes acesas. A cidade aberta como uma pizza e suas seis mil pizzarias cheirando bem.
Mas para que a minha crônica não acabe em pizza, voltemos ao Cebolão, onde o carro dessa viagem recente se arrastava como quem soluça. Pedi para ligarem o rádio com a desculpa de saber do trânsito nas marginais e a previsão do tempo para aquela tarde. Na verdade eu queria espantar lembranças inoportunas. Pensar na pizza do Michelucho parado sobre o Tietê, tentando entrar ou sair de São Paulo, é um sacrilégio.

  • Publicado originalmente em 1º/07/2001
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