Um super-herói de verdade

Marcos Ramos, na pele do Capitão América, junto com o grupo dos "Doutores Sorrisos"

Gerente da Sabesp se transforma em super-heróis
para se apresentar e divertir crianças e idosos

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Você já pensou em algum dia se transformar num super-herói? Pois Marcos Roberto Ramos Pereira, 48, conseguiu realizar este sonho, mesmo já adulto. Dependendo do dia, ele é Batman, Super-Homem, Capitão América ou Shazam. Marcos não faz parte de nenhuma Liga da Justiça (ao menos por enquanto) e também não ajuda a combater o crime como super-herói. Na verdade, ele diverte crianças e adultos assumindo o papel dos personagens das histórias em quadrinhos e do cinema.
Mas pouca gente sabe como ele começou a se vestir de super-herói. Na verdade, a história toda começou com um trauma da infância. O pai dele era muito violento e agredia a mãe e os filhos, além de quebrar as coisas da casa. Marcos passou sua infância neste ambiente tumultuado, na cidade de Porecatu, no Paraná.

Como Superman, Marcos Ramos visita criança em hospital de Santa Cruz
“Superman” alegra crianças de Santa Cruz do Rio Pardo

“Quando meu pai partia para as agressões, ele deixava a casa e só voltava alguns dias depois. Então, ele sempre trazia um presente, como gibi de Superman, bonequinhos ou posters. E eu usava isto como escudo, mesmo que psicologicamente, contra aquela situação”, disse.
E deu certo. “Eu comecei a perceber que poderia me inspirar no Superman para aguentar toda aquela violência. Eu via os desenhos dos gibis, pois ainda nem sabia ler. Então, passei a desenhar o personagem. Aliás, eu fazia o símbolo do Superman e colava na minha camisa com durex, cobrindo depois com o guarda-pó antes de ir para a escola”, contou. “Eu me sentia o super-herói em pessoa e aquilo me ajudou muito”, lembra.
Quando Marcos tinha 10 anos, o pai sumiu. A responsabilidade aumentou e ele começou a trabalhar para ajudar a família, sempre sob o espírito de super-herói, especialmente o Superman. O menino cresceu trabalhando e ingressou na Sabesp de São Paulo. Foi funcionário da Sabesp em Adamantina e em Flórida Paulista até que chegou a Santa Cruz do Rio Pardo para ser o gerente da unidade. “Esta cidade foi um presente para mim”, diz.
Foi, então, que ele teve a ideia de incorporar de vez todos os lendários personagens invencíveis dos gibis, da televisão e do cinema. Hoje, ele se apresenta em escolas, hospitais ou asilos. No mês passado, Marcos encantou o público no desfile de Sete de Setembro, descendo a avenida Tiradentes como Capitão América.
Mas e o pai? Só teve notícias dele 20 anos depois. Morreu em 2008, de câncer, e Marcos fez questão de visitá-lo em seus últimos dias, no Nordeste do Brasil.



“LIGA DO BEM” — Marcos Ramos já se apresentou em escolas e hospitais de várias cidades, sempre como super-herói

Sonho é formar uma ‘Liga de Heróis’

Visita ao asilo de Santa Cruz como Batman

Marcos Ramos é pai de duas meninas, uma de 22 anos e outra, de 16. Elas cresceram se acostumando com o pai “super-herói”. Segundo Marcos, quando chegava o “Dia dos Pais”, elas escreviam cartas com desenhos. “Tinha sempre uma capa vermelha desenhada, lembrando o Superman”, conta.
Com o apoio da família, Marcos resolveu incorporar de vez os super-heróis para ajudar pessoas. Começou a comprar os uniformes, geralmente no exterior — alguns são os originais da Marvel — e passou a visitar crianças em hospitais e idosos em asilos. Surgiram, então, em pele e osso, o Superman, Batman, Capitão América, Shazan e, em breve, o Homem-Aranha, cujo uniforme já chegou. Ele também sonha com a armadura do Homem de Ferro, mas ainda está longe de seu poder aquisitivo. Custa cerca de R$ 10 mil.
“Eu chamo de missão do bem. Já me emocionei com pacientes graves, que a gente percebe que provavelmente não vão sair dali”, contou Marcos, sobre visitas a hospitais. Quando isto acontece, ele sempre dá um jeito de ir num cantinho, longe das pessoas, para enxugar as lágrimas. “É que super-herói não pode chorar”, explicou.
As visitas aumentaram quando Marcos conheceu a turma do “Doutor Sorriso”, que alegra os pacientes na Santa Casa todos os sábados. E este gesto não acontece apenas em Santa Cruz, mas em outras cidades. Em Adamantina, o Batman aparecendo para uma criança em tratamento de câncer viralizou nas redes sociais. Marcos já pediu até autorização para se apresentar no Hospital do Câncer de Jaú, mas ainda não conseguiu.
As crianças costumam apertar o “super-herói”, gostam de tirar fotos e ficam emocionadas. No desfile de Sete de Setembro deste ano, por exemplo, Marcos foi assediado por crianças e adultos antes de entrar na avenida. Mas um fato marcante aconteceu com uma criança autista numa escola, isolada num dos cantos com a mãe. “Ela veio em minha direção, o que é difícil acontecer com uma criança autista. Até pediu para tirar uma fotografia e deixou eu abraçá-la. Quando soube que era autista, eu me emocionei”, contou.
Mas não são apenas as crianças o alvo de Marcos Ramos. Ele já visitou asilos, inclusive o de Santa Cruz do Rio Pardo. “Também é muito legal. Teve um idoso que ficou bravo porque eu estava de Batman e ele lembrou que havia esquecido o Robin”, contou.
Marcos tem esperanças de que outras pessoas participem do projeto dos super-heróis, aumentando o número de personagens nas visitas. “Penso que é possível formar uma Liga, o que seria maravilhoso”, afirmou.

  • Publicado no suplemento DEBATINHO de 13/10/2019
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