Artigo: ‘Coitadinha é a vovózinha’

Coitadinha é a vovózinha

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

Ser idoso é algo em transformação no Brasil. O número de pessoas com mais de 60 anos cresce cada vez mais. As preocupações com a saúde mudaram, os relacionamentos com os familiares já não são mais os mesmos de outrora, as regras da aposentadoria vão mudar, etc. Tudo diferente. Então, os idosos devem aproveitar e também mudarem algo em si e em como as outras pessoas os enxergam.
Ainda hoje é comum todo mundo ter dó dos idosos. Muitas vezes não é nem dó no sentido de ter pena ou lamentação por alguma condição precária daquele senhor ou senhora. Mas é uma “dózinha” quase que carinhosa, acompanhada de muitas palavras no diminutivo (vózinha, bonitinha, gracinha, etc) quando o assunto é a vida daquele idoso. Como se o envelhecimento fosse transformar aquela pessoa com tanta história e dignidade em um ser passível de compaixão.
Eu não sei vocês (jovens, adultos e idosos), mas quando eu passar dos 60 anos, com tantas marcas boas e ruins na minha vida, com tantas conquistas e lutas, a última coisa que eu vou querer é que as pessoas tenham dó de mim ou me tratem como criança. Idoso deve ser tratado como… adulto. Simples assim.
A cultura de infantilizarmos os idosos é perigosa e traz pouco (ou quase nenhum benefício). Os familiares, na maioria das vezes, o fazem achando que é uma forma de carinho. Ótimo, mas o idoso, a partir de agora, precisa muito mais do que um cafuné e ser chamado de “vôzinho”. O idoso precisa ser respeitado e incentivado a se inserir na sociedade e na família de uma maneira diferente.
Quando a família cria um contexto infantilizado ao redor do idoso, está incentivando uma postura de comodismo e letargia, confortável para a pessoa em um determinado momento, mas cruel com o passar do tempo, levando muitos a um quadro de doenças psiquiátricas ou, no mínimo, dificuldade de relacionamento.
O idoso de hoje não pode ser o idoso dos anos 80 e 90. Décadas se passaram e muita coisa mudou. O idoso saudável que aceitar a fantasia do senhorzinho de bengala, sem a menor necessidade, ficará completamente perdido no mundo. O idoso precisa ser respeitado, admirado, ser fonte de inspiração e ver força em suas palavras e opiniões. Mas, para isso, precisa mostrar a todos, inclusive aos familiares, que nega qualquer tipo de coitadismo, mesmo aqueles bem intencionados.
Na cultura oriental já é assim e o idoso, muitas vezes até doente, tem uma autoridade inabalável. A coisa mais gostosa do mundo é o carinho, ainda mais quando ele vem como forma de reconhecimento e admiração. Mas sem muito “nheco-nheco”.

* Nayara Moreno
é enfermeira
pós-graduada
e Responsável
Técnica pela
AleNeto
Enfermagem 

  • Publicado na edição impressa de 13/10/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate