Relógio ainda é opção até para jovens, garante relojoeiro

Ernesto Romano é um dos relojoeiros mais antigos de Santa Cruz

Ernesto Romano está no ramo há 40 anos e já passou pelos
analógicos, eletrônicos e, enfim, os digitais; hoje, conserta todos

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

SAUDADE — Na parede, uma foto do saudoso Euclides Alves, o “Clidião”

Ernesto Romano brinca ao falar da idade: “Passei dos 70”. Relojoeiro há 40 anos, ele viu os ponteiros dos relógios se transformarem em números nas telas digitais. Embora exista quem diga que sua profissão está fadada à extinção, ele dá de ombros. Afinal, Ernesto garante que não falta serviço em sua pequena oficina na rua Conselheiro Dantas. “Conserto relógio de tudo quanto é tipo”, afirma.
A paixão pelos relógios aflorou ainda na infância, quando era um garoto curioso. “Mexia em tudo que me dessem. Mas gostava mesmo era dos relógios. Se estragava um, fuçava até fazer funcionar”, conta.
Sempre morando em Santa Cruz, ele abriu a “Oficina do Ernesto” ainda jovem. “Havia uma demanda muito grande. Naquela época, a maioria dos relógios era suíço”, lembra. Com o tempo, a população foi aderindo a outras marcas. “Passei a receber muitos do Japão. Hoje tem até chinês”, disse.

Durante todo esse tempo como relojoeiro, Ernesto já viu os mais variados ponteiros. Alguns, até mesmo, despertaram sua admiração. “Recebo relógios que nunca vi na vida. Muitos deles são impressionantes, sobretudo os de bolso”, conta.
Ernesto acredita que o uso dos relógios, atualmente, se deve mais à estética. “É puro glamour. Muitos utilizam porque acreditam ser elegante — e de fato é. Outros, porque herdaram o produto de algum ente querido, como um bisavô”, afirmou.

HORA CERTA — Ernesto Romano e Renan Teixeira: em comum, a paixão pelos relógios, especialmente os antigos

Renan Ribeiro Teixeira, 27, parente de Ernesto, trabalha na relojoaria há cinco meses. A paixão pelos relógios, apesar da diferença de idade, parece ser a mesma. Desde a infância, assim como Ernesto, é fissurado pelos ponteiros. Confessa que, antes de pegar o jeito, já estragou alguns. “Acontece. Era inexperiente”, diz.
Ocorre que Renan nem sempre foi relojoeiro. Já passou por escritórios, mas não gostou. Foi há sete anos que resolveu se entregar à verdadeira paixão. “Comecei a pesquisar sobre o funcionamento dos aparelhos e não parei mais. Decidi que era esse o meu caminho”, afirma.
Segundo ele, relojoaria é uma arte atrelada à matemática. “Tem que ser exato para funcionar”, avalia. Para Renan, os ponteiros sempre têm algo novo a oferecer. “Existem relógios com mais de cem anos de existência. Por quantos pulsos ou bolsos ele já passou? É isso que me fascina”, explica.

A máquina de um relógio de bolso do século XIX

Todo conserto tem de ser muito bem estudado. Às vezes, ele até devolve o produto ao cliente antes mesmo de consertar. “Ao examinar, muitos nem compensam ser arrumados”, relata.
A análise, aliás, é minuciosa porque pequenos detalhes fazem com que cada relógio seja único. “O princípio de funcionamento é o mesmo para todos, mas a batida, por exemplo, é diferente”, conta.
O problema é quando Renan recebe relógios sem peças, o que, hoje, é muito difícil de se encontrar. Se isso acontece, vai do gosto do cliente. “Eu explico a situação. Caso a pessoa queira, a gente corre atrás. Se não, fica como enfeite”, diz. Em algumas ocasiões, o próprio Renan “fabrica” a peça, adaptando restos de outros relógios.
Renan conta que, assim como todos os outros ramos, a indústria do relógio também teve de se adaptar. Graças a isso, os relógios de pulso não caíram em desuso. Enquanto conversa com a reportagem, ele mostra as novas tendências do mercado. “Existem, hoje, relógios digitais que são conectados, inclusive, ao próprio celular”, conta.
Apesar da tecnologia moderna, ele prefere os antigos. “Meu favorito é um americano, cuja fabricação ocorreu em 1891”, afirma, enquanto mostra o raro Waltham, que consertou e está em período de testes. À época de sua fabricação, os Estados Unidos não permitiam a importação de relógios para valorizar a indústria nacional. “Daí surgiu o Waltham, em 1850”, explica.

Renan Teixeira durante um conserto de relógio: peças minúsculas e delicadas

Tradição

Não são apenas os relógios de pulso ou bolso que a dupla Renan e Ernesto conserta. “Tem gente que não consegue dormir sem o tic-tac”, diz Renan. É claro que ele se refere aos tradicionais despertadores, cujo ruído ninguém suporta, mas que carrega uma função única e eficaz: despertar.
De vez em quando, também aparecem os antigos ‘cucos’, relógios mecânicos dos quais saía um pássaro a cada hora.
Ernesto, por sua vez, diz carregar a sensação de alívio. É que, mesmo com os milhares de celulares que hoje existem, vários jovens ainda gostam de relógios. Para Renan Teixeira, porém, há explicações. “Nas cidades grandes, por exemplo, para não tirar o celular do bolso e correr o risco de ser furtado, alguns optam pelo produto no pulso”, diz.
Romano parece se lembrar de cada relógio que consertou durante as três décadas de profissão. Mais do que isto, se recorda de cada relojoeiro com quem dividiu a profissão. “Conheci o Jair, o Portezan, o Clidião”, disse, referindo-se a antigos relojoeiros que já atuaram em Santa Cruz. Na parede, por sinal, há uma foto do ex-vereador Euclides Alves Filho, que por sua vez trabalhou na antiga Relojoaria Cristal, de Oscar Rosa. É muita história para contar, memórias que, nos dias agitados de hoje, não cabem numa volta dos ponteiros. 

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 20/10/2019
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