Memórias da UDN em S. Cruz

ADEMAR COM CYRO — Em 1951, o governador Ademar discursa em comício de Cyro Camarinha, contra a UDN

Atas mostram parte da história da UDN, partido que só
mostrou força após cisão no grupo de Leônidas Camarinha

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O livro ainda está bem conservado e tem mais de quarenta páginas manuscritas. Ele estava nos arquivos do ex-vereador Leandro Mendonça, que resolveu doá-lo ao jornal. Leandro é filho do saudoso contador Décio Mendonça, mas o livro tem relação com o avô, Manoel Mendonça Sobrinho, que foi vereador nos anos 1950. Trata-se do livro de registro das atas da UDN de Santa Cruz do Rio Pardo, legenda que fez história e contribuiu para o surgimento dos “azuis” e “vermelhos”, como eram conhecidos os dois grupos políticos rivais da cidade.
As atas começam em 1955 e terminam em agosto de 1963. O motivo é óbvio. Sete meses depois, um golpe militar instalou uma ditadura no Brasil que adiou eleições e, dois anos depois, extinguiu todos os partidos e implantou o bipartidarismo, com apenas duas legendas. A partir daí, como o regime militar permitiu a sublegenda, os grupos se dividiram em Arena-1 e Arena-2 em Santa Cruz do Rio Pardo.
A UDN foi criada em 1945, como um dos partidos políticos mais fortes de oposição a Getúlio Vargas. Era conservadora e defendia o liberalismo tradicionalista, a moralidade e a abertura econômica para o capital estrangeiro. Não por acaso, era considerado em Santa Cruz um partido de elite.
Um dos principais líderes nacionais da UDN foi Carlos Lacerda, jornalista e intelectual conhecido por discursos célebres. Em São Paulo, o nome mais forte da UDN foi o deputado estadual Roberto Costa Abreu Sodré, filho do segundo prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo, Francisco de Paula Abreu Sodré. É por isso que Sodré sempre teve íntima ligação com o grupo santa-cruzense de oposição ao deputado Leônidas Camarinha, especialmente quando se tornou governador de São Paulo indicado pelo regime militar.
Carlos Lacerda rompeu com a ditadura em 1966, quando houve a prorrogação do mandato do presidente Castello Branco, aliando-se a João Goulart e Juscelino Kubitschek para formar a “frente ampla” contra a ditadura. Os três morreram no espaço de apenas um ano, dando origem a várias teorias conspiratórias.

ATAS DA UDN — Livro de atas está conservado e é inteiramente manuscrito

12 anos de derrotas

O livro das atas da UDN de Santa Cruz começa em 1955, quando era o único partido de oposição a Leônidas Camarinha. O grupo já havia sido derrotado nas eleições municipais de 1947 e 1951, respectivamente por Lúcio Casanova Netto e Cyro de Mello Camarinha. De acordo com as atas do livro, os udenistas se reuniram no dia 15 de agosto de 1955, no salão da Associação Atlética Santacruzense, no sobrado da antiga Praça da República (hoje Leônidas Camarinha), para a convenção de reestruturação do diretório municipal. Os 41 membros presentes elegeram para presidente José Osiris Piedade (o “Biju”), sendo que para o diretório ainda foram eleitos Alziro Souza Santos, Joaquim Dias Machado, Lindolfo Ferdinando de Assis (tio-avô do atual prefeito de Santa Cruz), Oedes Ferreira, Ercílio Nicolau Nelli, Antonio Ribeiro Filho, Egídio do Amaral Mello, Aristides Moyses Nelli, Cristóvão Nelli e outros. A ata foi manuscrita pelo secretário Alzim de Souza Lemos.

CARVALHO PINTO — Em 1962, governador Carvalho Pinto visita Santa Cruz

Em 27 de agosto de 1955, uma nova convenção lança por aclamação a candidatura do advogado Omar Ferreira a prefeito e João Castaldin como vice. Com a presença dos vereadores do grupo — Alziro de Souza Santos, Manoel Mendonça Sobrinho e Joaquim Dias Machado —, foi escolhida também a chapa de candidatos à Câmara Municipal. O clima era de euforia e havia representantes de diretórios de outros municípios, além de integrantes de movimentos estudantis.
Na verdade, Omar estava sendo lançado candidato pela segunda vez, já que fora derrotado em 1947 por Lúcio Casanova Neto. E novamente o embate seria contra o farmacêutico, que era o candidato do PSD de Leônidas Camarinha. Mais uma vez, entretanto, Omar perdeu as eleições. Camarinha e Lúcio pareciam imbatíveis nas urnas.
Em 1956, uma ata registra a reunião com vários diretórios udenistas da região, sob a presidência do deputado Roberto Abreu Sodré. Houve discussão sobre a necessidade de aquisição de um “jornal partidário”, mas a questão esbarrava nas dificuldades financeiras do diretório estadual. Estas reuniões internas frequentemente contavam com a presença do deputado federal Sylvestre Ferraz Egreja, de Ipaussu.
Em 1957, o diretório foi reorganizado e José Osiris Piedade foi eleito presidente da UDN. Aparecem no documento nomes novos, como João José Corrêa, Wilson Gonçalves, João Brandini, Lineu Mastrodomênico, Guilherme Wolf Santos e outros. 



VELHA GUARDA — Em 1970, o governador Abreu Sodré se reúne no Icaiçara com antigos correligionários da UDN

União com ‘rebeldes’
de Camarinha foi decisiva

Em 1958, a UDN se fortaleceu com um racha no grupo de Leônidas Camarinha que nunca foi devidamente esclarecido. O fato é que nomes como Lúcio Casanova Neto, Onofre Rosa de Oliveira, Anísio Zacura e outros saíram do PSD de Camarinha e criaram o PDC (Partido Democrata Cristão). Camarinha, que nunca perdera uma eleição desde 1947, subestimou a força dos dissidentes e sofreria, no ano seguinte, sua primeira derrota.
Após negociações, o PDC de Lúcio Casanova aceitou se unir à UDN para o lançamento de candidaturas em coligação. Segundo o livro de atas, a coligação foi aprovada por unanimidade na convenção partidária da UDN do dia 16 de agosto de 1959. O nome escolhido para prefeito foi Onofre Rosa de Oliveira (PDC) e José Osiris Piedade (UDN) para vice.

POSSE — Em 1960, Onofre toma posse e é abraçado por Lúcio

Uma nova convenção conjunta, no dia 26 de agosto de 1959, sob a presidência de Mário Botelho do Amaral (PDC), discutiu detalhes da coligação. A ata não contém detalhes de um acordo firmado nos bastidores dos dois grupos, pois se naquele ano o candidato a prefeito seria do PDC, na próxima eleição a UDN teria direito a indicar o nome “cabeça de chapa”.
Em outubro, pela primeira vez na história da cidade desde a “Nova República”, a UDN-PDC impôs a Leônidas Camarinha uma fragorosa derrota. Onofre foi eleito com 1.318 votos de diferença. Para a Câmara, o prefeito Lúcio Casanova Neto – que se afastou meses antes para concorrer ao Legislativo – foi o vereador mais votado, com um índice de votação que nunca foi batido na história da cidade, cerca de 12% dos votos válidos.
Na cidade, houve forte comemoração da UDN-PDC, inclusive com cartazes provocativos a Leônidas Camarinha, chamado de “Borboleta” devido ao estilo de gravata que gostava de usar. Os “azuis”, portanto, agora eram fortes.
Animada, conforme mostra a ata de março de 1962, a UDN resolveu lançar candidato próprio a deputado estadual. O nome escolhido foi José Osiris Piedade, o “Biju”, que não conseguiu se eleger. A ousadia quase inviabilizou o acordo com o PDC, já que Lúcio Casanova foi eleito deputado estadual. Naquela eleição, porém, um outro santa-cruzense foi reeleito senador da República (leia na página D-8). Enquanto isso, os aliados do PDC decidem migrar para uma nova legenda, o PTN, pela qual havia sido eleito deputado Lúcio Casanova. Apesar das farpas, a união persistiu.

PROVOCAÇÃO — Em 1959, UDN vence em coligação e provoca Camarinha

No ano seguinte, 1963, o livro da UDN destaca as duas últimas atas registradas. Os documentos narram o lançamento das candidaturas de José Osiris Piedade (UDN) a prefeito e Anízio Zacura (PTN) para vice. Estava sendo cumprido o acordo de 1958, com a UDN indicando o candidato a prefeito. O prefeito Onofre Rosa de Oliveira, a exemplo do que fez Lúcio Casanova Neto nas eleições anteriores, se afastou do cargo para se candidatar a vereador. Como o vice “Biju” também disputaria o pleito como candidato a prefeito, assumiu o comando do município o presidente da Câmara, Paulo Gilberto Machado Ramos.
Entretanto, os adversários se fortaleceram e o deputado Leônidas Camarinha indicou seu próprio genro para disputar a prefeitura. Era Carlos Queiroz e o resultado foi a derrota da UDN-PTN.
Sete meses depois, veio o golpe militar, que prorrogou os mandatos, proibiu eleições livres para governador, prefeito das capitais e presidente, além de extinguir todos os partidos. Era o fim da UDN. Em Santa Cruz do Rio Pardo, sobrou apenas o histórico livro de atas para contar a história. 

  • Publicado na edição impressa de 27/10/2019
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