Beto Magnani: ‘A igrejinha’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

A igrejinha

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

Rapaz boa pinta. Não saiu antes de dar boa noite a todos. Foi.
— Esse aí é pastor ou corretor.
— O que você tem contra corretor e pastor?
— Nada. Só acho parecidos.
— O cara é Coach Neurolinguista.
— Como você sabe?
— Suspeita também.
— É pastor.
— Como a senhora sabe?
— Sou da igrejinha. Mas esse aí é fraco. Meu amigo ateu sabe mais de Jesus do que ele.
— Normal. São os novos tempos.
— Ele acabou de receber um dinheirão. É o que todo mundo tá dizendo lá na igrejinha. Parece que ganhou o processo contra um jornal que publicou, sem autorização, uma foto dele no cemitério durante o enterro de um amigo. Era uma reportagem não sei sobre o que. Ele apareceu por acaso lá no fundo da foto.
— Acontece.
— E daí os parentes que moram longe viram a foto na internet e acharam que o enterro era de um tio deles que não anda muito bem. Imediatamente postaram homenagens no Facebook.
— Nem telefonaram antes pra confirmar?
— Nada. O pior foi que o próprio tio que achavam que estava morto acabou lendo as homenagens e teve um treco. No dia seguinte ele morreu. A noticia da sua morte foi fatal.
— Que merda.
— Pois é. E o pastor é que acabou se dando bem. Ganhou uma indenização de mais de um milhão. É o que estão falando.
— Será que Jesus ajudou nessa?
— Sei não. Talvez. Pode ser. Só sei que a minha vida melhorou muito depois que decidi entrar pra igreja dele. Tô bem melhor.
— Já Jesus tá na mesma. Esse é o segredo deles minha senhora. Eles fazem a senhora se sentir importante, valorizam a sua decisão de entrar pra igreja mais do que valorizam Jesus. Esse é o pulo do gato. Beabá do Marketing. Bom não é o produto em si, bom é o ser que decidiu ter aquele produto. Esse é um vencedor que todos querem copiar. Seja um bom também. Marketing básico. Primeira aula do curso.
— O senhor tá desrespeitando a minha fé!? Pega esse seu marketing básico e enfia no fiofó do capeta!
A senhora falou e foi embora brava. Ficaram os dois senhores e eu, que estava quieto no meu canto, ouvindo a conversa. Não resisti.
— Será que devo ir atrás dela e pedir desculpas? – perguntou o senhor do marketing.
— Faz isso não. Agora já foi. Cagada tá feita. Pedir desculpas vai ser a mesma coisa que passar perfume em bosta. Não adianta nada.
Os dois gargalharam. Muito. Eu continuei no meu canto. Quieto..? (Magú) 

  • Publicado na edição impressa de 27/10/2019

 

Sobre Sergio Fleury 5353 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate