Geraldo Machado: ‘História da Carochinha’

História da Carochinha

Geraldo Machado*

O assunto trata da constância com apoio pedagógico e, por que não —, lúdico, de recrear as crianças de escola, na escola. Contar histórias, fábulas, apólogos, sem esquecer do primado didático que sempre foi o elo mais frágil dessa corrente, dessa cadeia. Escola não é jaula ou gaiola: não tem grade, não tem iscas nem engodos: induz, move a criança, ela quer movimento. À professora cabe andar com ela, encaminhá-la nas calçadas, educá-la na classe
Educar uma criança não é vê-la crescer, é crescer com ela. Esse menino será o homem de amanhã; essa menina vai ser a mãe mais tarde. Vamos pois, o Estado e o professor, enquanto é cedo, fazê-los pessoas, criaturas de bem. O contrário, o incompatível seria o aluno acabar lunático e, o professor viver no mundo da lua, de óculos escuro e óleo bronzeador no rosto para o sol não lhe queimar. As crianças “descelularizadas”, são especulas, vamos aproveitar essa parte fraca, a mesma do Pequeno Príncipe. “O Pequeno Princípe” é um livro universal, traduzido para 180 idiomas em nosso planeta, fora o Asteróide, o seu reino. Eu li “O Retorno de Jovem Príncipe”, de A. G. Roemmers, da editora Fontana. Entendi sem fazer perguntas… quem perguntava era o Jovem Príncipe.
O autor do prefácio desse livro (que eu ganhei de uma pessoa gentil), diz “…os contos de Voltaire, no século 18, ajudaram a florescer os ideais de liberdade e justiça”. Reli, de Raimundo Morais, paraense de Belém, o livro com o título: “Histórias Silvestres do tempo em que Animais e vegetais falavam na Amazônia”. O título vale pelo conteúdo, é leve. Morais escreveu esse livro de apólogos, para os seus netinhos, quatro, e diz a eles: “ Os Apólogos que se vão ler, são destinados a crianças de meio século de idade e a velhinhos de 11 anos incompletos…” Ele escreveu o livro em 1939, enquanto eu tinha 19 anos completos, e o mundo entrava em guerra que só terminou em Hiroshima, com a bomba atômica. Nesse ínterim, os animais e os vegetais da Amazônia programavam uma “Festa no Céu”, o quarto Apólogo do escritor. Antes de Raimundo Morais, José Veríssimo escreveu “Cenas da Vida Amazônica”. Era a “ Porangaba ” beleza, boniteza, na língua dos índios, a “língua geral”, o “Nheengatu”. O índio contava histórias, lendas. No “O Selvagem”, o General Couto de Magalhães escreve (na segunda parte do livro), a “Mitologia Zoológica da Família Tupi-Guarani.
No passado, as fábulas foram inventadas. Fedro (fabulista latino); Esopo, grego, foi escravo.
Leitor amigo, chega de colar o trabalho alheio. Quero terminar sem remorso, sem vaias, sem botinadas à guisa de torpedos. Raimundo Morais, numa história sobre a Vitória Régia, conta que essa Ninfeácea tem este nome porque foi batizada por Lineu, conhecido botânico inglês, com o nome da soberana inglesa, a Rainha Vitória. Os nacionalistas da esquerda inglória e levedada vão virar um bicho do Raimundo Morais (fauna e flora), ao conhecer a verdade, inimiga da xenofobia. Vão se valer dos bois Caprichoso e Garantido, lá de Nazaré, no Pará. Vão investir, bufar no maracatu paroara. Imagine, leitor quando souberem que o nosso botânico de Bréves é da “Societé des Americanistes de Paris”? Vão queimar a obra de La Fontaine. Tenho dó dos dois velhinhos, Fedro e Esopo. Vão gritar: “Viva Batisti, o inocente!” O Celso Amorim (que não é do tempo que o Itamarati falava e era ouvido), vai emprestar submarinos (não o yellow), para a “presidenta” argentina recuperar as Malvinas para o rei Maradona. Chega de rainha Vitória. O Mercosul que se dane, se “bolivarize”. O fiasco, hoje, internacionalizou-se e, o Reino Unido abra o olho: o revanchismo não quer saber quem descobriu primeiro o ovo, a galinha ou as Falklands.
Enquanto isso corre e passará, os passarinhos lá no Sítio, com o lado do tio Quincas e sua mata ciliar povoada de capivaras, garças, seriemas, marrequinhos, gansos, aguapés (fauna e flora), preparam a Festa no Céu. O gado não vai, se for, a freguesia fica sem leite, e o leiteiro, o João, não vai ter o que fazer. Em tempo: o convite (com pedido de confirmação antecipado), veio do Pará, do boi Garantido. O Caprichoso é nacionalista, não vai, não sobre, não sabe… Salve, Salve! Eu sigo até o fim o lema: Contem histórias às crianças (não doutrinas importantes pelos xenófobos contradizentes, chatos, maçantes), histórias da Carochinha. Nós somos, todos, crianças mais de uma vez. 

* In memoriam

  •  Publicado originariamente em 2012
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