Artigo: Fuja da solidão

Fuja da solidão

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

A fase idosa é recheada de situações inéditas. Uma delas é o esvaziamento de pessoas que estão a sua volta, principalmente por dois motivos naturais e bem óbvios: seus contemporâneos vão morrendo ou ficando doente.

Essas ausências começam a ter reflexos perigosos na vida do idoso: a solidão. Esse vazio deixado pelo marido ou esposa, irmãos, amigos, primos dificilmente pode ser preenchido por filhos e netos. Claro que o carinho e a companhia dos familiares mais próximos são importantes. Mas há uma lacuna que apenas pessoas de sua geração preenchiam. E essa lacuna ficará lá para sempre.

Sentir-se sozinho é diferente de sentir-se abandonado. Muitas famílias estão próximas ao idoso e dão a ele toda a estrutura necessária, mas ainda assim ele está sozinho. A solidão é um sentimento particular e nasce de dentro para fora. Ela se alimenta do fato de não ter mais por perto pessoas que acompanharam sua história, fizeram parte de sua juventude, falam a mesma língua.

É fácil para os mais jovens entenderem como é isso. Imagine um homem de 20 anos em uma baile da terceira idade. Ele ficará completamente deslocado, entediado e sem alguém que esteja em sua sintonia. É isso que o idoso sente. A diferença é que o jovem uma hora vai embora do “baile dos vovôs” e irá reencontrar seu pessoal. Já o idoso vai viver o tal sentimento de estar deslocado para sempre.

Se as pessoas não podem ser substituídas, o caminho é encontrar momentos e situações que preencham esse tal vazio: viagens, hobbies, livros, esportes (na TV e como prática de exercícios), etc. É aquela história cantada em verso e prosa aqui neste espaço quase todos os domingos: o idoso precisa ocupar a cabeça.

Iniciar atividades prazerosas trará, naturalmente, sensações e satisfações adormecidas ou até então desconhecidas. Aí começamos um caminho para fugir da solidão. Essa guerra começa a ser vencida quando mudamos nossa perspectiva diante da vida, principalmente de nossa rotina. A idosa que sofre por lembrar do falecido esposo toda vez que vai jantar, sentada à mesa e olhando a cadeira vazia, precisa encontrar um novo meio de fazer suas refeições, um novo cardápio, um novo hábito.

É impossível manter a mesma rotina quando quem fazia parte desta rotina não está mais lá. A vida continua. Diferente, mas continua. A força que o idoso vai encontrar para encarar a vida está no amor próprio e na busca por satisfação pessoal. É transformar a solidão pelo prazer de estar bem consigo mesmo. 

* Nayara Moreno
é enfermeira
pós-graduada e
Responsável
Técnica pela
AleNeto
Enfermagem 

  • Publicado na edição impressa de 24/11/2019
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