Suíngue brilhou em Santa Cruz, em clubes grandes e até jogou na seleção

Suíngue ao lado de Rivelino, durante treino da seleção para um amistoso contra a Hungria

O garoto que foi campeão pela Santacruzense brilhou no
Palmeiras, no Corinthians e vestiu a camisa da seleção

Suíngue, já no Palmeiras, é capa de revista esportiva

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Quando chegou a Santa Cruz do Rio Pardo, em meados de 1962, Álvaro Aparecido Pedro era ainda um garoto. Mas já ostentava o apelido “Suíngue”, numa alusão ao ritmo musical que imitava. Veio emprestado da Prudentina para vestir a camisa da Esportiva. “Ele chegou praticamente criança. Tinha só 16 anos e, mesmo jogando uma única temporada, era nosso xodó”, lembra o ex-atacante Antônio Bravo, 77, que foi campeão da Segunda Divisão com aquele time.

Há uma injustiça com a Esportiva na história de Suíngue pesquisada na internet. Raros sites apontam que ele foi jogador — e campeão — pela Santacruzense. Segundo a maioria das informações, ele jogou as temporadas de 1962 e 1963 pela Prudentina, de Presidente Prudente. De fato, Suíngue era jogador daquele time, mas havia sido emprestado à Santacruzense. Se destacou tanto em Santa Cruz do Rio Pardo que a Prudentina não quis renovar o empréstimo, percebendo o valor em alta do passe do volante.

NO ELENCO — O histórico time de craques da Esportiva campeão da temporada de 1962, que terminou em 1963, teve Suíngue no elenco
Suíngue com o amigo Bravo: dois craques da Esportiva

De fato, em 1966 Suíngue já estava vestindo a camisa do Palmeiras, sendo, inclusive, campeão paulista pelo alviverde no disputadíssimo campeonato daquele ano. Era a famosa “academia”, com Ademir da Guia, Dudu e outros craques.

Entretanto, Suíngue praticamente só comemorou o título, pois em maio daquele ano sofreu um grave acidente que provocou a morte do colega Luiz Carlos Cunha, ex-lateral da Prudentina e do Palmeiras. A tragédia aconteceu no dia 28 de maio de 1966, na rodovia Raposo Tavares. Suíngue ficou gravemente ferido, mas conseguiu se recuperar e voltou aos gramados. As cicatrizes no rosto, porém, ficaram para sempre.

No Palmeiras, ficou até 1968 e jogou 75 partidas, conquistando três títulos, inclusive o “Robertão”, o campeonato brasileiro da época. No entanto, passou a ser considerado um “coringa” porque, no elenco recheado de craques, não havia muito espaço e o técnico o escalava em várias posições.

O jogador chegou a vestir a camisa da seleção brasileira em amistosos antes da convocação do time que foi tricampeão mundial em 1970, no México.

Em 1969, foi para o Corinthians de Rivelino e atuou em 173 jogos, marcando 22 gols. Seu último jogo pelo “Timão” aconteceu em junho de 1973, quando o Corinthians empatou com o São Paulo por 1×1, gol de Vaguinho.

Suíngue, então, foi para o Rio de Janeiro, quando jogou no Fluminense e Vasco. No final da carreira, ainda atuou no América do México e no Clube do Remo, do Pará. No entanto, não abandonou os gramados, já que foi árbitro profissional de futebol no Estado do Espírito Santo. Aposentado, voltou à cidade natal, Rancharia, onde montou uma escolinha de futebol. Morreu em dezembro de 2013, de problemas cardíacos. Tinha 67 anos.

Time do Corinthians em 1969, com Suíngue no elenco

‘Era muito tímido’

Suíngue disputa jogada com Pelé

O ex-centroavante Antônio Bravo, que jogou ao lado de Suíngue no time campeão da Esportiva em 1963, disse que o garoto se deu bem quando chegou à cidade emprestado pela Prudentina. “Hoje se fala que o time ‘encaixou’. Na nossa época, a gente falava em entrosamento e foi isto o que aconteceu com aquele grupo campeão”, contou o ex-jogador, que mora em Santa Cruz.

Bravo diz, porém, que o elenco logo percebeu que Suíngue era um atleta diferenciado. “Ele e o meia-esquerda Milão formaram uma dupla de volantes sensacional, dando segurança ao elenco. Era só olhar para o Milão e a gente já sabia onde ele iria meter a bola. Já o Suíngue era o carregador de piano, correndo o campo inteiro e também armando as jogadas”, contou. Uma curiosidade: segundo Bravo, o garoto era muito tímido no início da carreira.

Suíngue jogou todo o campeonato em que a Santacruzense fez história. Depois do título, só não atuou no jogo da entrega de faixas porque se contundiu numa cabeçada. “Ele chegou a ficar internado, pois foi um ferimento feio na cabeça e teve que levar alguns pontos. E logo depois voltou para a Prudentina”, contou Antônio Bravo.

SAUDADE — O ex-atacante Bravo olha para foto do time campeão da Esportiva em 1963
O jogador, já aposentado

Segundo o ex-atacante, a diretoria da Esportiva se esforçou para contratar Suíngue em definitivo. “Aliás, o preço não era muito alto. O Toninho Yoneda, nosso presidente, fez de tudo, mas o valor estava fora das condições financeiras do nosso time”, lembrou.

Bravo conta que, mesmo longe de Santa Cruz, Suíngue manteve suas amizades. “Quando viajava de São Paulo para Prudente ou Rancharia, ele sempre passava em minha casa para tomar café ou almoçar. Ele me visitou mesmo depois daquele grave acidente”, lembrou.

Com a saída de Suíngue e outros jogadores após o título — e o acesso — de 1963, a Esportiva ainda teve disputas memoráveis na primeira divisão do campeonato paulista, imediatamente atrás da Divisão Especial dos grandes clubes.

Em 1964, disputou o rebolo para não cair. Conseguiu se salvar, mas, no ano seguinte, ficou a dois pontos do acesso à principal divisão, terminando o torneio na quarta colocação. Em 1966, Bravo foi o artilheiro do campeonato em que a Santacruzense foi a terceira colocada. Ficaram as saudades, inclusive do amigo Suíngue.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 1º/12/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate