Beto Magnani: ‘O sorvete’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

O sorvete

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

A porta estava fechada. A mãe e a filha que também perderam a viagem sentaram na sarjeta indignadas.
— E agora mãe?
—Agora a gente deixa o sorvete pra outro dia.
— Será que eles foram no velório?
— Que velório filha?
— Do cara da televisão que subiu no telhado.
— Subiu no telhado?
— É, igual ao gato que morreu.
— Que gato?
— O gato da piada.
— Que piada?
— Ah mãe! Procura no Google. Só sei que todo mundo foi no velório do cara que subiu no telhado.
— Eu gostava dele. Era um ídolo.
— Eu sei mãe. Mas eu nem sabia quem era. Esses caras assim eu não conheço. Se fosse da internet… Conheci só agora que morreu. A fila do velório tá passando toda hora na tv. Só tem doido.
— Mais respeito filha!
— Ué, só tem doido mesmo!
— E esse povo da sorveteria?! Onde foi parar?
— Tô falando, devem ter ido pra São Paulo no velório do homem.
Eu não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti.
— Vocês também gostam desse sorvete?
— Claro, é o mais gostoso da cidade. — respondeu a criança.
— Eu venho desde que tinha a idade dela. – emendou a mãe.
— Até minha avó vinha quando tinha a minha idade! — completou a filha.
— Essa é tradicional! E gostoso hein! Vamos filha, não vai ter sorvete hoje. Quero chegar em casa logo pra ver o enterro. Boa tarde moço.
Despediram levantando da sarjeta e foram embora com a mãe segurando desajeitadamente o braço da filha, que parecia não estar com muita vontade de ver enterros. Um senhor atravessou a rua em minha direção.
— Está esperando abrir a sorveteria? — perguntou sorridente.
— Nunca vi fechada neste horário. — respondi.
— Pois é, mas não vai abrir mais não. Fechou de vez. Depois de setenta e nove anos! Minha falecida irmã estava na inauguração. É a crise. Fecharam da noite pro dia. Morreu. Pegou todo mundo de surpresa.
— Que pena.
— Também acho. Se o povo soubesse antes que ia fechar, era capaz de ter até abaixo assinado. Deveriam pelo menos ter feito uma despedida. Preparado a cidade. Tipo aquela piada do gato que subiu no telhado. Você conhece?
— Sim, quem não conhece? — respondi surpreso com a coincidência.
— É a crise. E se continuar com essa palhaçada de governo muita coisa ainda vai fechar. Eu avisei! Se você quiser, na rua de cima tem outra sorveteria. Mas o sorvete não é muito bom não.
Falou e saiu assobiando, com ar perspicaz, o Réquiem do Mozart. Fiquei espantado; não esperava essa trilha sonora. Tentei lembrar detalhes da piada do gato, mas não consegui. Fui atrás de algo gelado. E vivo. (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 1º/12/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate