A guerra pelo diploma

Husam Halo fugiu dos horrores da guerra na Síria e resolveu vir ao Brasil

Refugiado sírio que mora em Santa Cruz
tem o diploma de Direito validado pela Uenp

André H. Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Após uma luta que durou mais de um ano, o sírio Husam Halo enfim recebeu, na semana passada, a validação de seu diploma de Direito pela Universidade Estadual do Norte Pioneiro, a Uenp. Hoje com 48 anos, Husam chegou ao Brasil quando tinha 44 anos, em 2015, quando resolveu fugir da guerra que há oito anos assola o país árabe.

Empresário bem-sucedido na Síria, Husam mantinha em Aleppo, onde morava, uma loja de artigos esportivos. Também advogava para a Organização das Nações Unidas, a ONU, ajudando na repatriação de refugiados. Quando os conflitos militares e civis estreitaram, Husam percebeu que não haveria saída senão deixar tudo para trás e sair do país. O destino já era certo: o Brasil.

Husam Halo mostra o tão sonhado diploma de Direito, enfim reconhecido pela Universidade Estadual do Norte Pioneiro, a Uenp.

Pousou em São Paulo, passou por Avaré e Assis, mas acabou em Santa Cruz do Rio Pardo. Desde o início, decidira que o ideal seria uma cidade pequena. Não gostaria de criar os dois filhos nos grandes centros. “Até porque as oportunidades de trabalho, em São Paulo por exemplo, são mais difíceis, sobretudo para nós, estrangeiros”, afirmou.

Apesar de não ter perdido os vínculos com muita gente — inclusive familiares — que ainda estão na Síria e com quem mantém contato diariamente, Husam perdeu outras coisas. Entre elas, amigos e entes queridos. “Não tenha dúvidas disso. Muita gente morreu”, lamentou.

Um de seus carros enquanto ainda morava no país árabe

Chegou em Santa Cruz de mãos vazias. Recebeu ajuda de muita gente e se descobriu na culinária. “Quando você precisa começar do zero, pode enxergar outras habilidades que tem”, disse. Recentemente, abriu um restaurante, o “Siriana”, especializado em comida árabe. Mas o sonho de voltar ao ramo jurídico não foi embora.

Formado em Direito pela Universidade de Aleppo, a segunda maior daquele país, juntou a documentação e enviou à Uenp há pouco mais de um ano. Na semana passada, recebeu a informação de que a Norte Pioneiro validou seu diploma. Agora, resta estudar para o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil.

Ainda se adequando ao português, Husam recorre ao inglês quando não se recorda de algumas palavras. Durante a entrevista, seu filho, que foi “abrasileirado” como Marcos — mas originalmente chama-se Hasan —, também ajudou a traduzir frases que Husam formulou em árabe.

O maior obstáculo que Husam encontra, porém, não é o idioma, mas tempo para estudar, já que o trabalho no restaurante consome grande parte de suas horas semanais. Por isso, não sabe se vai prestar o exame já no ano que vem.

Mas ao Direito propriamente dito, o já sírio está habituado. “O Direito sírio é muito semelhante ao brasileiro. As leis são parecidas e os recursos, também. Temos extensos códigos e estatutos. Tudo isso”, afirmou. Além disso, Husam também estudou na faculdade os grandes pensadores que norteiam o pensamento jurídico. São Rousseau, Montesquieu, Maquiavel e muitos outros.

Ele entende que Santa Cruz não possui uma ONU para trabalhar, mas ainda pretende advogar em causas menores depois que passar na prova da OAB. “Se surgir a oportunidade de voltar às Nações Unidas, porém, eu iria”, contou.

A empresa de Husam Halo na Síria, onde ele vendia artigos esportivos

Cotidiano

Amor pelo Brasil. É essa a frase que Husam usa para agradecer a população que o acolheu, a quem define como “muito amigável, receptiva e calorosa”.

Embora ainda esteja na fila de espera para que sua nacionalidade brasileira seja reconhecida, o sírio já define o País como sua “nova pátria”.

Husam não pretende voltar a morar na Síria. Pai de dois filhos, Sara e Hasan, ele afirma que o futuro deles está no Brasil. “Não compensaria voltar. Perdi tudo na Síria. Nem teria por quê”, disse. Sara, aliás, já foi aprovada na faculdade e também aguarda o resultado de outros vestibulares. Quer cursar Odontologia.

E por mais abrasileirado que Husam e sua família estejam, ele ainda prefere a comida síria. “Da brasileira, provei só o básico: dos pastéis ao arroz e feijão. Mas a culinária síria é cheia de temperos e especiarias e é disso que gosto”, brinca.

Os dias de Husam são, em geral, muito corridos. Trabalha de domingo a domingo. Aos sábados, vende alimentos no supermercado Alvorada, que abriu as portas para que ele tenha uma renda extra. “Me ajudam muito”, afirma. 

  • Publicado na edição impressa de 15/12/2019
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